O governo brasileiro anunciou uma iniciativa que pode redesenhar o papel do país na economia global das próximas décadas com a atualização do mapeamento de seus minerais estratégicos.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que solicitou um levantamento completo sobre as riquezas do solo e subsolo do país, citando o fato de que apenas cerca de 30% do potencial mineral nacional já foi explorado com precisão.
O plano envolve a criação de uma comissão “ultraespecial”, responsável por desenvolver essa cartografia mineral com apoio de especialistas e instituições parceiras.
O que são os minerais críticos e por que o mundo quer tanto?
Minerais críticos, também chamados de estratégicos, são elementos essenciais para tecnologias avançadas, principalmente aquelas ligadas à transição energética, mobilidade elétrica, inteligência artificial, energia limpa, produção de semicondutores e defesa.
Entre eles estão o nióbio, o lítio, o cobalto, o grafite, o tântalo, o manganês de alta pureza e as chamadas terras raras (como o neodímio e o lantânio).
Apesar do nome, esses minerais não são necessariamente raros, mas sim difíceis de serem encontrados em grandes volumes, com alto grau de pureza e em locais geopoliticamente estáveis. E é justamente aí que o Brasil entra.
Brasil, potência mineral ainda inexplorada
Com uma das maiores extensões territoriais do mundo e geodiversidade reconhecida, o Brasil é riquíssimo em elementos críticos. Entretanto, por décadas, a exploração mineral esteve mais voltada ao ferro, ouro, bauxita e manganês, ignorando em grande parte os recursos que agora se tornam estratégicos.
Com a crescente demanda global por baterias de carros elétricos, turbinas eólicas e painéis solares, essa negligência se transforma rapidamente em oportunidade.
A atualização do levantamento mineral é, segundo Lula, um passo para fazer do Brasil não apenas um exportador de matéria-prima, mas um país com soberania sobre suas riquezas e poder de barganha nas cadeias globais de valor.
Controle nacional
Durante o anúncio, o presidente reforçou que as empresas que receberem autorização para explorar novos depósitos precisarão agir sob rígido controle do Estado. O objetivo é evitar que as áreas ricas em recursos estratégicos sejam vendidas indiscriminadamente para grupos estrangeiros, sem que a população brasileira usufrua dessa riqueza.
“Se eu nem conheço esse mineral e ele já é considerado crítico por outra nação, então é ainda mais urgente que nós, brasileiros, tomemos posse e compreendamos o valor disso”, destacou Lula.
A fala reforça uma abordagem nacionalista sobre os bens minerais — vista como necessária para que o Brasil deixe, nas palavras do presidente, de ser um país “em vias de desenvolvimento”.
Interesse estrangeiro acende alerta
As falas do presidente foram feitas em um contexto delicado: o aumento do interesse dos Estados Unidos pelos minerais brasileiros.
Gabriel Escobar, representante da embaixada americana no Brasil, e Raul Jungmann, presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), confirmaram recentemente que os EUA estão atentos às oportunidades no setor mineral brasileiro.
Além disso, Lula fez críticas à postura de Donald Trump, que pretende impor tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros. O presidente brasileiro usou o momento para reiterar que o Brasil está aberto à cooperação internacional, desde que respeitado como parceiro soberano e estratégico.
Desenvolvimento, não dependência
O novo mapeamento geológico não é apenas uma política de infraestrutura mineral, mas uma estratégia geoeconômica. A proposta do governo é transformar os recursos em desenvolvimento industrial, tecnológico e social, não apenas em commodities para exportação bruta.
Isso exige investimento em ciência e tecnologia, acordos com cláusulas justas e capacidade de refino e beneficiamento local. Ou seja, o Brasil quer passar de exportador de minérios para produtor de valor agregado, com baterias, componentes eletrônicos e sistemas de energia avançada produzidos no país.
Desafios e oportunidades
Entre os desafios estão a burocracia estatal, a insegurança jurídica, a falta de infraestrutura em regiões ricas em minerais estratégicos e os impactos ambientais. Para avançar com responsabilidade, o governo terá que equilibrar o crescimento com a proteção de biomas como a Amazônia, onde muitos desses minerais estão localizados.
Por outro lado, a oportunidade de reindustrializar o país com base em seus próprios recursos é rara. O domínio das cadeias de fornecimento desses minerais é considerado uma das principais estratégias de poder do século XXI, e o Brasil tem, literalmente, o que o mundo precisa debaixo dos pés.





