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Árvore exótica era esperança para reflorestamento, mas vira alvo de proibição

Por Leticia Florenço
21/07/2025
Em Colunas, Mais Tendências
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Leucena - Reprodução/iStock

Leucena - Reprodução/iStock

A introdução de espécies exóticas no ambiente brasileiro não é novidade. Por décadas, diversas plantas foram trazidas de outras regiões do mundo com objetivos aparentemente nobres, como recuperação de solos, controle de erosões e aumento da produção agrícola.

No entanto, algumas dessas escolhas, como a da Leucaena leucocephala, conhecida popularmente como leucena, mostraram-se equivocadas ao longo do tempo. O que começou como uma estratégia de reflorestamento e alimentação animal, acabou se tornando uma grave ameaça à biodiversidade e ao equilíbrio ecológico.

A origem da leucena e a promessa do reflorestamento

A leucena é uma leguminosa originária da América Central e foi introduzida no Brasil com a intenção de servir como forrageira para o gado, especialmente em regiões semiáridas.

Ela também ganhou espaço como uma solução para recuperação de áreas degradadas, devido à sua capacidade de fixar nitrogênio no solo, crescer rapidamente e resistir à seca.

Essas características encantaram técnicos e produtores rurais, tornando a espécie amplamente utilizada em projetos de reflorestamento e produção agropecuária.

O alerta dos especialistas

O professor Lamartine Oliveira, da Universidade Federal do Ceará, chama a introdução da leucena de “erro técnico”. Ele destaca que a planta foi incorporada ao ambiente sem avaliação rigorosa dos impactos ecológicos.

Por ser altamente adaptável, de reprodução veloz e difícil erradicação, a leucena rapidamente se espalhou por áreas naturais e urbanas, competindo de forma desleal com espécies nativas.

O resultado: perda de biodiversidade, empobrecimento dos ecossistemas e desequilíbrio na fauna local. A planta se tornou, assim, uma das espécies invasoras mais problemáticas em diferentes regiões do Brasil, do Nordeste ao Sul.

Impactos ambientais

A leucena apresenta uma característica chamada alelopatia, que consiste na liberação de substâncias químicas que inibem a germinação e o crescimento de outras plantas ao seu redor. Isso faz com que, ao ocupar um espaço, ela forme populações densas e praticamente monoculturais, impedindo a regeneração da vegetação nativa.

Em Piracicaba (SP), por exemplo, a presença massiva da leucena nas margens do Rio Piracicaba gerou um fenômeno descrito como “deserto verde”: uma paisagem visualmente verde e saudável, mas ecologicamente empobrecida, com baixa diversidade vegetal e escassez de fauna.

Sem diversidade de plantas, os animais perdem suas fontes de alimento e abrigo, rompendo as cadeias ecológicas naturais.

Esforços municipais e estaduais

Ceará: O estado elaborou, em 2021, uma lista de espécies vegetais exóticas invasoras, incluindo a leucena, e recomendou a substituição por espécies nativas. A Secretaria de Meio Ambiente reforçou que, após o primeiro corte, a planta rebrota com facilidade, exigindo múltiplas ações para controle.

São Paulo: Diversos municípios do interior, como Itapira, Caçapava, Sorocaba e Piracicaba, vêm adotando leis, decretos e planos para a erradicação da leucena. Em geral, essas ações envolvem a retirada mecânica da planta, substituição por árvores nativas e capacitação de profissionais para identificar e manejar áreas invadidas.

Rio Grande do Sul: Desde 2013, a leucena faz parte da Lista Estadual de Espécies Exóticas Invasoras. A Secretaria de Meio Ambiente e Infraestrutura aponta que, além de competir por espaço e nutrientes, a planta altera significativamente a vegetação e a fauna locais. O cultivo da espécie ainda é permitido, mas com restrições e sob fiscalização.

O desafio do controle

Embora leis e políticas públicas estejam em vigor, o controle da leucena é extremamente difícil. Suas sementes podem permanecer viáveis no solo por até cinco anos, e a capacidade de rebrota exige intervenções frequentes.

Segundo especialistas, erradicação completa é praticamente impossível, o objetivo realista é manter a população da espécie em níveis que reduzam seus danos ambientais.

A estratégia mais eficaz envolve três pilares:

  1. Educação ambiental: Informar a população e gestores sobre os riscos das espécies invasoras.
  2. Legislação rigorosa: Proibir o cultivo, a comercialização e o plantio da leucena.
  3. Fiscalização ativa: Monitorar e aplicar as leis, punindo infrações e promovendo a substituição por espécies nativas.

A restauração ecológica

O sucesso da restauração ecológica depende da escolha correta das espécies que irão ocupar o espaço deixado pelas invasoras. Além de resistirem às condições locais, as árvores nativas promovem o retorno da fauna, o equilíbrio dos ciclos naturais e a conexão com o ecossistema original.

Iniciativas como o curso de capacitação realizado em Piracicaba, que envolveu garis, estudantes e técnicos, mostram que o combate à leucena pode ser uma oportunidade de reeducação ambiental e valorização da biodiversidade regional.

O controle da leucena ainda está longe de ser alcançado, mas o reconhecimento do problema e a mobilização de políticas públicas e sociais são passos fundamentais.

Dúvidas, críticas ou sugestões? Fale com o nosso time editorial.
Leticia Florenço

Leticia Florenço

Filha da Terra da Luz, jornalista pela Universidade de Fortaleza (Unifor).

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