Enquanto o mundo viveu a tensão crescente da Guerra Fria, com as principais potências desenvolvendo arsenais nucleares cada vez mais sofisticados, a América Latina trilhou um caminho distinto.
O continente, mesmo com suas instabilidades políticas, não seguiu pelo caminho da proliferação nuclear. Esse desvio do curso global não foi obra do acaso, mas resultado de um processo diplomático que começou ainda nos anos 1950 e causou, em 1967, na criação da primeira zona densamente povoada do mundo livre de armas nucleares: a América Latina.
As origens de uma escolha pacífica
Dois fatores explicam essa decisão inédita. Em primeiro lugar, a região vivia, na época, sem grandes disputas interestaduais – uma estabilidade relativa em comparação com outras partes do mundo.
Em segundo, nenhum país latino-americano havia desenvolvido, até então, armamentos nucleares, o que facilitava a articulação para evitar que isso acontecesse. Esse contexto pacífico permitiu que o debate sobre desnuclearização se fortalecesse de forma preventiva e colaborativa.
O debate sobre a não proliferação ganhou novo impulso com a Crise dos Mísseis de Cuba, em 1962. O episódio, que quase levou Estados Unidos e União Soviética à guerra nuclear, alarmou os países da região.
O Brasil teve destaque nesse momento, propondo uma grande iniciativa de desnuclearização regional. Ainda sob um governo civil, o país via no desarmamento uma forma de evitar envolvimentos indesejados e poupar recursos.
A mudança de postura após o golpe militar
No entanto, com o golpe militar de 1964, o Brasil mudou sua visão sobre o tratado em andamento. O novo governo enxergava ameaças à soberania nacional nos termos propostos e passou a defender a ideia de testes nucleares para fins pacíficos, especialmente voltados à engenharia.
A reticência brasileira abriu espaço para a ascensão do México como articulador da proposta de uma zona livre de armas nucleares.
Tratado de Tlatelolco
Foi o México que assumiu a liderança e conseguiu, em 1967, consolidar o Tratado de Tlatelolco, que declarava a América Latina e o Caribe uma região desnuclearizada.
A assinatura do tratado foi um marco diplomático e rendeu ao chanceler mexicano Alfonso García Robles o Prêmio Nobel da Paz em 1982. A iniciativa foi reconhecida como um modelo de diplomacia preventiva e cooperação regional.
Apesar do tratado, Brasil e Argentina mantiveram uma postura ambígua por décadas. Ambos os países estavam interessados em manter a possibilidade de desenvolver tecnologia nuclear e viam um ao outro como competidor estratégico.
A corrida tecnológica entre os dois teve raízes em ambições industriais e no desejo de autonomia energética. A Argentina, ainda sob o governo de Juan Domingo Perón, investiu em pesquisa nuclear como parte de seu projeto de industrialização.
Outros fatores complicaram o cenário. A França, por exemplo, resistiu a incluir seus territórios ultramarinos nas Américas nos termos do tratado. Já os Estados Unidos, por meio do programa “Átomos para a Paz” e da criação da Agência Internacional de Energia Atômica, tentaram oferecer incentivos para que os países desistissem de qualquer ambição bélica, promovendo o uso civil da tecnologia nuclear.
Aprovação definitiva após a redemocratização
Somente na década de 1990, com a redemocratização de Brasil e Argentina, os dois países aprovaram integralmente o Tratado de Tlatelolco.
A confiança aumentou, o clima geopolítico mudou e ambos passaram a integrar formalmente a rede de países comprometidos com a não proliferação de armas nucleares na América Latina. A adoção plena do tratado representou o fim das desconfianças e o início de uma nova era de cooperação.
A Guerra das Malvinas e a primeira violação da zona de paz
O tratado, porém, foi colocado à prova em 1982, durante a Guerra das Malvinas. A Argentina acusou o Reino Unido de violar a zona livre de armas nucleares ao movimentar submarinos com propulsão nuclear e navios armados com ogivas nucleares na região.
Foi a primeira vez que se questionou formalmente o cumprimento do tratado em um cenário de conflito real. A denúncia chegou ao organismo responsável pela aplicação do tratado, o Opanal, que expressou preocupação, mas não pôde aplicar sanções práticas.
O legado do Tratado de Tlatelolco
Apesar de seus desafios, o Tratado de Tlatelolco permanece como uma referência internacional. Ele inspirou outras regiões a estabelecerem zonas livres de armas nucleares e consolidou a América Latina como território comprometido com a paz.
Ainda hoje, Brasil, Argentina e México são os únicos países da região que utilizam energia nuclear em sua matriz, todos com propósitos civis e sob supervisão internacional.





