Nos últimos anos, o aumento da ansiedade entre jovens e adultos tem levado a mudanças inesperadas no comportamento relacionado à saúde.
Um dos exemplos mais recentes é a crescente popularização do uso de betabloqueadores, medicamentos originalmente desenvolvidos para tratar doenças cardíacas, mas que vêm sendo utilizados como uma “solução rápida” para sintomas físicos de ansiedade.
Redes sociais e influenciadores nos Estados Unidos têm reforçado essa prática, promovendo a ideia de que tomar propranolol ou outros betabloqueadores antes de apresentações públicas, provas ou situações de alto estresse é uma forma eficaz de controlar tremores, suor excessivo e coração acelerado.
No entanto, especialistas alertam que a medicação não trata a causa emocional da ansiedade e pode trazer riscos significativos quando usada de forma indiscriminada.
Betabloqueadores
De acordo com o cardiologista Fernando Ribas, da BP, A Beneficência Portuguesa de São Paulo, os betabloqueadores atuam bloqueando receptores específicos de adrenalina no organismo, chamados betarreceptores. Esse bloqueio reduz efeitos típicos da ansiedade no sistema cardiovascular, como:
- Taquicardia (batimentos acelerados)
- Hipertensão temporária (pressão alta)
- Tremores e suor excessivo
“Quando controlados, esses sintomas físicos podem fazer a pessoa se sentir melhor durante uma crise de ansiedade”, explica Ribas. No entanto, ele enfatiza que a medicação atua apenas no corpo, e não na mente.
Uso pontual x uso contínuo
O propranolol, um dos betabloqueadores mais conhecidos, tem seu efeito diferenciado dependendo da frequência de uso:
- Uso pontual: Recomendado antes de situações de ansiedade de desempenho. O efeito desaparece após algumas horas.
- Uso contínuo: O bloqueio cardiovascular pode durar até 72 horas, aumentando o risco de efeitos colaterais, especialmente em idosos ou pessoas com pressão naturalmente baixa.
O uso pontual pode ser útil para pessoas que sofrem de ansiedade de desempenho, mas sempre deve ser acompanhado de acompanhamento psicológico, pois não resolve a causa do problema.
Popularização impulsionada pelas redes sociais
Embora exista desde os anos 1960, o propranolol voltou a ganhar atenção recentemente, em parte devido a relatos em TikTok, Instagram e outras plataformas, onde jovens compartilham suas experiências com a medicação como uma forma de “controlar o corpo” durante momentos de tensão.
O psiquiatra Luiz Scocca, do Hospital das Clínicas da USP, alerta: “Vivemos uma cultura do desempenho, e a medicação acaba sendo vista como uma solução rápida, mas não substitui o tratamento adequado para ansiedade”.
Riscos e efeitos colaterais
O uso inadequado dos betabloqueadores pode mascarar sinais de problemas cardíacos e causar efeitos adversos sérios, como:
- Crises de asma ou bronquite
- Hipotensão (pressão baixa) e desmaios
- Bradicardia (batimentos lentos)
Além disso, pessoas que dependem do remédio como “muleta emocional” podem desenvolver dependência psicológica, acreditando que só conseguem enfrentar desafios com a medicação.
Quando o remédio vira problema
Especialistas alertam que o maior perigo não é a dependência física, mas a psicológica. A medicação, usada como apoio constante, pode impedir que o indivíduo desenvolva autoconfiança e estratégias saudáveis para lidar com a ansiedade.
“Não adianta usar o remédio apenas na hora da crise e achar que está resolvido”, afirma Danielle Admoni. Ela reforça que o tratamento eficaz da ansiedade envolve terapia, acompanhamento psiquiátrico e, quando necessário, medicamentos específicos para transtornos de ansiedade, não apenas betabloqueadores.
O aumento do uso de betabloqueadores como recurso para ansiedade revela uma tendência preocupante, a busca por soluções rápidas em detrimento do cuidado emocional profundo.
Com informação adequada e orientação médica, é possível controlar os sintomas físicos sem comprometer a saúde cardiovascular ou emocional.





