Entre os animais mais raros do mundo, um pequeno roedor brasileiro ocupa uma posição impressionante e preocupante. O preá-de-Moleques-do-Sul (Cavia intermedia) é considerado um dos mamíferos com menor distribuição geográfica do planeta.
Ele existe exclusivamente em uma única ilha do Arquipélago de Moleques do Sul, localizada a cerca de 8 quilômetros da costa sul de Florianópolis (SC). Sua população é extremamente reduzida e gira em torno de apenas 40 a 60 indivíduos, tornando-o um dos animais mais ameaçados da Terra.
Um território minúsculo e isolado
A ilha onde vive o preá tem pouco mais de 10 hectares de extensão. No entanto, os animais ocupam somente cerca de 4 hectares dessa área. Ou seja, toda a população mundial da espécie vive confinada a um espaço equivalente a poucos campos de futebol.
Esse isolamento extremo faz com que o preá-de-Moleques-do-Sul detenha a menor área de distribuição entre os mamíferos conhecidos no mundo. Qualquer alteração ambiental pode afetar diretamente toda a espécie.
Quem é o preá-de-Moleques-do-Sul?
O preá é um roedor herbívoro, parente da capivara e do porquinho-da-índia. Ele se alimenta basicamente de vegetação rasteira encontrada na ilha. Em média, vive entre dois e quatro anos.
Apesar de pequeno e aparentemente comum à primeira vista, trata-se de uma espécie única, com características genéticas próprias, resultado de milhares de anos de isolamento natural.
Curiosamente, não há registro de predadores naturais na ilha. Ainda assim, o animal está classificado como criticamente ameaçado de extinção em níveis global, nacional e estadual, figurando entre os 20 pequenos mamíferos mais ameaçados do planeta.
Como surgiu uma espécie exclusiva de uma ilha?
A existência do preá-de-Moleques-do-Sul está diretamente ligada a um evento geológico ocorrido há aproximadamente 8 mil anos, no fim da última Era Glacial.
Com o aumento do nível do mar, áreas que antes eram ligadas ao continente ficaram isoladas, formando ilhas. Uma população de preás que vivia na região acabou separada do restante da espécie.
Ao longo de milhares de anos, esse isolamento provocou modificações genéticas e evolutivas suficientes para originar uma nova espécie: a Cavia intermedia. É um exemplo claro de como a evolução pode agir quando populações ficam geograficamente isoladas.
Descoberta científica relativamente recente
Embora o animal exista há milhares de anos, sua confirmação científica ocorreu apenas na década de 1980. Pesquisadores do então chamado Fatma (Fundação do Meio Ambiente de Santa Catarina), hoje IMA-SC, encontraram uma ossada durante estudos ambientais na região.
Somente em 1999 a espécie foi oficialmente descrita pela ciência e recebeu o nome Cavia intermedia, em referência às suas características intermediárias dentro do gênero.
Um habitat totalmente protegido
O Arquipélago de Moleques do Sul faz parte do Parque Estadual da Serra do Tabuleiro, a maior unidade de conservação de Santa Catarina. A área é classificada como zona intangível, o que significa que a presença humana é proibida.
O desembarque só é permitido para pesquisadores autorizados e órgãos ambientais. Essa restrição é essencial para a sobrevivência da espécie, pois qualquer interferência pode ser desastrosa.
Mesmo sem predadores naturais, o preá corre risco diante de fatores como:
- Introdução de doenças
- Parasitas trazidos por humanos
- Plantas invasoras
- Incêndios acidentais
- Mudanças ambientais
Como toda a espécie vive concentrada em um único ponto do planeta, qualquer impacto pode significar a extinção definitiva.
Plano de conservação e monitoramento
Para reforçar a proteção, foi criado o Plano de Ação Estadual para a Conservação do Preá-de-Moleques-do-Sul, elaborado a partir de 2018 pelo Instituto Tabuleiro em parceria com o IMA-SC, com apoio da Fundação Grupo Boticário.
Além disso, a área conta com fiscalização do:
- Instituto do Meio Ambiente de SC (IMA)
- Polícia Militar Ambiental
- Marinha do Brasil
As informações científicas e educativas sobre o animal estão reunidas na apostila “Preá-de-Moleques, o mamífero mais raro do planeta!”, produzida por pesquisadores envolvidos na preservação da espécie.






