Uma pesquisa recente, realizada em colaboração com a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, identificou práticas preocupantes de higiene e manipulação de alimentos em residências brasileiras, evidenciando a importância do ambiente doméstico na ocorrência de Doenças Transmitidas por Alimentos (DTAs).
Apesar de grande parte dos surtos acontecer em casa, ainda há escassez de informações sobre os hábitos cotidianos que podem favorecer a contaminação. O estudo, publicado na revista Food and Humanity da Elsevier, aplicou questionários on-line a 5 mil participantes de diversas regiões do país e avaliou 216 refrigeradores domésticos, constatando que 91% dos aparelhos mantinham temperaturas adequadas, entre 0 e 10°C.
Higiene e manipulação de alimentos
No entanto, 81% dos participantes não utilizavam bolsas térmicas ao transportar alimentos refrigerados ou congelados, deixando-os expostos a temperaturas propícias à multiplicação de microrganismos. Além disso, 39,5% descongelavam os alimentos à temperatura ambiente e 18,3% em recipientes com água, práticas que elevam o risco de contaminação.
O estudo também identificou outras falhas relevantes: 62% dos entrevistados não higienizavam corretamente frutas e verduras, 46,3% lavavam carnes diretamente na pia, 24% consumiam carnes malcozidas e 17% ingeriam ovos crus ou pouco cozidos.
Observou-se ainda que a renda familiar exercia influência significativa sobre os hábitos de manipulação e consumo de produtos de origem animal, evidenciando desigualdades nos padrões de higiene e segurança.
Doenças transmitidas por comida
Entre 2014 e 2023, o Ministério da Saúde registrou 6.874 surtos de Doenças de Transmissão Hídrica e Alimentar (DTHA) no Brasil, com 110.614 casos e 121 óbitos. Escherichia coli (34,8%), Staphylococcus aureus (9,7%) e Salmonella (9,6%) foram as bactérias mais comuns, e 34% dos surtos ocorreram em residências, quase o dobro do observado em restaurantes e padarias (14,6%).
O cenário nacional reflete uma tendência global: segundo a OMS, cerca de 600 milhões de pessoas adoecem anualmente após consumir comida contaminada, frequentemente por falhas na manipulação e no armazenamento.
O estudo evidencia a necessidade de ações educativas e estratégias de comunicação que incentivem práticas corretas de higiene e armazenamento de alimentos no ambiente doméstico, contribuindo para reduzir o impacto das DTAs.






