A descoberta do chamado Pé de Burtele, encontrado em 2009 na região de Woranso-Mille, na Etiópia, acaba de transformar o entendimento sobre o passado humano.
Por anos, acreditou-se que Lucy e sua espécie, o Australopithecus afarensis, dominavam sozinhos o cenário há 3,4 milhões de anos. Porém, a confirmação de que o pé fossilizado pertence ao Australopithecus deyiremeda revela que outra espécie humana dividia o mesmo território e o mesmo período, seguindo um caminho evolutivo próprio.
Os novos fósseis, incluindo um crânio, fragmentos pélvicos e uma mandíbula com 25 dentes, trouxeram a evidência que faltava para comprovar a coexistência.
A mandíbula recém-encontrada apresenta traços mais primitivos do que os conhecidos em Lucy, indicando que o A. deyiremeda não apenas viveu ao mesmo tempo que o A. afarensis, mas também representava uma linhagem distinta e menos especializada.
Um pé feito para o alto das árvores
A principal diferença entre as espécies está literalmente estampada nos pés. Enquanto Lucy caminhava ereta com apoio em arcos plantares firmes, um padrão próximo ao dos humanos modernos, o A. deyiremeda tinha um dedão curvado e preênsil, ideal para se agarrar a galhos.
Seus dedos longos, flexíveis e adaptados para escalar sugerem que essa espécie alternava entre o solo e as copas das árvores para sobreviver.
Duas dietas, dois mundos
A análise dos dentes revelou uma diferença ainda mais profunda: a alimentação. O A. deyiremeda consumia folhas, frutos e plantas de áreas densamente arborizadas, aproveitando recursos de ambientes fechados.
Lucy, por sua vez, era habitante de campos abertos e se alimentava principalmente de gramas e vegetação típica de pastagens. Essa distinção alimentar mostra que não existia competição direta entre as espécies, permitindo uma coexistência estável por longos períodos.
Uma confirmação que exigiu paciência científica
Quando o Pé de Burtele foi anunciado pela primeira vez, em 2012, havia desconfiança entre pesquisadores. Muitos acreditavam que poderia ser apenas uma variação incomum dentro da própria espécie de Lucy.
As novas descobertas dissiparam as dúvidas: trata-se realmente de uma linhagem separada, e o pé encontrado há mais de uma década ganhou, enfim, sua identidade definitiva.
A coexistência de duas espécies tão distintas reforça uma visão mais complexa da evolução: o caminho para o bipedalismo e para o surgimento dos humanos modernos não foi linear, mas sim ramificado, com diferentes grupos experimentando estratégias de sobrevivência simultaneamente.
O sítio arqueológico de Woranso-Mille, explorado há décadas, continua sendo um campo fértil para novas descobertas e para a compreensão dos ecossistemas que moldaram os primórdios da humanidade.
Para Yohannes Haile-Selassie, líder da pesquisa, entender as espécies que nos antecederam é essencial para compreender quem somos.
A cada novo fóssil encontrado, surge não apenas uma peça da história humana, mas também um lembrete de que a evolução é um processo cheio de desvios, coexistências e experiências diversas, muito mais fascinante do que imaginávamos.





