No vasto e diverso território brasileiro, onde cabem desertos verdes, montanhas úmidas e cidades suspensas pelo improviso, existe um município no coração da Amazônia que, por quase metade do ano, parece sumir do mapa.
Anamã, cidade amazonense à margem dos rios Purus e Solimões, vive entre extremos: meses sobre palafitas e flutuantes, e outros tantos sobre a terra firme, quando as águas recuam. Um lugar onde a rotina se molda ao ciclo da natureza — e onde a sobrevivência depende da capacidade de adaptação.
A cidade que “desaparece” no mapa durante as cheias
Localizada a cerca de 90 quilômetros de Manacapuru, Anamã se transforma completamente durante a temporada de cheia, que começa em dezembro e pode se estender até junho.
Nesse período, o volume das águas dos rios cresce de forma drástica, cobrindo ruas, invadindo casas e engolindo prédios públicos. A cidade, construída sobre solo de várzea, perde o chão — literalmente.
Sem um sistema de esgoto ou drenagem eficaz, as fossas transbordam e contaminam a água, agravando os riscos sanitários. Animais como escorpiões, cobras e até jacarés procuram abrigo nos mesmos espaços em que vivem as pessoas.
A infraestrutura urbana, já frágil, é anualmente posta à prova. O hospital local, por exemplo, precisa ser transferido para um flutuante sempre que o nível da água sobe. Parte dos equipamentos médicos fica submersa por semanas, comprometendo o atendimento.
Escolas e comércios são erguidos em estruturas elevadas, com escadas longas, para tentar escapar do alagamento. O transporte, nesse cenário, abandona as estradas e se limita a canoas e rabetas — pequenas embarcações a motor.
Tudo se reorganiza: o policiamento, as compras, os cultos religiosos, os encontros sociais. A cidade, mesmo submersa, não para.
Cidade de Anamã tem visto a intensificação das cheias nos últimos anos
O fenômeno das cheias, típico da bacia amazônica, tem se intensificado nas últimas décadas. Especialistas apontam que o aquecimento global e o desequilíbrio do ciclo hidrológico explicam os extremos cada vez mais severos.
Em Anamã, a população já viu o hospital ser reconstruído várias vezes, o cemitério mudar de lugar duas vezes, e fala-se em uma possível terceira mudança. E ainda assim, seus moradores seguem resistindo.
Entre marombas improvisadas, poços ameaçados pela contaminação e toneladas de peixe morto durante a seca, Anamã é um retrato de como a vida insiste — mesmo quando a terra desaparece sob a água.






