Uma investigação conduzida pela Polícia Federal revelou um amplo esquema de fraudes envolvendo descontos indevidos em aposentadorias e pensões pagas pelo Instituto Nacional do Seguro Social.
O caso tem como principal alvo a Confederação Nacional dos Agricultores Familiares (Conafer), suspeita de participar de um mecanismo que teria desviado cerca de R$ 640 milhões entre os anos de 2022 e 2025.
Segundo os investigadores, a entidade utilizava um sistema de cobranças associativas aplicadas diretamente nos benefícios previdenciários. Muitos aposentados e pensionistas, no entanto, afirmam que nunca autorizaram qualquer vínculo ou contribuição à associação, o que levanta suspeitas de fraude em larga escala.
Como funcionavam os descontos nas aposentadorias
De acordo com a investigação, o esquema operava por meio da inclusão de descontos mensais automáticos nos extratos dos beneficiários do INSS. Esses valores apareciam como contribuições associativas destinadas à entidade investigada.
Embora individualmente os valores fossem relativamente pequenos, a prática era aplicada a um grande número de aposentados e pensionistas em todo o país. Ao longo de anos, os descontos teriam acumulado cifras milionárias.
As autoridades afirmam que muitos beneficiários sequer tinham conhecimento de que estavam associados à entidade, o que reforça a hipótese de que os dados tenham sido inseridos irregularmente no sistema.
Transferências para empresas suspeitas
Outro ponto que chamou a atenção dos investigadores foi o destino do dinheiro arrecadado com os descontos. Segundo a Polícia Federal, quase 90% do valor total arrecadado foi transferido para empresas consideradas de fachada.
Essas companhias teriam sido utilizadas para movimentar os recursos e dificultar o rastreamento da origem e do destino final do dinheiro. A prática é frequentemente associada a operações de lavagem de dinheiro, já que cria camadas intermediárias de transações financeiras.
Dívidas da entidade com o governo
Apesar de movimentar valores elevados, o principal CNPJ da Confederação Nacional dos Agricultores Familiares possui pendências financeiras registradas junto ao governo federal.
Registros oficiais apontam 21 inscrições em dívida ativa, somando cerca de R$ 560 mil. Desse total, aproximadamente R$ 440 mil correspondem a débitos tributários e previdenciários, enquanto cerca de R$ 105 mil são dívidas trabalhistas.
Há ainda quase R$ 17 mil relacionados a pendências administrativas no Distrito Federal.
Núcleo político no centro das investigações
As apurações identificaram a existência de diferentes grupos de atuação dentro do esquema. Um deles, classificado como núcleo político e de apoio, teria atuado para garantir influência e facilitar o acesso ao sistema do INSS.
Nesse contexto, o deputado Euclydes Pettersen aparece nas investigações como um dos principais beneficiários financeiros ligados à estrutura investigada. Segundo a polícia, ele teria recebido pelo menos R$ 14,7 milhões provenientes de empresas relacionadas ao esquema.
Os pagamentos teriam sido feitos por meio de uma lotérica e de uma construtora localizadas no interior de Minas Gerais.
Pedido de monitoramento negado pelo STF
Durante o avanço da investigação, a Polícia Federal solicitou ao Supremo Tribunal Federal autorização para monitorar o parlamentar por meio de tornozeleira eletrônica.
O pedido foi analisado pelo ministro André Mendonça, que decidiu negar a solicitação, mantendo o deputado sem medidas cautelares desse tipo.
Operação nacional e prisões
Em novembro de 2025, a Polícia Federal deflagrou uma etapa da Operação Sem Desconto, realizada em conjunto com a Controladoria-Geral da União.
A operação resultou no cumprimento de 10 mandados de prisão preventiva e 63 mandados de busca e apreensão, executados em 17 estados e no Distrito Federal. Entre os alvos estavam ex-gestores do INSS e dirigentes de entidades associativas que teriam se beneficiado do sistema fraudulento.
Depoimento e prisão por falso testemunho
Durante as investigações parlamentares conduzidas pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do INSS, o presidente da Conafer, Carlos Roberto Ferreira Lopes, teve a prisão em flagrante decretada por falso testemunho durante um depoimento.
Ele foi o segundo depoente a ter a prisão determinada pela comissão. Apesar disso, acabou sendo liberado poucas horas depois.
Crimes investigados e impacto do caso
As autoridades investigam uma série de crimes ligados ao esquema, incluindo inserção de dados falsos em sistemas públicos, organização criminosa, estelionato previdenciário, corrupção ativa e passiva e lavagem de dinheiro.
O caso reacendeu o debate sobre a segurança dos sistemas que permitem descontos associativos nos benefícios previdenciários. Especialistas defendem maior controle e transparência para evitar que aposentados e pensionistas sejam vítimas de cobranças indevidas.






