Embora a retratação seja considerada o mecanismo mais rigoroso para corrigir erros e fraudes na literatura científica, ela nem sempre consegue conter a circulação de informações inválidas. Entre 375 artigos retratados entre 2002 e 2022, cerca de 76% continuaram sendo citados como válidos em novas pesquisas e em ambientes digitais, mesmo após a anulação formal.
Esse resultado foi identificado na tese ‘Dinâmica das retratações de artigos científicos na América Latina e implicações na cultura de integridade em pesquisa e governança na ciência’, da pesquisadora Karen Isabelle dos Santos d’Amorim, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). O estudo, vencedor do Prêmio Capes de Tese na área de Comunicação, Informação e Museologia, apresentou um panorama inédito sobre a integridade da produção científica na América Latina.
Artigos despublicados
A pesquisa aponta que a permanência dessas citações compromete a finalidade das retratações, pois dados invalidados continuam a influenciar a produção científica e o debate público. As causas para a retirada de artigos incluem má conduta e fraude, falhas editoriais e problemas de autoria, revelando fragilidades estruturais do sistema acadêmico, marcado pela pressão do “publicar ou perecer”.
Os impactos são mais evidentes em áreas de grande alcance social, como saúde e ciências biológicas, onde estudos inválidos seguem embasando discussões públicas. O levantamento também mostra que a maioria dos pedidos de retratação parte de terceiros, e não dos próprios autores, após a identificação de plágio, inconsistências ou manipulação de dados.
Usos em TCCs e pesquisas
Mesmo quando os periódicos deixam claro que determinado artigo foi retratado, essa informação nem sempre impede que o estudo continue sendo utilizado por pesquisadores ou replicado em ambientes digitais.
Diante desse contexto, a tese aponta a necessidade de reforçar políticas institucionais voltadas à integridade científica, com ênfase em estratégias de comunicação mais objetivas e eficientes sobre retratações.
O trabalho destaca que tornar essas correções mais compreensíveis e visíveis é essencial para manter a credibilidade das instituições de pesquisa e limitar a propagação de desinformação sustentada por estudos já invalidados






