Dormir tarde e acordar mais tarde parece, para muitos, apenas uma questão de preferência pessoal ou adaptação à rotina moderna.
No entanto, evidências científicas recentes indicam que esse hábito bastante comum pode estar silenciosamente associado a um risco maior de problemas cardiovasculares, incluindo infarto e acidente vascular cerebral (AVC).
Um grande estudo internacional trouxe novos alertas sobre como o horário em que dormimos pode impactar diretamente a saúde do coração ao longo da vida.
O que é cronotipo e por que ele importa
Cada pessoa possui um cronotipo, que representa sua tendência biológica natural de funcionar melhor pela manhã, à tarde ou à noite.
Enquanto indivíduos matutinos costumam acordar cedo com facilidade e ter mais energia nas primeiras horas do dia, pessoas com perfil noturno rendem mais à noite e têm dificuldade em dormir e acordar cedo.
A pesquisa analisou exatamente essa diferença biológica e como ela se relaciona com a saúde cardiovascular, indo além da simples quantidade de horas dormidas.
Um estudo de longo prazo
Os dados utilizados vieram do UK Biobank, um dos maiores bancos de informações de saúde do mundo. Mais de 300 mil adultos foram acompanhados por até 14 anos, permitindo observar, ao longo do tempo, a ocorrência de eventos como infarto e AVC em diferentes perfis de sono.
Os resultados mostraram que pessoas com cronotipo claramente noturno apresentaram, de forma consistente, piores indicadores cardiovasculares em comparação àquelas com perfil intermediário ou mais matutino.
Indicadores do coração sob análise
Para avaliar a saúde cardiovascular, os pesquisadores utilizaram os critérios do Life’s Essential 8, da American Heart Association, que reúne oito pilares fundamentais da saúde do coração:
- Qualidade do sono
- Alimentação
- Atividade física
- Níveis de colesterol
- Pressão arterial
- Glicemia
- Tabagismo
- Peso corporal
Dentro desse conjunto, indivíduos noturnos tiveram desempenho inferior em vários aspectos, especialmente relacionados ao sono irregular e aos hábitos de vida associados.
Risco maior observado entre mulheres
Um dos achados mais relevantes do estudo foi que o impacto do cronotipo noturno se mostrou mais acentuado entre mulheres.
Segundo os autores, isso pode estar relacionado ao chamado desalinhamento do relógio biológico, quando o ritmo natural do corpo entra em conflito com horários de trabalho, responsabilidades familiares e exigências sociais.
Esse conflito favorece:
- Privação crônica de sono
- Alimentação fora de horários regulares
- Maior estresse
- Menor adesão à prática de exercícios
Todos esses fatores contribuem diretamente para o aumento do risco cardiovascular.
Dormir tarde não é o único vilão
Especialistas ressaltam que dormir tarde, por si só, não causa infarto. O problema está nos comportamentos que frequentemente acompanham a rotina noturna, como sedentarismo, tabagismo, consumo inadequado de alimentos e sono de baixa qualidade.
Ou seja, o cronotipo noturno funciona como um fator de risco indireto, ao favorecer hábitos que, somados ao longo dos anos, sobrecarregam o sistema cardiovascular.
Os autores do estudo destacam que os resultados reforçam a importância de considerar o ritmo biológico individual nas estratégias de prevenção cardiovascular.
Ajustar horários de sono, manter regularidade nas refeições e proteger a qualidade do descanso são medidas tão relevantes quanto controlar colesterol, pressão e glicemia.





