Pesquisas recentes têm contribuído para reorganizar o debate sobre a masculinidade tóxica ao introduzir critérios científicos capazes de medir um conceito que, por décadas, circulou de forma ampla e pouco precisa no espaço público.
Um estudo publicado em dezembro na revista Psychology of Men & Masculinities analisou dados do Estudo de Atitudes e Valores da Nova Zelândia, realizado entre 2018 e 2019, com quase 50 mil participantes. Desse total, cerca de 15 mil homens cisgênero e heterossexuais foram avaliados a partir de indicadores relacionados a gênero, poder, preconceito e normas sociais.
Masculinidade tóxica
Dimensões analisadas
- Diferentes formas de sexismo
- Oposição a políticas de enfrentamento da violência doméstica
- Rejeição a identidades sexuais diversas
- Crença em hierarquias sociais consideradas naturais
- Outros indicadores ligados a gênero, poder e normas sociais
Perfis identificados
- Tóxico hostil: 3,2% da amostra, com altos níveis de hostilidade, sexismo e visões hierárquicas rígidas
- Atóxico: maior grupo da amostra, com baixos níveis dos traços avaliados
- Perfis intermediários: grupos com manifestações moderadas dos indicadores
- Tóxico benevolente: presença de visões sexistas sem hostilidade explícita
Características associadas ao perfil tóxico hostil
- Maior frequência entre homens mais velhos
- Menor escolaridade
- Instabilidade econômica e desemprego
- Maior religiosidade
- Dificuldades de regulação emocional
Achados complementares
- Ausência de concentração do perfil tóxico hostil entre homens ricos ou socialmente dominantes
- Centralidade da identidade masculina não se mostrou determinante para diferenciar os grupos
- Valorização da masculinidade não implica, necessariamente, adesão a visões socialmente prejudiciais
Popularização
Os achados evidenciam a distância entre a popularização do termo e sua manifestação concreta. Criada nos anos 1980 para analisar como ideais masculinos — como agressividade, dominação e repressão emocional — podem gerar impactos negativos, a noção de “masculinidade tóxica” passou a ser usada de forma ampla e, muitas vezes, sem base empírica.
A mensuração científica do conceito ganhou força recentemente, com a criação de escalas em 2024 e, posteriormente, com estudos baseados em amostras populacionais mais amplas, permitindo uma visão mais precisa dos diferentes perfis de masculinidade.






