A relação entre animais de estimação e paternidade tem sido frequentemente associada às mudanças demográficas em sociedades marcadas pelo envelhecimento populacional e pela queda da natalidade. A presença de cães em carrinhos de bebê em espaços públicos tornou-se um símbolo desse contexto e reforçou a percepção de que os pets estariam ocupando o lugar dos filhos nos lares contemporâneos.
Pesquisas recentes, no entanto, indicam que essa leitura é simplificadora e não se sustenta plenamente nos dados. Os estudos sugerem que a convivência com animais de estimação não implica substituição da paternidade, mas reflete transformações nas formas de cuidado e nas decisões familiares em cenários de incerteza social e econômica.
Amor por animais de estimação
Os números ajudam a entender por que essa percepção ganhou espaço:
- Espanha: Em 2023, o país registrava mais de 10 milhões de cães e menos de 2 milhões de crianças de até quatro anos, segundo a REIAC, reforçando a percepção de mudança nas prioridades familiares.
- Coreia do Sul: Em contexto de forte queda da fecundidade, as vendas de carrinhos para cães já superam as de carrinhos infantis, indicando impactos demográficos no consumo.
- Japão: A redução do número de crianças levou à adaptação de rituais tradicionais para incluir animais de estimação, refletindo transformações culturais ligadas ao declínio populacional.
Substitutos da paternidade?
Apesar dos indícios simbólicos, evidências acadêmicas relativizam a ideia de uma substituição direta entre filhos e animais de estimação. O estudo ‘Cats, Dogs, and Babies’, baseado em uma análise longitudinal de milhões de domicílios ao longo de mais de dez anos, indica que pessoas que adotam cães apresentam até 33% mais chance de ter filhos do que aquelas sem pets.
Os dados apontam que a convivência com animais pode atuar como uma experiência prévia de cuidado e responsabilidade, em vez de representar um afastamento da parentalidade. A própria pesquisa destaca, contudo, que esse efeito não altera, por si só, as tendências demográficas de longo prazo.
A redução das taxas de natalidade permanece associada a fatores estruturais amplamente documentados, como instabilidade no emprego, encarecimento da moradia, dificuldades de conciliar trabalho e família e o adiamento da maternidade e da paternidade.





