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Vetos à vista: Lula decide barrar projeto de dosimetria

Por Leticia Florenço
19/12/2025
Em Geral
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Lula - Reprodução

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A decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de vetar o chamado PL da Dosimetria sinaliza, de forma inequívoca, que o governo não pretende flexibilizar a resposta do Estado aos ataques contra a democracia ocorridos em 8 de janeiro de 2023.

Ao se posicionar publicamente antes mesmo de o texto chegar à mesa presidencial, Lula transforma o veto em um gesto político e institucional, reafirmando que crimes contra o regime democrático não podem ser tratados como episódios secundários ou passíveis de esquecimento precoce.

A dosimetria das penas no centro da disputa

O projeto aprovado pelo Senado altera profundamente a forma de cálculo das penas aplicadas a crimes contra o Estado Democrático de Direito.

A proposta prevê que, quando os delitos de tentativa de golpe de Estado e atentado à democracia ocorrerem no mesmo contexto, seja aplicada apenas a pena mais grave, em vez da soma das condenações.

Além disso, o texto reduz os limites mínimo e máximo das penas e flexibiliza as regras de progressão de regime, encurtando o tempo de permanência no regime fechado. Para os críticos, trata-se de uma mudança que esvazia a gravidade jurídica dos atos golpistas.

O argumento da pacificação

Defensores do PL, como o senador Esperidião Amin, sustentam que a redução das penas contribuiria para “pacificar o país” e encerrar um ciclo de polarização. No entanto, opositores afirmam que a pacificação não pode ser construída à custa da impunidade.

Para esse grupo, a proposta não reflete o sentimento majoritário da sociedade brasileira e foi elaborada com o objetivo de beneficiar um grupo político específico envolvido em ações que atentaram contra a ordem constitucional.

O embate institucional entre Executivo e Legislativo

Ao comentar o avanço do projeto no Congresso, Lula fez questão de destacar que não há ruptura institucional em sua decisão.

Segundo ele, o sistema democrático prevê exatamente esse tipo de confronto de ideias: o Parlamento aprova leis, o presidente exerce o direito de vetar e, posteriormente, o Congresso pode decidir se mantém ou derruba o veto.

A declaração reforça a narrativa de que o conflito faz parte do jogo democrático, desde que os limites constitucionais sejam respeitados.

Julgamentos em curso e a crítica à pressa legislativa

Um dos principais argumentos do presidente contra o PL da Dosimetria é o fato de que muitos julgamentos ainda estão em andamento no Supremo Tribunal Federal.

Para Lula, discutir a redução de penas antes da conclusão desses processos transmite a ideia de que o Estado está mais preocupado em aliviar punições do que em esclarecer responsabilidades. Essa pressa, segundo ele, compromete a credibilidade das instituições e enfraquece a confiança da população no sistema de Justiça.

A necessidade de ir além dos executores

Lula também defendeu que as investigações não podem se limitar aos participantes diretos dos atos de 8 de janeiro. O presidente ressaltou a importância de identificar financiadores, articuladores e lideranças políticas que tenham incentivado ou sustentado a tentativa de ruptura democrática.

Na visão do governo, encerrar o processo sem esse aprofundamento significaria deixar brechas para que episódios semelhantes voltem a ocorrer no futuro.

A reação da base governista e o acionamento do STF

Diante do cenário, partidos como PT, PSB, PCdoB e PSOL recorreram ao Supremo Tribunal Federal para tentar barrar a tramitação do projeto.

O mandado de segurança protocolado questiona a constitucionalidade da proposta e aponta risco de interferência indevida do Legislativo em processos judiciais ainda em curso, ampliando a judicialização do debate.

O simbolismo do veto para a democracia brasileira

Ao afirmar que a democracia não pode “esquecer” os ataques sofridos, Lula insere o veto ao PL da Dosimetria em uma dimensão simbólica mais ampla. Para o presidente, lembrar, investigar e punir não é revanchismo, mas uma forma de proteger as instituições e evitar retrocessos.

Nesse contexto, o veto deixa de ser apenas um ato administrativo e passa a representar uma escolha política sobre como o Brasil pretende lidar com seu passado recente e com os riscos ao seu futuro democrático.

Dúvidas, críticas ou sugestões? Fale com o nosso time editorial.
Leticia Florenço

Leticia Florenço

Filha da Terra da Luz, jornalista pela Universidade de Fortaleza (Unifor).

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