A luta de Pablo Salgueiro, professor de arte diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica (ELA), tornou-se símbolo na aprovação da Lei da Eutanásia no Uruguai, sancionada em 15 de outubro de 2025.
Mais de cinco anos após sua morte, o país passou a permitir que adultos mentalmente capazes, em fase terminal de doença incurável ou sob sofrimento intolerável, optem por morrer com assistência médica.
A ELA, que já havia levado o pai e o irmão de Pablo à morte, provoca degeneração dos neurônios motores, responsáveis pelos movimentos voluntários. Com o avanço da doença, Pablo perdeu progressivamente a capacidade de andar, se alimentar e até respirar, apesar das tentativas de adaptação e terapias alternativas.
Busca por autonomia e dignidade
Segundo a filha de Pablo, Florencia Salgueiro, o pai buscava manter sua autonomia até os últimos momentos de vida.
“Ele sabia exatamente o que queria. Não desejava que nós tomássemos qualquer decisão sobre sua morte”, disse Florencia. Pablo recorreu a médicos solicitando ajuda para morrer, mas à época, o procedimento era ilegal.
Cuidados paliativos e sofrimento
Durante a fase final da doença, Pablo recebeu sedação e morfina para aliviar crises de sufocamento e dor. Morreu em 19 de março de 2020, deixando um legado que impulsionaria o debate sobre morte digna no país.
O caso de Pablo mobilizou familiares de pacientes terminais, que se organizaram em grupos como o Empatía Uruguay, pressionando pelo debate legal. Florencia tornou-se porta-voz da causa, participando de audiências parlamentares e campanhas públicas.
“Só quero que outras famílias não passem pelo que nós passamos”, disse, emocionada após a aprovação da lei.
A Lei Muerte Digna
A Lei Muerte Digna, aprovada com apoio de 62% da população, permite que a eutanásia seja realizada por profissionais de saúde, mediante critérios rigorosos, garantindo autonomia ao paciente e segurança legal aos médicos.
A ELA é uma doença progressiva sem cura, caracterizada por perda muscular, dificuldade de locomoção, fala e respiração, geralmente levando à morte em três a cinco anos após o diagnóstico. Cerca de 10 a 15% dos casos têm origem genética, como na família Salgueiro.
Debate regional
Enquanto o Uruguai regulamenta a eutanásia, países vizinhos, como o Brasil, ainda proíbem qualquer forma de morte assistida. Por aqui, apenas a ortotanásia é permitida, permitindo interromper tratamentos invasivos em pacientes terminais, respeitando o curso natural da doença.
O caso de Pablo reinicia o debate sobre direito à morte digna, colocando em discussão limites éticos, legais e médicos da assistência a pacientes terminais, e transformando sua história em referência de coragem e luta por autonomia.






