Um estudo recente divulgado na revista Science identificou um mecanismo celular que interfere na transmissão de mutações mitocondriais, apontando caminhos para tratamentos que podem reduzir o risco de bebês nascerem com essas doenças graves e atualmente sem cura.
A pesquisa mostrou que essas mutações são herdadas porque um processo celular impede a remoção de mitocôndrias defeituosas e, simultaneamente, promove o aumento de sua quantidade nas células. Normalmente, após a fecundação, o embrião conta com um sistema de “controle de qualidade”, denominado mitofagia, que elimina mitocôndrias danificadas. Esse mecanismo depende da proteína ubiquitina, que identifica e marca os DNAs mitocondriais alterados para destruição.
Cura para doenças genéticas hereditárias
O problema surge quando a enzima USP30 interfere na função da ubiquitina, bloqueando a marcação e, consequentemente, a eliminação das mitocôndrias defeituosas. Esse desequilíbrio favorece o acúmulo de mutações, resultando em disfunções celulares e elevando o risco de doenças mitocondriais e neurodegenerativas. Mutações mais sutis, por sua vez, podem passar despercebidas e ser transmitidas às gerações seguintes.
Em experimentos realizados com camundongos, os cientistas observaram que, nos primeiros dias após a fecundação, a superativação da USP30 impede a ubiquitina de eliminar os DNAs mitocondriais alterados, permitindo o acúmulo e a transmissão dessas mutações. O uso de um inibidor específico da USP30, denominado Compound 39 (CMPD39), criou uma “janela” para eliminar as mitocôndrias defeituosas, oferecendo uma oportunidade de intervenção precoce.
O estudo indica que, em procedimentos de fertilização in vitro, seria possível tratar embriões logo após a fecundação para reduzir a carga mutacional antes da implantação, abrindo caminho para terapias farmacológicas que poderiam prevenir doenças hereditárias raras.
Detalhes
As doenças mitocondriais são distúrbios metabólicos que afetam órgãos vitais, como cérebro e coração, incluindo neuropatia óptica de Leber, síndrome de Leigh e MELAS. Seus sintomas vão de atrasos no desenvolvimento e fraqueza muscular a convulsões e perda sensorial.
Sem tratamentos específicos, o manejo clínico foca no controle dos sintomas e em diagnósticos complexos por exames clínicos, bioquímicos e genéticos. A pesquisa, conduzida por cientistas do Reino Unido e do Brasil com apoio da FAPESP, abre caminho para novas terapias que possam proteger futuras gerações.






