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DNA da peste de 4 mil anos mostra seus segredos antigos

Por Leticia Florenço
15/08/2025
Em Colunas, Mais Tendências
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Por milênios, a peste atingiu comunidades humanas por toda a Eurásia. Hoje, sabemos que a transmissão mais famosa, pela picada de pulgas em ratos, é apenas parte da história.

Mas como a doença persistia na Idade do Bronze, antes de desenvolver a capacidade de ser transmitida por pulgas? Pesquisas recentes estão começando a revelar esse enigma.

Cientistas recuperaram o primeiro genoma antigo de Yersinia pestis em um hospedeiro não humano, uma ovelha domesticada que viveu há cerca de 4.000 anos, na região que hoje corresponde à Rússia.

Essa descoberta sugere que o gado e os rebanhos domésticos tiveram papel fundamental na propagação da bactéria, funcionando como uma ponte entre humanos e animais selvagens infectados.

DNA antigo e a evolução da doença

Antes dessa descoberta, quase 200 genomas antigos de Y. pestis haviam sido recuperados apenas de restos humanos, deixando lacunas sobre como a bactéria circulava entre espécies.

O estudo, publicado na revista Cell, mostra que a evolução da doença poderia ser “preguiçosa”: soluções genéticas desenvolvidas há milhares de anos podem ter sido reutilizadas em linhagens posteriores, incluindo aquelas responsáveis pela Peste Negra.

Durante o Neolítico Final e a Idade do Bronze, a peste se espalhou por toda a Eurásia, da Europa à Mongólia, percorrendo cerca de 6.000 quilômetros. Mas a bactéria ainda não possuía genes que permitissem sua transmissão por pulgas, levantando a questão de como se disseminava tão amplamente.

O papel do gado e da domesticação

Análises de sítios arqueológicos como Arkaim, na Rússia, ligadas à cultura Sintashta-Petrovka, revelaram que os pastores nômades criavam condições propícias para a propagação de doenças.

As ovelhas, provavelmente contaminadas por água ou alimento infectado, poderiam transmitir a bactéria aos humanos através da carne ou do contato próximo, aumentando a incidência da peste em até 20% dos indivíduos em alguns cemitérios da região.

Implicações para doenças modernas

A identificação de Y. pestis em um animal antigo não apenas esclarece a história da doença, mas também tem relevância para o entendimento de epidemias contemporâneas.

Embora a linhagem da Idade do Bronze esteja extinta, a bactéria ainda persiste em regiões da África, Ásia e América, mas de forma rara. A pesquisa reforça a importância de cuidados com animais domesticados e com a carne que consumimos.

O estudo mostra que humanos e animais nunca viveram isoladamente frente às doenças. A conexão entre espécies, aliada às mudanças ambientais provocadas pelos humanos, molda a forma como patógenos surgem e se disseminam.

Pesquisas futuras podem revelar outros animais infectados e aprofundar nossa compreensão sobre a evolução de epidemias que moldaram a história humana.

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Leticia Florenço

Leticia Florenço

Filha da Terra da Luz, jornalista pela Universidade de Fortaleza (Unifor).

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