Um estudo realizado por cientistas da Universidade Harvard e divulgado na revista Science Advances desafia a antiga noção de que o sexo biológico do bebê é resultado de um processo inteiramente aleatório. A pesquisa indica que diversos fatores podem influenciar essa determinação, contrariando a ideia de que meninos e meninas nascem com probabilidades iguais e independentes.
Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores analisaram uma ampla base de dados composta por 146.064 nascimentos, coletados entre 1956 e 2015, por meio dos estudos epidemiológicos Nurses’ Health Study II e III. O levantamento acompanhou mais de 58 mil mulheres nos Estados Unidos, oferecendo um panorama robusto e detalhado sobre os padrões reprodutivos ao longo de várias décadas.
Sexo do bebê
Segundo a explicação tradicional, o sexo de um bebê seria definido ao acaso, com chances iguais de nascer menino ou menina, já que os espermatozoides carregam os cromossomos X e Y em proporções semelhantes. Porém, evidências recentes indicam que esse equilíbrio pode ser afetado por fatores biológicos ainda pouco compreendidos.
A pesquisa revelou que a distribuição dos nascimentos masculinos e femininos não segue o modelo estatístico binomial, típico de eventos aleatórios com duas possibilidades igualmente prováveis. Em vez disso, os dados se ajustaram melhor a um modelo beta-binomial, que indica um viés em certos grupos.
Entre os principais achados está a relação entre a idade da mulher ao ter o primeiro filho e a chance de ter filhos de um único sexo: mulheres que se tornaram mães após os 28 anos têm 43% mais chances de ter só meninos ou só meninas, contra 34% entre as que tiveram o primeiro filho antes dos 23 anos.
Genética da concepção
Os pesquisadores propõem explicações biológicas para os padrões observados. Com o avanço da idade, o pH vaginal tende a se tornar mais ácido, favorecendo espermatozoides com cromossomo X, mais resistentes, o que pode aumentar as chances de nascimento de meninas. Já alterações no ciclo menstrual poderiam beneficiar os espermatozoides Y, elevando a probabilidade de meninos.
Além disso, uma análise genômica identificou dois genes associados à tendência: NSUN6, ligado ao nascimento de meninas, e TSHZ1, relacionado a meninos. Apesar das descobertas, os autores reconhecem limitações — como a baixa diversidade étnica da amostra e a ausência de dados sobre os pais.
Mesmo assim, os resultados sugerem que a aparente aleatoriedade na definição do sexo pode ser influenciada por fatores biológicos. Para algumas famílias, a moeda da genética talvez já caia inclinada antes do lançamento.






