Por mais de um século, o dólar norte-americano reina absoluto na economia global. Ele é, ao mesmo tempo, unidade de conta, meio de troca e reserva de valor para transações internacionais.
Mesmo que nenhuma das partes envolvidas em uma negociação utilize a moeda dos Estados Unidos em seu dia a dia, é altamente provável que o dólar esteja nos bastidores dessa operação, seja como referência, seja como ponte entre diferentes moedas.
Contudo, a supremacia do dólar tem sido questionada. Entre 2014 e 2024, segundo dados do FMI, sua participação nas reservas internacionais dos países caiu de 65% para 58%. Termos como “desdolarização” ganharam espaço no vocabulário de economistas, diplomatas e líderes políticos.
De metais preciosos ao papel-moeda
Antes de existirem moedas fiduciárias, o mundo baseava suas trocas em ouro e prata, recursos físicos e escassos que funcionavam como lastro de valor.
A evolução da economia global, contudo, tornou esses metais impraticáveis em larga escala. O papel-moeda surgiu como uma forma mais eficiente de representar valores, inicialmente atrelado ao ouro, mas posteriormente desvinculado dessa obrigação.
No fim da Segunda Guerra Mundial, os EUA saíram fortalecidos econômica e politicamente, e o dólar passou a ser a única moeda conversível em ouro, no contexto do Acordo de Bretton Woods.
A moeda de todos, mesmo quando ninguém a usa
A principal razão para a persistência do dólar no centro das relações internacionais é simples: todos o utilizam. Ele funciona como pivô nas trocas cambiais, sendo a moeda intermediária entre pares exóticos ou pouco convertíveis diretamente.
Isso se deve em parte ao domínio dos EUA no sistema financeiro global, especialmente no Swift, o principal sistema de mensagens financeiras entre bancos.
Por exemplo, um banco brasileiro que deseja transferir euros para uma instituição na Europa, normalmente, converterá reais para dólares e só então para euros. O dólar, portanto, é um elo invisível, mas essencial, em incontáveis operações diárias.
Commodities, petrodólares e o poder da padronização
Boa parte das commodities globais é precificada em dólar, o que garante ao papel da moeda norte-americana um protagonismo adicional. Petróleo, soja, minério de ferro, trigo, produtos essenciais à economia mundial, são negociados com base na cotação em dólar.
Esse fenômeno é reflexo de acordos firmados pelos EUA com países produtores, especialmente no Oriente Médio, que vincularam o comércio do petróleo à moeda americana.
Como resultado, o termo “petrodólares” passou a simbolizar o círculo virtuoso que fortalece tanto o dólar quanto os laços comerciais entre Estados Unidos e exportadores de energia. Mesmo países que não utilizam o dólar internamente precisam acumulá-lo para negociar no mercado global.
O desafio da desdolarização
Nos últimos anos, países como China, Rússia, Brasil e Índia têm expressado a intenção de reduzir a dependência do dólar. O termo “desdolarização” ganhou espaço nos fóruns econômicos internacionais, especialmente nos encontros dos Brics.
O objetivo declarado é escapar da vulnerabilidade diante de sanções econômicas dos EUA, que têm se tornado frequentes como ferramenta de pressão política.Entretanto, a prática mostra um caminho mais lento.
O uso de moedas locais em transações bilaterais cresceu, mas ainda de forma tímida e restrita a acordos pontuais. Não há consenso técnico, tampouco político, sobre a criação de uma nova moeda global ou sobre o uso amplo de moedas digitais descentralizadas.
Por que o yuan e o euro ainda não ameaçam o dólar
Embora a China seja a segunda maior economia do mundo, sua moeda, o yuan, não tem conversibilidade plena, sofre fortes controles do governo e não é amplamente aceita nos mercados financeiros internacionais.
O euro, por outro lado, já é uma moeda global, com liquidez e aceitação internacional. No entanto, carece de um sistema político unificado, o que fragiliza sua capacidade de liderar o sistema monetário global.
Segundo especialistas, a confiabilidade nas instituições dos EUA, combinada com a profundidade do mercado financeiro americano, garante ao dólar uma vantagem difícil de ser superada.
Dólar
A permanência do dólar como moeda dominante é, em grande medida, um reflexo da inércia global. Mudar o padrão exigiria um esforço coordenado entre dezenas de países, com interesses distintos, infraestrutura bancária integrada e consenso geopolítico, algo distante da realidade atual.
Além disso, enquanto os EUA continuarem oferecendo estabilidade institucional, previsibilidade econômica e um mercado aberto e profundo, a maioria dos países optará por manter o dólar como base de suas reservas e de suas negociações.
Apesar dos desafios crescentes e do debate em torno da diversificação, nenhuma outra moeda reúne hoje os elementos necessários para desbancar o dólar, liquidez, confiança, estabilidade, aceitação internacional e presença nas principais plataformas financeiras do mundo.





