A discussão sobre o fim da escala 6×1 e a redução da jornada de trabalho entrou com força na agenda nacional, especialmente com o evento promovido pela Fundacentro em São Paulo.
Reunindo especialistas, parlamentares e sindicalistas, o encontro trouxe à tona a urgência de rever modelos de trabalho que há décadas marcam negativamente a saúde e a qualidade de vida dos trabalhadores brasileiros.
Impactos da escala 6×1 na saúde dos trabalhadores
Trabalhar seis dias por semana com apenas um de descanso não é apenas cansativo, é, para muitos, insustentável. A afirmação de Pedro Tourinho, presidente da Fundacentro, evidencia o problema, a extensão da jornada é fator direto de risco para acidentes e doenças ocupacionais.
Segundo ele, é preciso romper com um modelo que coloca os trabalhadores em condições de insegurança e exaustão, muitas vezes naturalizadas por décadas.
Um olhar sindical e social sobre o desgaste invisível
Representantes das principais centrais sindicais brasileiras foram categóricos: a escala 6×1 é um sistema que esgota o trabalhador física e mentalmente.
Josivânia Souza, da CUT, destaca que as mulheres são especialmente afetadas por esse regime, pois além da rotina de trabalho, carregam a responsabilidade do cuidado familiar.
Márcio Ayer, da CTB, e Canindé Pegado, da UGT, lembram que, apesar da modernização dos setores produtivos, a jornada segue estagnada desde 1988, quando passou de 48h para 44h semanais. A necessidade de atualização é evidente, inclusive com base em experiências internacionais bem-sucedidas.
O papel das convenções coletivas e da legislação
João Carlos Juruna (Força Sindical) e Ribamar Passos (Intersindical) apontam para o esvaziamento das convenções coletivas e a precarização resultante da reforma trabalhista.
Para eles, é essencial que o debate sobre jornada retorne às mesas de negociação e ganhe espaço no Parlamento. Não se trata apenas de mudar a lei, mas de fortalecer os mecanismos de diálogo entre trabalhadores e empregadores.
O caso do Vida Além do Trabalho
A mobilização contra a escala 6×1 ganhou um novo fôlego com o surgimento do movimento Vida Além do Trabalho (VAT). A partir de um relato nas redes sociais, viralizou a indignação de quem se vê sem tempo para viver.
A pesquisadora Leda Leal considera o movimento um marco: trabalhadores que antes se sentiam sozinhos passaram a se reconhecer em um coletivo, ganhando força e visibilidade.
A mobilização gerou uma petição e resultou na apresentação de propostas legislativas que buscam reduzir a jornada para 36 horas semanais, distribuídas em quatro dias.
Propostas legislativas que reacendem a esperança
Duas Propostas de Emenda à Constituição (PECs) estão em discussão no Congresso Nacional: a PEC 8/2025, de Érica Hilton, e a PEC 221/2019, de Reginaldo Lopes. Ambas convergem para uma jornada semanal de 36 horas, com limitações de 8 horas por dia.
A medida, se aprovada, poderá revolucionar a organização do trabalho no Brasil. No entanto, especialistas alertam que a redução não pode ser acompanhada de sobrecarga ou metas inalcançáveis. A lógica do descanso deve vir junto com uma nova ética laboral.
O alerta dos estudos
O professor Ildeberto Muniz de Almeida, da Unesp, apresentou pesquisas que associam diretamente a extensão das jornadas com doenças físicas e mentais.
Estudos internacionais e brasileiros demonstram que o excesso de horas afeta não só a saúde, mas também a segurança, o convívio social e a longevidade no mercado de trabalho. A OIT já alertou para o crescimento global das mortes ligadas a condições laborais abusivas.
Com a participação ativa de pesquisadores, trabalhadores e parlamentares, ficou evidente que o país precisa de um novo desenho de jornada de trabalho, um que respeite o direito ao descanso, à saúde, à vida fora da labuta. A escala 6×1, enquanto modelo dominante, representa o passado.






