A facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), originada nas penitenciárias paulistas, ultrapassou fronteiras e se transformou em uma organização com atuação global. Um mapeamento inédito do Ministério Público de São Paulo revelou que o grupo já se infiltrou em presídios e estruturas criminosas de pelo menos 28 países.
O avanço do PCC no exterior não se limita ao tráfico de drogas e armas; ele também representa uma nova frente de recrutamento e lavagem de dinheiro, preocupando autoridades internacionais.
O levantamento, apresentado a embaixadas e consulados para estimular parcerias contra o crime transnacional, identifica a presença do PCC em quatro continentes. Os principais focos estão na América do Sul e Europa, mas a facção também já se instalou na América do Norte, Ásia e até no Oriente Médio.
Infiltração estratégica em presídios
A atuação nos sistemas prisionais estrangeiros é uma das estratégias mais preocupantes. Em países onde a facção já se estabeleceu, o PCC repete seu modus operandi brasileiro: recruta detentos, impõe disciplina interna e começa a consolidar uma rede de influência dentro e fora das cadeias.
Essa tática facilita a expansão ideológica e organizacional da facção, conforme explica o promotor Lincoln Gakiya. A estrutura rígida e o modelo de funcionamento adotado em São Paulo se replicam em ambientes prisionais onde o Estado tem pouco controle, criando oportunidades para o crescimento da facção.
De trânsito a moradia
Enquanto no passado o deslocamento de membros do PCC para outros países era temporário e voltado a negócios pontuais, hoje há um movimento de fixação territorial.
A pesquisadora Camila Nunes Dias, da UFABC, alerta que a permanência é um indicativo da intenção de estruturar núcleos organizados, com recrutamento de nativos e domínio territorial, uma ameaça à segurança pública internacional.
Parcerias criminosas e cooperação internacional
O PCC não atua de forma isolada. As investigações revelam conexões com outras organizações criminosas, como a máfia italiana, com quem compartilham rotas, logística e técnicas de lavagem de dinheiro.
Essa aliança fortalece o tráfico de drogas entre América do Sul e Europa, utilizando portos e até submarinos artesanais, como o recentemente apreendido em Portugal com 6,5 toneladas de cocaína.
O avanço do PCC levou Brasil e Itália a firmarem acordos bilaterais para criação de equipes permanentes de investigação conjunta, com o objetivo de enfrentar o crime organizado em rede.
Rota da cocaína
A maioria dos integrantes no exterior ainda está concentrada na América Latina, especialmente em países com fronteira com o Brasil e forte produção de cocaína, como Paraguai, Bolívia e Venezuela.
No Paraguai, a presença do PCC já resultou em episódios violentos, como a rebelião em San Pedro, em 2019, que deixou dez mortos. O controle das cadeias por facções leva à disputa sangrenta entre grupos rivais e à corrosão da autoridade estatal.
Sintonia internacional
O núcleo responsável por essa expansão é chamado de “Sintonia dos Estados” e “Sintonia dos Países”. Esse setor cuida da coordenação das atividades internacionais, com monitoramento remoto, repasse de ordens e alinhamento ideológico entre os membros no Brasil e no exterior.
As informações do relatório foram reunidas por meio da quebra de sigilos telefônicos e telemáticos, além da cooperação com autoridades estrangeiras. O avanço tecnológico do PCC também é alarmante: a facção aprendeu a transferir grandes quantidades de dinheiro por vias informais, dificultando o rastreamento pelas autoridades.
Países com presença confirmada do PCC
Por ordem alfabética, o mapeamento apontou a presença da facção nos seguintes países:
- Alemanha
- Argentina
- Bélgica
- Bolívia
- Chile
- Colômbia
- Equador
- Espanha
- Estados Unidos
- França
- Guiana Francesa
- Guiana
- Holanda
- Inglaterra
- Irlanda
- Itália
- Japão
- Líbano
- México
- Paraguai
- Peru
- Portugal
- Sérvia
- Suíça
- Suriname
- Turquia
- Uruguai
- Venezuela
A capacidade da facção de operar além das fronteiras, infiltrar presídios, consolidar parcerias com outras máfias e lavar dinheiro internacionalmente indica que não se trata mais de uma organização local, mas de um cartel global altamente organizado.






