A realidade financeira de milhões de brasileiros passa por uma escolha comum, silenciosa e muitas vezes inevitável: o empréstimo consignado.
Segundo pesquisa recente do Datafolha, 32% dos trabalhadores com carteira assinada ou aposentados no país têm esse tipo de crédito ativo, um número que acende alertas sobre endividamento a longo prazo, especialmente entre os mais velhos, menos escolarizados e funcionários públicos.
O empréstimo consignado é uma modalidade de crédito em que as parcelas são automaticamente descontadas da folha de pagamento ou benefício previdenciário do contratante. Essa segurança para os bancos, a certeza do pagamento, resulta em taxas de juros mais baixas, o que o torna atrativo para quem precisa de dinheiro rápido.
A pesquisa Datafolha ouviu mais de 2 mil brasileiros em 136 municípios, revelando que 32% dos que têm carteira assinada ou são aposentados possuem esse tipo de empréstimo.
A pesquisa ainda mostra que esse percentual é ainda maior em determinadas regiões e faixas da população, apontando para padrões sociais e econômicos claros.
Quanto mais velho, mais recorrente é o consignado
A idade se revela um fator decisivo. Veja os dados:
- 43% dos entrevistados com 60 anos ou mais têm consignado.
- A taxa vai a 37% entre os que têm entre 45 e 59 anos.
- Entre os mais jovens (16 a 24 anos), a incidência é de apenas 15%.
Isso revela não só a maior necessidade entre os idosos, mas também o forte apelo dos bancos pelo consignado do INSS, considerado de baixo risco devido à vitaliciedade do benefício previdenciário.
Escolaridade e renda
A escolaridade interfere diretamente na probabilidade de contratação:
- 41% dos que têm apenas o ensino fundamental usam o crédito consignado.
- O número cai para 28% entre os com ensino médio e fica em 31% para os de nível superior.
Curiosamente, o consignado é mais comum entre quem recebe de 5 a 10 salários mínimos (37%), o que indica que ele não é exclusivo da baixa renda, mas também é utilizado por classes médias como forma de alívio financeiro.
Servidores públicos e aposentados lideram os índices
A estabilidade no emprego torna o servidor público uma categoria atrativa para as instituições financeiras:
- 48% dos servidores públicos têm empréstimo consignado.
- 45% dos aposentados também.
- Apenas 22% dos trabalhadores do setor privado possuem o crédito.
Esse recorte deixa claro como a previsibilidade de renda transforma determinados grupos em alvo preferencial de campanhas de crédito.
Geografia do consignado
As regiões Centro-Oeste e Norte lideram com 35% de trabalhadores formais ou aposentados com consignado, seguidas de perto por Sul e Nordeste (34%). O Sudeste apresenta o índice mais baixo, com 30%.
O dado pode refletir diferenças regionais no acesso a outros tipos de crédito ou mesmo o impacto do custo de vida local.
Percepção política também revela padrões de comportamento
Entre os que avaliam positivamente o governo Lula, 37% usam o consignado. Já entre os que o consideram regular, esse número cai para 28%. Entre os críticos (ruim/péssimo), o número é de 33%.
A identificação partidária não mostrou grandes disparidades: PT (32%), PL (33%) e outros partidos (36%).
Enquanto o crédito em folha continua sendo oferecido como “opção segura”, a educação financeira e o acompanhamento rigoroso da renda se tornam cada vez mais urgentes para evitar que o alívio de agora se transforme em uma prisão silenciosa de longo prazo.






