O setor do agro brasileiro atingiu um marco preocupante no segundo trimestre de 2025: o maior número de pedidos de recuperação judicial desde o início da série histórica, em 2021.
O avanço expressivo nas solicitações levanta uma questão urgente entre analistas, produtores e credores: o que está por trás desse movimento de alta?
Por que o agro bateu o recorde de pedidos de recuperação judicial?
De acordo com dados divulgados pela Serasa Experian, entre abril e junho deste ano foram registrados 565 pedidos de recuperação judicial no agro, um crescimento de 31,7% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Em comparação com o primeiro trimestre de 2025, o salto foi ainda mais acentuado, com um aumento de 45,2%. Pela primeira vez, os pedidos feitos por pessoas jurídicas superaram os feitos por pessoas físicas, com 243 e 220 solicitações, respectivamente.
O número mais elevado de pedidos veio de produtores de soja, com 192 registros, seguido por criadores de bovinos, com 26.
Entre os produtores pessoa física, os grandes proprietários concentraram a maior parte das solicitações, com 55 pedidos, enquanto os médios somaram 43 e os pequenos, 39.
Um grupo de destaque é o dos arrendatários e produtores vinculados a grupos econômicos ou familiares, que somaram 83 pedidos, evidenciando a vulnerabilidade de produtores que não possuem terras próprias.
Também as empresas ligadas ao setor agropecuário enfrentaram dificuldades: foram 102 pedidos de recuperação judicial nesse grupo, o maior número já registrado.
Os segmentos mais afetados incluem o de processamento de agroderivados, como óleo de soja e etanol, com 32 requerimentos, e a agroindústria de transformação primária, com 22.
Mas qual o motivo dos pedidos de recuperação judicial do agro brasileiro?
Embora a Serasa não tenha apontado uma explicação oficial, especialistas indicam que o recorde é reflexo de uma combinação de fatores críticos. A quebra de safras recentes, especialmente de grãos como soja e milho, comprometeu a receita de muitos produtores.
Ao mesmo tempo, o aumento dos juros nos últimos anos elevou significativamente o custo do crédito rural, agravando o endividamento no campo. Essa pressão financeira levou a uma elevação da inadimplência, dificultando renegociações com bancos e outras instituições credoras.
Outro ponto de atenção é a atuação de advogados e consultorias que incentivam o uso da recuperação judicial como estratégia precoce de proteção, antes mesmo de esgotadas as alternativas de negociação.
Esse cenário levanta alertas sobre o uso do mecanismo como um atalho, e não como último recurso, ampliando a complexidade da crise no setor.
