Vou resistir e não falar de livros nesta edição do “Além da Xícara” – mas coisas incríveis estão acontecendo no mundo do livro físico , aguarde as próximas. Hoje, vou falar de futebol (nem gosto, mas tem a ver com o café, que amo!).
Portanto, aproveitando o clima final da Copa, destaco que mesmo o Brasil tendo sido eliminado nas oitavas pela Noruega – e doeu -, quem presta atenção no que cabe numa xícara descobre um jogo paralelo. Os países que disputam o título estão entre os maiores apreciadores de café do mundo, e todos eles bebem (ou negociam) principalmente o grão brasileiro.
E detalhe, também não vou falar de concorrente na produção, pois a Colômbia que chegou na mesma etapa que o Brasil, na minha opinião tem mais marketing que entrega real (falei!). Quanto aos nossos “fregueses” (de xícara) cada um tem uma relação mais interessante que o outro com nossa bebida favorita. Acompanhe!

Noruega: o algoz que depende do Brasil toda manhã
A Noruega, que nos eliminou, é o segundo país mais cafeinado do planeta: 10 kg por habitante ao ano. A obsessão começou entre 1916 e 1927, quando o país proibiu bebidas destiladas e o café virou majestade. Nasceu o kokekaffe – café fervido na água, servido em bule, que acompanha os noruegueses em trilhas e cabanas até hoje.
Oslo é meca do café especial: foi de lá que saiu Tim Wendelboe, campeão mundial de barista em 2004 – que ajudou a revolucionar este tipo de concurso que promove o café. Sem falar da torra nórdica, clara, e que influencia cafeterias do mundo inteiro. Mas o detalhe que mais consola: 44% de todo o café que a Noruega bebe é brasileiro.
Inglaterra: perdeu o jogo, mas segue bebendo café brasileiro
A Inglaterra caiu na semifinal para a Argentina — mais uma vez o sonho do título ficou pelo caminho. Mas a pátria do chá das cinco tem uma relação com o café que poucos conhecem. O chá chegou à ilha no século XVII pelas mãos de uma princesa portuguesa, Catarina de Bragança, que se casou com o rei Carlos II em 1662. Virou identidade nacional.
Só que o café invadiu de volta com força total. Londres é hoje uma das capitais mundiais do café especial – Shoreditch e Soho têm cafeterias de origem única em cada esquina. As gerações mais novas pedem flat white com a mesma naturalidade que os avós pediam Earl Grey. E o Brasil está entre as principais origens do café servido no Reino Unido. A derrota no campo não muda o placar da xícara.
Curiosidade sobre o flat white: é uma bebida que mistura com leite, de origem australiana/neozelandesa, feito com um ou dois shots de espresso e uma camada fina e aveludada de microespuma de leite, servido em xícara pequena (150-180 ml) com sabor intenso de café equilibrado pelo leite cremoso, em geral com alguma “latte art”.
Espanha: o barraquito, o torrefacto e o café que divide opiniões
A Espanha venceu a França e chegou à final com uma cultura de café fascinante e polêmica. O grande personagem é o barraquito – uma bebida em camadas com leite condensado, licor, café expresso, casca de limão e canela, típica das Ilhas Canárias e da Catalunha. Mas a marca registrada espanhola é o torrefacto: o café torrado com açúcar, criado durante a Guerra Civil Espanhola para render mais. Até hoje divide opiniões – puristas torcem o nariz, saudosistas defendem. O consumo espanhol gira em torno de 1,8 kg por pessoa ao ano, mas o ritual é forte: café con leche no balcão do bar, em pé, rápido, antes de começar o dia.
França: perdeu o jogo, mas mudou o mundo de cima de uma mesa de café
A França caiu para a Espanha, mas sua história com o café é insuperável. Foi no Café de Foy, no Palais-Royal, que Camille Desmoulins subiu numa mesa em 12 de julho de 1789 e gritou o chamado às armas. Dois dias depois a Bastilha caía. A Revolução Francesa foi conclamada de cima de uma mesa de café. O Café Procope – que funciona até hoje, foi aberto em 1686, recebeu Voltaire (que tomava dezenas de xícaras de café com chocolate por dia), Rousseau e Danton.
E para fechar o círculo uma curiosidade: as primeiras mudas de café do Brasil vieram da Guiana Francesa em 1727. O maior produtor do mundo começou com sementes… francesas.
Argentina: venceu a semifinal e vai à final – com café brasileiro na xícara
A Argentina passou pela Inglaterra e está na grande decisão contra a Espanha. E o país do Messi tem uma cultura de café que é patrimônio cultural: o hábito de ir ao café em Buenos Aires foi reconhecido como Patrimônio Cultural da cidade – os cafés notables são tão emblemáticos quanto o tango.
O consumo argentino ainda é modesto – cerca de 1 kg por pessoa ao ano -, mas a tradição é gigante. O Café Tortoni, aberto em 1858, recebeu Borges, Cortázar e Carlos Gardel nas mesinhas. O cortado (expresso com um fio de leite quente) e a medialuna são o ritual portenho de cada manhã. E a cena de cafés especiais explodiu nos últimos anos: novas torrefações em Palermo e San Telmo fazem o mercado crescer 5% ao ano, movimentando hoje US$ 129 milhões.
Detalhe importante: a Argentina não é grande produtora de café – o que se bebe por lá vem, em boa parte, do Brasil. Ou seja: mesmo na final contra a Espanha, a Argentina vai tomar fôlego… e café brasileiro.
O placar da xícara
Pode doer no gramado, mas olha o placar do café: a Noruega bebe 44% do nosso grão. A Inglaterra nos tem como origem principal. A França nos deu as primeiras mudas. A Espanha nos compra. A Suíça nos negocia para o mundo inteiro. E a Argentina, nossa vizinha, está descobrindo que café de verdade também tem selo brasileiro.
O Brasil caiu na Copa, mas na xícara o hexa vem todo santo dia.





