Nosso direito à sombra

Na coluna desta semana, o jornalista Marcos Araújo reflete sobre a necessidade de vias públicas arborizadas como forma de enfrentar o calor

Por Marcos Araújo

Agencia Brasil Jose Cruz
Nos dias de calor escaldante, sonho com uma rua onde seja possível caminhar pela calçada protegido pelas copas frondosas (Foto: José Cruz/ Agência Brasil)

Abro a janela e espicho a cabeça para fora. Viro para a esquerda e vejo uma solitária árvore na esquina onde começa a rua. À direita, até onde minha vista alcança, não vejo mais nenhuma. Constato, com tristeza, que minha rua padece da falta de verde que, aqui, parece ter sido esquecido. Na verdade, aquela única espécie que consigo enxergar funciona como símbolo da ausência de políticas urbanas mais sensíveis que aflige municípios de médio e grande porte do Brasil.

Há pouquíssimas árvores nas vias públicas da região onde moro. Infelizmente, essa situação não é uma característica apenas do meu bairro. Como sabemos, as cidades, em sua maioria, preferem omitir a importância da arborização. O asfalto e as construções cada vez mais verticalizadas retiram o espaço das árvores, negando nosso direito à sombra.

Nos dias de calor escaldante, sonho com uma rua onde seja possível caminhar pela calçada protegido pelas copas frondosas. Grandes sombras que refrescam e contrastam com a quentura cinzenta do asfalto. Porém, não é apenas de conforto térmico que podemos falar: as árvores absorvem poluentes e liberam oxigênio, enquanto suas raízes dão firmeza ao solo. Elas também servem de refúgio para pássaros e insetos, conectando o urbano à natureza. E, claro, há ainda a beleza que proporcionam, tornando as ruas mais aprazíveis ao nosso olhar.

Infelizmente, o crescimento acelerado das cidades costuma privilegiar o concreto e as vias pavimentadas, relegando o verde a um segundo plano. A carência de planejamento urbano e a ideia equivocada de que as árvores representam um entrave ou um inconveniente favorecem o corte indiscriminado e o abandono, produzindo cidades mais quentes, com ar de pior qualidade e cada vez mais expostas aos impactos dos eventos climáticos.

Essa é uma mentalidade que precisa ser mudada. A sensibilização da sociedade e o investimento em educação ambiental são fundamentais para que todos, de gestores a cidadãos, compreendam o valor inestimável das árvores.

Plantar mais árvores e proteger as que já existem é proteger a nós mesmos. É uma maneira de garantir ar mais puro, temperaturas mais amenas, uma vida mais saudável e cidades mais justas e bonitas. No fundo, preservar a natureza e apostar na arborização dos espaços urbanos é reconhecer que nosso futuro pode e deve ser construído à sombra, de modo que esse abrigo não seja privilégio de poucos, mas um direito compartilhado diante dos desafios climáticos.

Marcos Araújo

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