A pele do tempo
“Toda idade, tanta de uma cidade, quanto em nós, deixa sinais na gente.”
Neste domingo, dia 31 de maio, Juiz de Fora, completa 176 anos de vida. Eu que vim para cá com a minha família – meu pai, minha mãe e o meu irmão – em 1968, me considero um juiz-forano nato, como se aqui tivesse nascido. Saí “pitico” de Porciúncula (RJ) e continuo crescendo.
Tenho muito amor a Juiz de Fora. Amo essa cidade. Há pouco mais de dez anos, recebi da Câmara Municipal, através da vereadora, à época, Ana Rossignoli, o título de Cidadão Honorário de JF. Conforme lei de sua autoria, número 13.353/2016. Minha eterna gratidão à ex-vereadora e amiga, Ana do Padre Frederico.
Toda idade, tanta de uma cidade, quanto em nós, deixa sinais na gente. Em nossa pele, o tempo desenha vincos, curvas, marcas e rugas que nos definem para o resto da vida. E as cidades também envelhecem. Também adquirem pele: das ruas, calçadas, praças
e esquinas. Mas existe uma outra camada de pele mais funda – invisível –costurada de lembranças, ausências, afetos e travessias. É nessa parte que o tempo se deita e deixa seus rastros, porque uma cidade sem marcas seria apenas um cenário morto, sem passado, sem alma.
O tempo presente é o que transforma o concreto em pertencimento. Precisamos encher de humanidade esse tempo na cidade. Voltar a fazer das praças públicas, lugares de encontros; das ruas, mapas afetivos. Descer e subir o “Calçadão”, que se transformou em um corredor de pessoas apressadas, ausentes de si.
Esses comportamentos contemporâneos que não oferecem lugares para os encontros afastam as pessoas idosas do convívio social. Porque a sociedade digital, virtual, enxerga obsolescência onde deveria reconhecer experiência. Quer apagar as marcas do tempo quando deveria aprender a preservá-las. Ao celebrar os seus 176 anos, JF não precisa negar sua idade e parecer jovem. Ela precisa parecer inteira.
Sustentar a sua vivência com essa idade e fortalecer sua dignidade de quem sabe que envelhecer não é perder valor e ser menos. É acumular presença. A maturidade de sua idade está menos no que ela inaugurou do que na forma como ela cuida do que herdou. Porque o futuro de uma cidade não nasce do esquecimento das pessoas que a ajudaram a levantar.
Nesse aniversário de nossa querida JF, saibamos tocar a sua pele com reverência, respeito, cultura cívica e cidadã. Que nossas mãos não sejam as que apagam as suas memórias, nem joguem no chão as histórias familiares. Mas que sejam mãos que as preservem. Que nossos olhos aprendam a ver beleza nas marcas existentes (as que ainda resistem) na cidade, que a pressa diária insiste em desprezar. Uma cidade, como a nossa, amadurece como a gente amadurece: quando, verdadeiramente, deixamos de temer os sinais do tempo e passamos a reconhecê-los como prova maior de vida. E não há beleza maior do que uma história bem
vivida impressa na pele.
Parabéns, JF. Eu te amo!









