Contra todas as expectativas para quem vive no Brasil de 2021, o pulso, como garantiram há anos os Titãs, ainda pulsa. Apesar da longa lista de mazelas das quais então já se adoecia quando a canção foi escrita, duvido muito que o octeto previa o atoleiro em que estaríamos hoje enfiados. Minto: talvez a profecia corretíssima fosse um alerta: “Bichos escrotos, saiam dos esgotos”. Saíram.
Mas o pulso, de fato, ainda pulsa. Para além de baboseiras de autoajuda sobre resiliência circulando em artes fofas do Instagram, tenho pensado muito sobre a insistência dos corpos. A despeito de todos os descuidos, loucuras, fraquezas, paranoias, ataques, estupros, inconsequências, exclusões, misérias e tantos infortúnios que nós e nossos algozes – incluindo o Estado – lhes impõem, nossos corpos continuam sendo nosso único passaporte para habitar essa Terra, por mais difícil que seja vez ou outra.
Óbvio, nenhum corpo resiste a tudo. Quase meio milhão de corpos não resistiu à desgraça de sua própria brasilidade. Nenhum corpo é indestrutível. Seja frente a patologias, abalroamentos, padrões irracionais, violações ou o que quer que seja. Nenhum corpo se safa da própria existência, da própria finitude. Nenhum corpo é maior do que o tempo. O corpo ainda é pouco.
Mas se for pra manter o raciocínio com os Titãs, acho que o único contrato que podemos fazer com nossos próprios corpos é o de gratamente caminhar a seu lado, não caindo em conversês bestas sobre como eles devem se parecer, tampouco em papos higienistas de uma ideia errada de saúde ou de doença. É aprender a ouvir atentamente aos sinais que eles nos dão, regidos pela honestidade de uma promessa tão simples que cabe em hit oitentista: “só quero saber do que pode dar certo.”
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