Do piso para a parede – e para o livro

A partir da técnica do pontilhado e tracejado sobre aquarela, Iriê preserva parte da memória de Juiz de Fora
Em um mundo e numa época em que todos os olhos parecem estar presos às telas de smartphones, tablets, computadores e aparelhos de TV, olhar para o céu e a beleza das estrelas já se tornou raro prazer entre as pessoas. Descobrir que há algo de belo no solo em que pisamos, então, é mais raro ainda. Mas foi da arte criada para enfeitar os pisos de casas, mansões e prédios hoje históricos em Juiz de Fora que o artista plástico Iriê Salomão encontrou inspiração para uma série de mandalas que, agora, pode ser vista também pelo público no livro “Do piso à parede – A arte de Pantaleone Arcuri”. A obra será lançada nesta quarta-feira, às 20h, no Ritz Hotel. No mesmo dia, algumas das mandalas reproduzidas na publicação estarão expostas.
O trabalho, publicado por meio da Lei Murilo Mendes, é o encerramento de um ciclo iniciado em 2012. A inspiração veio ao observar o piso de uma das salas do antigo prédio da Prefeitura, revestido de ladrilho hidráulico fabricado pelo italiano Pantaleone Arcuri, que se estabeleceu na cidade no final do século XIX e que por aqui ficou até sua morte, em 1958. “Fotografei o piso e fiz minha primeira mandala. A partir daí, procurei por outras peças e produzi uma série com 15 quadros, que obedecem à originalidade da fonte, incluindo os erros”, conta Iriê.
Para reproduzir os ladrilhos encontrados em Juiz de Fora e Belo Horizonte, ele utilizou a técnica do pontilhado e tracejado sobre aquarela, refazendo as peças integralmente ou apenas em alguns detalhes, ou apostando nos desenhos que elas criavam quando colocadas lado a lado. Trabalhando em dois desenhos simultaneamente, ele demorava cerca de 45 dias para finalizar cada dupla, realizando a exposição com as figuras em junho do ano passado. A ideia do livro veio por sugestão do seu filho.
“A proposta do livro é manter vivo este trabalho, que está desaparecendo em Juiz de Fora. Há o caso de uma igreja da cidade que ficou fechada por anos para reforma, e trocaram o piso fabricado pela empresa de Pantaleone por porcelanato. A própria história do Pantaleone Arcuri estava esquecida, havia pouca coisa disponível”, lamenta. Ao mesmo tempo, ele comemora o apoio da Lei Murilo Mendes para manter viva a memória das pequenas obras de arte que poderiam ser criadas por meio do ladrilho hidráulico. “O apoio foi fundamental. Como 30% das obras produzidas vão para a Funalfa, os livros poderão ser disponibilizados em escolas, bibliotecas”, destaca o artista plástico, acrescentando que cada figura vem acompanhada de um texto explicativo – em português e inglês.
Ajudando a construir uma cidade
A vinda de Pantaleone Arcuri para Juiz de Fora, no final do século XIX, foi marcada pelo estabelecimento de uma das fábricas mais importantes da cidade, a Pantaleone Arcuri & Timponi, em 1895, que depois mudou o nome para Pantaleone Arcuri & Spinelli até adotar em definitivo o nome Companhia Industrial e Construtora Pantaleone Arcuri, que se manteve em atividade até 1944. Neste período, Pantaleone e seus sócios estiveram envolvidos na construção de alguns dos mais importantes patrimônios de Juiz de Fora, como o Monumento ao Cristo Redentor, a antiga Escola Normal, o Cine-Theatro Central, entre outros. O próprio edifício da empresa, inaugurado em 1923, foi tombado como patrimônio municipal em 1988 e hoje abriga a sede do Cras, da PJF.
“A empresa do Pantaleone Arcuri vendia louças, porcelanas, encanamentos e os ladrilhos hidráulicos, que eram fabricados ali a partir das fôrmas de latão desenhadas na Europa e importadas por ele, que também trouxe para o Brasil a ideia de se fabricar telhas de cimeanto, material antecessor do amianto, quando ainda se fabricavam telhas de barro. Mesmo após o fechamento da fábrica, ele permaneceu na cidade. O mais importante é que o trabalho não morreu com ele, os legados físico e intelectual ficaram com seus descendentes”, ressalta Iriê, orgulhoso por encerrar um ciclo artístico iniciado há três anos.
“Dá um orgulho danado ver esse livro publicado, e por três motivos. O primeiro é pelo estudo das técnicas de desenho para concluir essa tarefa; o segundo, por ter feito a série mesmo com as dificuldades naturais da vida; e o terceiro, pela realização do sonho de levar para a parede, para as bibliotecas, escolas e casas dos amigos um pouco da história do Pantaleone Arcuri. É a sensação do dever cumprido”, resume Iriê, que já trabalha há mais de um ano na série inspirada nas esculturas de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, que estão no santuário de Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas do Campo. “No início, seriam apenas 24 figuras inspiradas nos 12 profetas, mas resolvi incluir pelo menos dois personagens que aparecem na vida de Jesus entre a Santa Ceia e o Calvário e que foram representados por Aleijadinho nas capelas do santuário. É um trabalho para ser concluído entre o final de 2016 e o início de 2017.”
“DO PISO À PAREDE – A ARTE DE PANTALEONE ARCURI”
Lançamento livro
Nesta quarta-feira, às 20h
Ritz Hotel
(Av. Rio Branco 2.000 – Centro)









