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Sobre o amor e os livros


Por MAURO MORAIS

20/10/2015 às 07h00- Atualizada 20/10/2015 às 08h33

José Karini, Ângela Câmara (sentados), Claudia Mele e Julio Adrião (deitados), da Cia Dezequilibrados, vivem histórias de amor no palco

José Karini, Ângela Câmara (sentados), Claudia Mele e Julio Adrião (deitados), da Cia Dezequilibrados, vivem histórias de amor no palco

Acreditando que a amada está morta, o homem toma veneno e morre. A mocinha acorda, vê o amado morto e crava um punhal no próprio peito. A tragédia amorosa está em “Romeu e Julieta”, clássico de William Shakespeare, mas também nos noticiários recentes. A sociedade, consciente ou inconscientemente, reflete a arte produzida e reproduzida desde o século XVI. O amor romântico, então, pode não ser tão espontâneo como acreditamos. Eis o ponto de partida do grupo Os Dezequilibrados, companhia de teatro carioca, que traz à cidade “Beija-me como nos livros”, que ganha apresentações em Juiz de Fora nesta terça e quarta, às 20h, no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas. Já no título, uma referência a Julieta, que em dado momento do texto se vira a Romeu e lhe suplica pelo que ela considerava, baseada na literatura, como o mais belo e romântico ato.

“Será que o amor que praticamos hoje é fruto de uma sequência cultural? Será o amor inerente ao ser humano ou uma cultura adquirida?”, questiona o ator Julio Adrião. “Em algum momento da vida, temos que nos deparar com a fidelidade ao amor e a fidelidade ao cônjuge. O que vemos em cena são casais contemporâneos sendo atravessados por situações presentes na história, sendo donos e vítimas de suas escolhas. Falamos sobre o livre arbítrio de fazer as escolhas e sucumbir diante do que elas nos traz”, completa Adrião, convidado, junto da atriz Claudia Mele, para dividir o palco com os integrantes da companhia, Ângela Câmara e José Karini.

Durante nove meses, os quatro, mais o diretor Ivan Sugahara, a assistente de direção Lívia Paiva, a diretora de movimento e preparadora corporal Duda Maia e o diretor vocal Ricardo Góes mergulharam no universo daquele amor “que é um fogo que arde sem se ver”, expresso por Camões. “Partimos de estudos, como ‘O livro do amor’, da Regina Navarro Lins, que serviu de base. Assistimos a filmes e peças, até que resolvemos fechar a dramaturgia entre os séculos II e XVI, quando se consolida a questão do amor romântico tal qual entendemos hoje. Para abordar esse período, optamos por quatro mitos do amor – ‘Tristão e Isolda’, ‘Romeu e Julieta’, ‘Don Juan’ e, por fim, ‘Werther’ -, que retratam esse modelo que ainda temos na contemporaneidade”, conta Adrião.

O grupo, que chegou aos 18 anos em 2014, decidiu-se por encerrar uma trilogia do amor justamente com um texto autoral. Após apresentar “Amores”, de Domingos Oliveira, e “Fala comigo como a chuva e me deixa ouvir”, de Tennessee Williams, partiu para o processo de criação coletiva. “Ao longo dos meses, construímos várias cenas, muitas delas como se fossem danças, movimentos concretos, para falar do amor sem usar o português como língua de comunicação. Acreditávamos que o uso de uma língua própria serviria como instrumento interessante para falar do amor como intenção universal. O trabalho foi desenvolvido em português e depois criamos uma língua base”, aponta o ator.

Sem uma linearidade marcada e dinâmico em variadas trocas de figurinos, o espetáculo apresenta dois casais que, em seu cotidiano, são confrontados com passagens presentes nos mitos. Nesses momentos, a língua inventada para o palco é adaptada com um sotaque da língua origem desses mitos. Passagens de “Tristão e Isolda”, por exemplo, ganham sonoridade britânica, conta Adrião. “A compreensão de como está sendo dito faz com que o espectador aproxime e reconheça aquilo na sua própria vida. Não queremos contar a história do amor, mas de vários momentos para que existam várias leituras singulares”, acrescenta o ator, pontuando que o jogo que se estabelece em cena faz-se desafiador na medida em que precisa transmitir intenções, já que não tem a palavra como suporte principal.

As descobertas de um ator

Ao completar dez anos de estrada com seu monólogo “A descoberta das Américas”, de Dario Fo, Julio Adrião foi fisgado por uma nova relação. No caso, muito mais que um triângulo, um quarteto. “O que me cativou, além do trabalho da companhia, é que eu queria experimentar outra vivência, principalmente a ideia de construir a dramaturgia em sala. Ficar nove meses trabalhando era muito instigante. Tinha um pouco de medo, porque quando se entra num processo como esse não há como sair, mas queria arriscar. E teria me arrependido se não tivesse topado”, ri o ator, dizendo-se, ainda, envolvido pela prova de falar de algo já tão “surrado” de maneira diferente e original.

Sozinho em cena por tanto tempo, com um espetáculo elogiado pela crítica e pelo público, Adrião seguiu para a Sede das Companhias, na Escadaria Selarón, na Lapa, onde Os Dezequilibrados dividem espaço com a Cia. dos Atores e com a Pangeia Cia. de Teatro. “Trabalhei por muitos anos em companhia, dirigi e fiz parte. Estou acostumado com a dinâmica. Como Os Dezequilibrados não têm exclusividade dos atores e diretores, o que se assemelha um pouco com a discussão contemporânea do amor, todos acabam tendo a possibilidade de se renovar fora e de convidar parceiros para os projetos”, reflete ele. “Por sermos dois de fora e dois de dentro da companhia, nos integramos muito rápido. Hoje me sinto parte completa. Viajando muito, nos sentimos um pouco como família. É um pouco como o casamento: à medida em que fica mais denso, também fica mais exigente, e surge a maturidade.”

Para Adrião, a nova relação apenas não lhe bastou. Ávido por experiências, se entregou ainda mais. No Festival do Rio, que terminou no último dia 14, apareceu em três produções: “Nise – O coração da loucura”, de Roberto Berliner, “Quase memória”, de Ruy Guerra, e “Aspirantes”, de Ives Rosenfeld. “São filmes completamente diferentes. Em ‘Nise’, por exemplo, houve uma pesquisa muito profunda para não ficar caricato e propiciar uma encenação que tivesse tônus. Os atores que fazem os sete principais pontos de referência para as técnicas da Nise estão muito bons em cena. A Glória Pires está sublime”, entusiasma-se.

Para o ator, reconhecido e aclamado na cena independente do Rio de Janeiro, a boa fase também se aproxima do que “Beija-me como nos livros” quer dizer: “Existe um acúmulo de experiências, mas também uma renovação. Quando começo um processo, preciso ter a generosidade de não saber. Nem tudo é só amor, mas é o amor que resolve tudo.”

BEIJA-ME COMO NOS LIVROS

Dias 20 e 21, às 20h

Centro Cultural Bernardo Mascarenhas

(Av. Getúlio Vargas 200)