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Operação Athos avança na Bolívia


Por Daniela Arbex e Michele Meireles

29/10/2014 às 07h00

Além dos réus, mais de 60 testemunhas de acusação e defesa serão ouvidas na Justiça Federal em Juiz de Fora

Além dos réus, mais de 60 testemunhas de acusação e defesa serão ouvidas na Justiça Federal em Juiz de Fora

Dois homens, um deles apontado pela Polícia Federal (PF) como principal comprador de droga do traficante juiz-forano Peterson Pereira Monteiro, o Zói, um dos “Irmãos Metralha”, foram presos na Bolívia na noite de segunda-feira. A Tribuna teve acesso com exclusividade a detalhes da ação, realizada pelo Grupo de Investigações Sensíveis (Gise) da PF em conjunto com a Fuerza Especial de Lucha Contra el Narcotrafico (FELCN) daquele país. A investigação é continuidade da operação “Athos”, que desarticulou uma das principais quadrilhas distribuidoras de drogas do país, sediada em Juiz de Fora. Para conseguir prender os até então foragidos Carlos Sandro Simen Poeis, 45 anos, e seu filho Savio Silva Simen, 25, os agentes brasileiros chegaram a Santa Cruz de La Sierra, no mês passado, onde permaneceram no encalço da dupla, que é suspeita de ser proprietária de uma das mais luxuosas boates daquele município boliviano.

Pai e filho são oriundos do Rio de Janeiro e revendiam droga negociada em Juiz de Fora para morros cariocas. A chegada dos policiais no condomínio de luxo Ciudad Jardín surpreendeu os suspeitos que “gostavam de ostentar a riqueza advinda do tráfico de drogas através de carros de luxo, que costumam trazer da Bolívia ou também negociar aqui mesmo no Brasil, em troca de drogas”, conforme o inquérito da Polícia Federal. Nas fotos as quais o jornal teve acesso, além de veículos importados, há detalhes da suntuosa mansão onde eles se encontravam.

A informação é que os suspeitos seriam deportados até o final da tarde de ontem, quando seguiriam para o Mato Grosso do Sul, onde embarcariam para Belo Horizonte, a fim de serem conduzidos para a Penitenciária Nelson Hungria, em Contagem. Na unidade prisional também estão os outros detidos na operação deflagrada em junho. Em setembro deste ano, a dupla já havia sido denunciada pelo Ministério Público Federal por associação para o tráfico internacional de drogas adquiridas no Paraguai, Bolívia e Peru e também por associação para o financiamento ao tráfico. Ontem, 15 réus no processo da “Athos” começaram a ser ouvidos na Justiça Federal em Juiz de Fora.

Alto poder financeiro

Por meio de interceptações telefônicas, a Polícia Federal flagrou a negociata de grandes volumes de drogas entre os Simen e Peterson Monteiro, o Zói. Conforme o documento do inquérito, em diversas gravações ficou clara a movimentação de cargas de tóxicos para o Rio de Janeiro, atividade considerada “rotineira”. Segundo a investigação, as quantidades negociadas revelam o alto poder financeiro da organização e o planejamento de envios e entregas do entorpecente.

Conforme a Polícia Federal, o filho de Simen passou a morar na Bolívia, onde estudava medicina, curso que não exige vestibular como no Brasil, apenas uma inscrição. Apesar de estar em um dos países que mais fornece cocaína, a negociação com Zói foi mantida, bem como o repasse de produtos ilícitos para uma rede de contatos no Rio. A suspeita é que do Brasil saíssem drogas sintéticas, como ecstasy, vendidas na Bolívia. Além disso, conforme o inquérito, o estudante de medicina mantinha “contato com outros traficantes internacionais, objetivando fornecimento de drogas”.

Série de prisões

A Operação “Athos” foi deflagrada pela Polícia Federal em junho deste ano, quando 15 pessoas foram presas em Juiz de Fora suspeitas de envolvimento em um esquema milionário de tráfico de drogas internacional. Entre os capturados estão empresários, um policial militar, antigos envolvidos no tráfico de entorpecentes na região Leste e o ex-juiz da Vara de Execuções Criminais, Amaury de Lima e Souza. O magistrado é suspeito de beneficiar traficantes com venda de sentenças, além de ser apontado pela Polícia Federal como o cabeça do núcleo jurídico da quadrilha.

Já em setembro, o Ministério Público Federal (MPF) denunciou 22 pessoas por associação para o tráfico internacional de drogas adquiridas no Paraguai, Bolívia e Peru. Onze delas também foram acusadas de tráfico internacional; três, de associação para o financiamento ao tráfico. O juiz Amaury de Lima e Souza foi denunciado em julho pelo Ministério Público pelos crimes de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e posse irregular de arma de fogo, acessório e petrechos de uso permitido e restrito, além de colaboração como informante de organização criminosa atuante no tráfico de drogas.

Justiça inicia audiência com 15 réus

Quinze réus da operação “Athos” chegaram à cidade ontem para a série de oitivas iniciada pela Justiça Federal. O processo apura crimes de tráfico internacional de drogas e armas, com base nos elementos colhidos pela Polícia Federal, que deflagrou a manobra em 10 de junho para capturar a organização criminosa sediada em Juiz de Fora, ligada a esquema milionário. De acordo com a direção administrativa do órgão, apesar de não haver previsão para o término dos trabalhos, a expectativa é de que a audiência de instrução criminal seja feita ao longo de três semanas já que, além dos réus, estão sendo ouvidas mais de 60 testemunhas de acusação e defesa. Os nomes dos envolvidos cuja competência criminal está no município não foram divulgados, mas a Justiça Federal afirmou que o juiz Amaury de Lima e Souza, suspeito de vender sentenças para beneficiar traficantes, não está entre esses 15 réus, porque o processo dele havia sido desmembrado, ficando sob responsabilidade da Justiça Federal de Belo Horizonte.

Como os detentos estão acautelados em unidades prisionais da capital e região Metropolitana, a maioria deles na Penitenciária Nelson Hungria, em Contagem, eles chegaram a Juiz de Fora na manhã de ontem em vans do Comando de Operações Especiais (Cope) do sistema prisional. O grupo deverá pernoitar na Penitenciária Ariosvaldo Campos Pires, no Linhares, Zona Leste, e não poderá ter contato com familiares no período. Na sede da Justiça Federal, eles permanecem em uma carceragem enquanto não são ouvidos, e a segurança está sendo feita por cerca de 15 policiais federais. Já na parte externa, a Polícia Militar está dando apoio, enquanto a Settra auxilia no trânsito e estacionamento. Pela manhã, já foi possível perceber a movimentação de advogados no prédio da Justiça Federal.

Ainda conforme a direção, a audiência está sendo presidida por um colegiado formado por três juízes federais atuantes na cidade, instituído com base na Lei 12.694/2014, que dispõe sobre o julgamento de crimes praticados por organizações criminosas. Os nomes dos juízes não foram divulgados, e as sessões não são abertas ao público porque “o processo corre sob segredo de Justiça, em razão da existência de conteúdo sigiloso”. Segundo a diretora administrativa, Geovana Fernandes, as testemunhas arroladas pela acusação são as primeiras a serem ouvidas, seguidas pelas de defesa e pelos réus. As oitivas acontecem das 9h às 20h, com intervalos para alimentação e descanso. De acordo com ela, após o término da audiência, ainda há prazo para a sentença, que não é emitida imediatamente.

As investigações da operação “Athos” resultaram no cumprimento de 22 mandados de prisão preventiva e 38 de busca e apreensão e, no início de setembro, a organização criminosa foi denunciada pelo Ministério Público Federal (MPF). Das 22 pessoas denunciadas por associação para o tráfico internacional de drogas, adquiridas no Paraguai, Bolívia e Peru, e também por associação para o financiamento ao tráfico, 13 tinham residência em Juiz de Fora, cidade sede do grupo. Com estrutura ramificada e complexa, voltada para o tráfico internacional de drogas e armas, a organização atuava em vários estados brasileiros.