A Parada agora é outra

Era início da tarde da última sexta-feira quando um senhor de idade elevada e aparência frágil subiu as escadas da casa de Marco Trajano, no número 345 da Rua São Sebastião, onde funciona a sede do Movimento Gay de Minas (MGM), do qual Trajano é presidente, para entregar-lhe uma encomenda. Ao encontrar o militante, o homem, sem se conter, disse que assistiu a uma entrevista sua na televisão e pediu que não deixasse de lutar pela punição dos responsáveis por espancar um adolescente no Bairro Nova Benfica. O senhor lhe disse que seu filho também é gay e não merece estar sujeito às violências cotidianas. Um nó na garganta e a certeza de que a luta não foi em vão. Quando esse mesmo Trajano anunciou que este ano seria o último da Parada Gay de Juiz de Fora, estava certo de que muito foi feito, e, agora, o trio deve seguir outra direção.
“Um homem, mesmo heterossexual, sofre com a homofobia por ser pai e, principalmente, por saber da importância de ser solidário. Antigamente, esse pai teria vergonha. Nossas conquistas permitiram que o comportamento fosse alterado”, emociona-se o militante. Angustiado, ele fala do caso de agressão desta semana, que, mesmo incrementando as estatísticas, revela o progresso de um movimento que fez de Juiz de Fora pioneira e, agora, faz da cidade um reflexo de todo o resto do país. “Esse caso só teve visibilidade por conta da ocupação das paradas nos últimos 15 anos. Se não fosse isso, talvez não tivéssemos um casamento civil reconhecido pelo STF, a violência contra as pessoas não teria repercussão, não seríamos ouvidos, mesmo que minimamente”, defende.
“A parada já cumpriu seu papel. Precisamos avançar. A voz já está ouvida. Precisamos ter ação, fazer política e viver, de fato, uma representação nesse país”, discursa Trajano, que pelo 13º ano agita a bandeira, beija o marido Oswaldo Braga e dá partida no trio, às 16h deste domingo (concentração a partir das 14h), da Praça do Riachuelo, rumo à Praça Antônio Carlos, passando pela Avenida Getúlio Vargas. “Para mudar a violência cotidiana, temos que ter uma organização comunitária. Precisamos de mais Jean Wyllys”, brada Trajano, referindo-se ao único deputado do Congresso Nacional assumidamente gay, e cujas pautas principais giram em torno dos direitos da comunidade LGBTI. Divulgado na última quinta-feira, o Prêmio Congresso em Foco 2015, promovido pelo site homônimo, elegeu, por voto popular, Wyllys como o melhor deputado brasileiro, título também conquistado em 2013 e 2012.
Caminhando, cantando e gritando
“Aqui estou”, grita o desfile festivo que anseia, agora, tomar novos espaços tornando-se “mãos à obra”. Controversa, essa ocupação que partiu das ruas e ganhou a grande mídia, em novelas e outras expressões artísticas, ainda merece mais atenção. Para o estudante de direito da UFJF, Talles Bhering, integrante do Coletivo Duas Cabeças, grupo de discussão sobre a diversidade sexual, o que foi conquistado não pode bastar, e o caminho é longo e árduo. “Há dez anos, os programas de TV apostavam em caricaturas. Isso passou, mas um beijo gay ainda cria muita reação. Os personagens LGBTI são tímidos, com discursos normativos e nada espontâneos. Ainda é muito pouco. É um absurdo ver nossa representação mínima no Congresso. Queremos existir e, mais que isso, demandar direitos como qualquer outra pessoa”, pontua.
Segundo a mestranda em Letras pela UFJF Isadora Pontes, integrante do coletivo feminista Maria Maria, a visibilidade alcançada pelo movimento é rasa e discriminatória. “A visibilidade dos homossexuais homens, brancos e de uma classe média ou alta já foi alcançada, mas para o restante da comunidade falta muito. As mulheres lésbicas são totalmente apagadas da luta LGBTI. Não acreditamos em lutar contra o preconceito contra o público LGBTI sem lutar contra o machismo, sem lutar contra o capitalismo e sem lutar contra o racismo. O sistema gera a opressão o tempo todo”, defende a militante, reforçando que o punho cerrado que segmenta também violenta. “Mulheres estão morrendo, sendo agredidas, mercantilizadas, lésbicas, sendo estupradas. É urgente acabar com as mortes.”
No contexto de que não existe os que são mais gente do que outras gentes, o professor da Escola de Comunicação da UFRJ Denilson Lopes pondera: “Nem toda invisibilidade é repressão ou submissão ao preconceito. O fato de a pessoa não se colocar como gay ou lésbica em público não significa ela não se aceitar, porque, muitas vezes, os termos não são suficientes”. De acordo com ele, é preciso pensar no diálogo para além da margem, capaz de mostrar as muitas faces de uma comunidade tão diversificada quanto o país no qual se encontra. “Produzir imagens positivas é insuficiente e perigoso, porque é o surgimento de novos clichês e são simplificações de uma realidade”, comenta ele.
Consenso entre militantes e pesquisadores, a ampliação de representatividade política do movimento LGBTI é uma urgência. “Muitas pessoas ainda não estão dispostas a rever os próprios privilégios em prol da ampliação dos direitos dos outros”, pontua Talles Bhering. “Defendo uma maior participação da mulher na política, não de qualquer mulher, mas das que consigam combater e não reafirmar a opressão”, reforça Isadora Pontes. Receita de bolo? Não há. Para Marco Trajano, um caminho é certo: “Criando uma identidade cultural e comunitária, repercutindo nossa luta, conseguiremos criar força política. Não dá mais para votar em troca de gasolina ou emprego, precisamos votar como cidadão gay, porque não adianta ter asfalto na rua se temos o rosto desfigurado pela violência.” Bandeira hasteada, a comunidade LGBTI tem fôlego para seguir “caminhando e cantando”, com ou sem trio, certa de que o principal direito é ser humano. Afinal, “somos todos iguais braços dados ou não”.









