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Cidadãos do amanhã


Por JÚLIA PESSÔA

10/10/2015 às 07h00

Ana Laura ajuda sua mãe na cozinha e guarda dinheiro para ajudar o próximo

Ana Laura ajuda sua mãe na cozinha e guarda dinheiro para ajudar o próximo

“No Dia das Crianças, eu vou acampar”, diz a pequena Ana Laura da Fonseca Maia, enquanto faz traços coloridos retratando a mãe, o pai e ela no passeio, cercados por um urso e um lobo e muito verde. Por quê?, indaga a repórter, a quem a menina responde sem nem desviar os olhos do papel. “Ah, porque eu já tenho muitos brinquedos, e nunca acampei”, diz ela, contrariando a publicidade e o senso comum de que sua geração só quer saber de eletrônicos, princesas e galinhas pintadas. Não que os brinquedos tenham perdido seu encanto, mas muitos meninos e meninas, como Ana Laura, vêm se importando cada vez mais em ter vivências significativas, estão preocupados com o próximo e o planeta em que habitam, e o melhor: divertindo-se com isso.

“Desde que ela nasceu e até pouco tempo atrás, eu me sentia muito ausente, por questões profissionais. E tentava compensar isso com coisas materiais, até perceber que ela não ligava para os brinquedos, se importava muito mais com a presença, em fazer coisas comigo e o pai. E quando estes momentos eram de doações, ou qualquer tipo de atividade mais social, percebemos que era muito mais prazeroso para ela”, conta a mãe Mariana Maia, que depois da maternidade também se voltou mais para questões humanas, tendo sido uma das organizadoras do The Street Store de Juiz de Fora e atualmente integrante do grupo Doutores do Barulho. “Acho que a maior dificuldade quando se tenta passar este tipo de valor, como pai ou mãe, é policiar a gente mesmo, porque para as crianças é algo muito natural gostar da natureza, de animais, preocupar-se com as pessoas. Se o consumismo fosse tão inato nas crianças, a indústria de brinquedos não seria tão incisiva”, opina a mãe.

Gabi proporciona experiências como piquenique para as filhas Helena e Manu, que participam dos preparativos

Gabi proporciona experiências como piquenique para as filhas Helena e Manu, que participam dos preparativos

Na casa da artista plástica Gabi Gonçalves, a diversão também é muito mais orientada pelo que se vive do que pelo que se tem. “A maioria dos brinquedos não tem função, não permite que as crianças experimentem. Eu e as meninas fazemos muitas coisas juntas em vez de elas passarem tempo vendo TV ou com brinquedos. Fizemos um bolo outro dia, acrescentando cada ingrediente e sem batedeira. Todos os dias, minha mais nova vem ‘me ajudar’ a esquentar o leite dela no fogão, não temos micro-ondas. O consumismo, a meu ver, cria uma falta de estímulos, de experiências. Claro que nos ajudam no cotidiano, mas tiram as sensações”, opina a mãe de Helena, 7, e Manu, 4.

Experiências alternativas

Para Mariana Maia, o mais importante é que Ana Laura, quando se engaja em atividades solidárias, tire suas próprias conclusões sobre o que presenciou. Na última semana, a menina esvaziou seu cofrinho para comprar brinquedos novos para crianças hospitalizadas. “Não ficamos dizendo: “ah, as crianças vão ficar felizes com a sua doação”, ou coisas do tipo, queremos que ela veja o que aconteceu e conclua algo sobre isso, é muito mais significativo”, conta a mãe, que montou uma horta em casa a pedido de Ana, que, aos 3 anos, quis cultivar em casa seus próprios tomates e gatinhos. “Mas os gatinhos eu não consegui”, diz a pequena, entre gargalhadas.

Também pensando em promover experiências autônomas para o filho João Vitor, de 5 anos e meio, Janaína Simplício largou o emprego em administração, tirou João da escola e caiu na estrada no último mês de março.”Queria que ele tivesse uma vivência diferente, que o olhar dele fosse além de seu quarto, seus brinquedos e sua escola nesta fase em que está desenvolvendo a personalidade”, explica Janaína, que já rodou com o filho por oito estados e mais de 20 cidades, conhecendo diferentes realidades e paisagens.

“Ele nunca se encaixou no modelo de socialização forçada que a escola propõe. Durante a viagem, tudo aconteceu de forma muito natural, conheceu crianças de contextos muito diversos e aprendeu sobre o país com seus próprios olhos. Já visitamos um quilombo, o cerrado, chapadas e vários outros elementos que ele verá de forma diferente quando estudá-los”, opina a mãe, que faz o trajeto majoritariamente por meio de caronas agendadas em grupos de educação alternativa no Facebook e busca hospedagens solidárias, também esquematizadas pela rede social. “Claro que, estando com uma criança, às vezes, por segurança, ficamos em pousadas e não pegamos caronas. Mas quero que ele entenda que não é necessariamente o dinheiro que propicia as experiências. Mesmo antes de viajarmos, construía brinquedos com ele, íamos juntos ao brechó comprar roupas e também para doar as que não serviam mais nele.”

Geração autônoma

Por conhecer o país com seus próprios olhinhos (aventura relatada no Facebook, na página “Olhar de João”), João Vitor vem se tornando uma criança cada vez mais independente e perspicaz. “Neste tempo, também acompanhamos muitas iniciativas de educação alternativa e de pertencimento em comunidades”, conta Janaína, destacando que seguiram uma caravana, passando por festivais sobre o meio ambiente entre o Rio de Janeiro e a Paraíba, e aprenderam sobre alimentação orgânica e vegetariana.

Na casa de Gabi Gonçalves, a autonomia de Helena e Manu começa no desempenho de pequenas tarefas para ajudar a mãe em casa e é tão grande que em momentos de descuido é a mãe que leva puxões de orelha ou ganha lições de cidadania. “De vez em quando, elas falam : ‘mãe, fecha a torneira’, ‘mãe, apaga a luz!”. Se me esqueço de agradecer quando param na faixa para atravessarmos, elas fazem sinal ao motorista. Sem dúvidas, elas têm esse senso de solidariedade e cidadania, no sentido social e ambiental, e fazem de mim uma pessoa muito melhor.”