Imagens musicais

Inspiradas em Man Ray e pela música, Lizandra (foto) e Maria Vitória expõem ‘Proposições fotográficas’
Um dos expoentes do movimento dadaísta e surrealista no século XX, o fotógrafo e pintor americano Man Ray tem entre seus trabalhos mais conhecidos a obra “Le violon d’Ingres”, de 1924, em que ele fotografou a artista Alice Prin (também conhecida como Kiki de Montparnasse) e, depois, retocou a fotografia incluindo – entre outros detalhes – o “f” (ou “ouvido”) que é a marca registrada dos instrumentos de arco, como o violino e o violoncelo, por onde sai o som produzido por meio deles. Foi nessa obra de quase um século de existência que as artistas Lizandra Romano e Maria Vitória Resende encontraram inspiração para a série de fotos que resultou na exposição “Proposições fotográficas”, que pode ser visitada até o próximo dia 25 no CCBM.
Primeira exposição da dupla, ela tomou corpo graças a um trabalho, no ano passado, no curso de artes visuais do IAD, onde cursam o último período. Segundo Lizandra, elas deveriam criar uma tela inspirada no trabalho de outro artista. Foi então que se deparou com a obra de Man Ray. “Ao invés de reproduzir o trabalho em pintura, sugeri a Maria Vitória fazermos uma fotografia em tela. O resultado com as fotos nos agradou tanto que apresentamos o projeto para o edital da Lei Murilo Mendes, e fomos aprovadas”, conta a fotógrafa. “Já conhecia o trabalho do Man Ray, acho interessante essa coisa de usar o corpo como instrumento e unir objetos comuns que, juntos, causam estranhamento.”
As primeiras fotos foram feitas ainda no primeiro semestre de 2014, tendo Maria Vitória como modelo, e uma nova sessão foi providenciada este ano. Os ensaios foram realizados no quarto da casa dela, contando apenas com a luz ambiente que vinha do exterior e vencia a cortina vermelha do cômodo, proporcionando a saturação em vermelho que é observada nas fotos. Nada de refletores, flash, lâmpadas comuns ou tratamentos posteriores, o que fez com que pelo menos uma sessão tivesse que ser repetida devido ao dia nublado da ocasião.
As fotografias impressas em tela mostram o corpo de Maria Vitória, com o “f” dos instrumentos pintado por Lizandra, tomando o lugar do violoncelo, provocando sensações de intimidade e erotismo permeados pelo anonimato da modelo, que nunca mostra o rosto e se deixa substituir pelas cabeças de manequins que aparecem em diversas fotos. São imagens em que Maria Vitória é a musicista de si mesma, “tocando” o seu corpo com o arco de um violoncelo, apenas exibindo-se ou admirando um varal de imagens na parede, eventualmente o torso retorcido ou curvado, permitindo ao expectador diversas reflexões sobre a proposta da dupla.
“Tentamos trazer a questão do íntimo, do aconchegante, ao realizar esses ensaios, além de representar o corpo como instrumento. Com o arco do violoncelo e as cabeças dos manequins, tivemos a intenção de trabalhar com a ideia do ilusório e do imaginário”, explica Lizandra, destacando que a repercussão entre o público tem sido satisfatória, com percepções que elas sequer imaginavam. “Algumas pessoas acharam intrigante, ou que trazia algum desconforto. Houve quem elogiasse a relação do nosso trabalho com yoga. Mas o interessante da arte é isso mesmo, levar a pessoa até algo ligado a ela.”
Com o fim de “Proposições fotográficas” no CCBM, Maria Vitória e Lizandra planejam levar a mostra a outras cidades e já combinaram de prosseguir a parceria com um novo projeto, que também deve estar ligado a música e fotografia – duas paixões de Lizandra, que aos 11 anos começou a tocar violoncelo e atualmente integra o quarteto de cordas Harmonia 4, a Orquestra Sinfônica Mário Vieira e faz parte do grupo de músicos que toca ao vivo a trilha sonora das peças do Grupo Teatral Quem Sou Eu.
PROPOSIÇÕES FOTOGRÁFICAS
De terça a sexta-feira, das 9h às 22h, sábados e domingos, das 10h às 16h. Até 25 de outubro
CCBM
(Avenida Getúlio
Vargas 200)









