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Teclados no lugar de lápis e canetas


Por MARISA LOURES

20/09/2015 às 07h00- Atualizada 21/09/2015 às 13h51

O saudoso Ariano Suassuna tinha o costume de escrever à mão por considerar desumanos os computadores. Era no sentir a ponta da caneta tocar o papel que nasciam suas criações. O que diria ele, hoje, sobre a possibilidade de os belos manuscritos desaparecerem de vez? A era digital faz imposições, e o mundo não faz resistência a elas. Causou e ainda causa rebuliço a notícia de que, a partir de 2016, a Finlândia vai trocar a caligrafia, na sala de aula, pelos teclados. Por aqui, onde muitas escolas públicas ainda lutam para ter, pelo menos, um computador sucateado e uma internet que anda a passos lentos, as mudanças são esperadas pelos estudiosos para um futuro bem distante, porém certo.

“As crianças de lá estão usando mais o tablet do que o próprio livro, mas sabemos que não podemos perder a habilidade do trabalho manual. Então, suprimos essa necessidade com livros de colorir”, explica a professora Jonna Leinonen, da University of Tampere, da Finlândia, que esteve em Juiz de Fora na última semana para participar do IX Seminário de Institutos, Colégios e Escolas de Aplicação, realizado no Colégio João XXIII. Para quem representa um país que atua na dianteira do ensino moderno, a transição é natural. Ela prefere ponderar ao ser indagada se é prematuro pensar em já eliminar a cursiva em países, como o Brasil, dada a realidade da educação básica daqui. Em 2013, o conjunto de orientações para o ensino nos Estados Unidos deixou de lado a obrigatoriedade de aulas de letra cursiva. Lá, cada estado legisla sobre o tema.

“Depende muito da cultura e de que conceito de ensino e aprendizagem está envolvido nesse país. No Brasil, há muitas provas e trabalhos escritos à mão. Os meninos são avaliados por nota, e o professor diz se ele é um bom ou mau aluno. Na Finlândia, o professor dá mais um Feedback, diz o que precisa melhorar e o que ele precisa continuar buscando. Por que vamos ficar treinando a caligrafia? Quando estiver no mercado de trabalho, um gerente de uma empresa não vai exigir da pessoa a palavra escrita”, defende a professora. De acordo com Jonna, com a medida, a Finlândia visa ainda à uniformização na sala de aula. “Os meninos se sentiam desmotivados porque a letra das meninas era mais bonita e caprichada”.

Facilidade e rapidez que seduzem

No dia a dia, a rapidez e a facilidade dos teclados nos seduzem. Prova disso é de que uma em cada três pessoas que participaram de uma pesquisa recente, realizada na Inglaterra, disse que não tinha escrito nada com lápis ou caneta nos seis meses anteriores. “Ninguém quer gastar dias e dias, anos e anos, fazendo letra cursiva. Não se trata de abolir a caligrafia, mas me deixa entediada demais ficar fazendo caligrafia. Gostava de escrever poema, novela, carta, mas tanto faz se é à mão ou à máquina. A mim, não me ensinaram a escrever, me ensinaram a copiar”, dispara Juana María Sancho Gil, professora da Universidade de Barcelona, na Espanha, também em Juiz de Fora para o mesmo seminário.

Aos que se opõem à mudança sob a justificativa de que a letra cursiva traz benefícios comprovados para a coordenação motora, Juana rebate com outros caminhos possíveis. “O esquema corporal se trabalha com dança, música, educação física, artes e não copiando repetidamente o que te deixa chateada”, sentencia ela, apontando para o fato de que a escrita à caneta é uma atividade nova para a humanidade. “O que se passava com aquela gente que viveu antes do século XIX? Muitos meninos, até mesmo hoje, não aprenderam a escrever, e eles não têm domínio corporal? Eles deviam ter mais domínio corporal do que quem fica copiando. Não creio na abolição da escrita, é como acontece com a comida. Há de se comer de tudo um pouco”, aposta a professora.

Autora dos livros “O fetiche tecnológico na educação” e “Do giz colorido ao data show”, a professora do Colégio João XXIII Lauriana Paiva sustenta que a criança precisa, primeiro, dominar a técnica do traçado para, depois, chegar aos teclados. “Com o uso constante dos computadores, esse movimento motor fino, que começa da esquerda para a direita, está sendo prejudicado, e só a escrita no papel nos traz isso. Sem ela, a criança não consegue avançar em questões preliminares da alfabetização”, observa ela, destacando que é necessário haver mais estudos para saber quais serão os impactos dessa era digital no ensino. “Acredito muito no trabalho que desenvolvemos com os alunos aqui no Brasil, e não dá para fazer comparações. Esse processo pode ser uma realidade para nós daqui a dez, 15, 20 anos.”

Resistência na arte

Bradam os artistas que a escrita cursiva resistirá. “A cursividade é um rastro pessoal que deixamos na vida”, assevera Jorge Arbach, que, em Juiz de Fora, um pedacinho do Brasil, não esconde ser um fiel amante da escrita tradicional, assim como a finlandesa Jonna. “Quem gosta da caligrafia como eu, vai continuar gostando. No futuro, as crianças de lá continuarão tendo interesse por ela, não no sentido de saber escrever. Será um outro domínio. Será uma concepção de escrita como arte, como história”, supõe a professora.

A despeito da evolução tecnológica, Arbach conserva o hábito de criar sujando as mão de tinta, pegando no bico de pena, usando o nanquim e o grafite. “Somente ao lidar com a matéria, o artista se reconhece como criatura”, reflete. “Esses mecanismos simulam emoções. Uma emoção forte requer um gesto forte, a largura, a cor e a textura do papel e a sombra precisam aparecer para ser verdadeiras”, diz Jorge, certo de que a escrita à mão vai encontrar seu lugar no mundo. “Ela está impregnada no ser humano”, completa ele.

Com a transferência do ato de escrever para os teclados, uma classe em particular acabou saindo ainda mais prejudicada. Já quase não existem os calígrafos, e sua obra não mais tem o reconhecimento de outros tempos. “Faço, praticamente, como um hobby, porque o computador consegue imitar a letra, e não tenho muito retorno financeiro. As pessoas não sabem, mas não uso caneta, uso o bico de pena, tinta importada, e cada linha demora uns bons minutos para ficar pronta”, explica a juiz-forana Valéria Garcia, que, fisgada pelo ofício, foi buscar formação fora da cidade. Ela sabe que é uma artista e, por isso, não perde o brilho nos olhos a cada encomenda que recebe para ser executada nos intervalos da clínica de cirurgia plástica em que atua como secretária. “Quando estou subscrevendo, esqueço da vida.”

Se a tendência é de que, das escolas, a cursiva será repelida, nos trabalhos artísticos, realmente, ela parece estar na moda. Em “Postal de domingo: em casa”, uma das das exposições do coletivo O Escambal, que esteve em cartaz no JF Foto 15, ela era a espinha dorsal. Diferentes fotógrafos brasileiros representaram fotograficamente um “Domingo em casa” para, em seguida, escrever uma mensagem de próprio punho para alguém. “Minha guria linda, hoje tá bom para deixar tudo para amanhã!!”, dizia um dos postais, assinado por Hans Georg. Ana Rodrigues, do coletivo, explica que, assim como o retrato, a letra é a digital de uma pessoa. “Ela diz muito sobre a gente, diferentemente do que acontece no teclado, pois nele a gente volta, apaga e escreve de novo. O que gostaríamos mesmo é que o fotógrafo nos mandasse a imagem pelos Correios e não por meio digital, porque ficaria registrada a força que ele fez no papel. Esse, sim, é o ideal.”