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Hannah Montana no Céu de Diamantes


Por JÚLIO BLACK

09/09/2015 às 07h00- Atualizada 09/09/2015 às 08h40

Quinto trabalho da cantora americana foge do pop convencional para confundir os fãs que acompanham a artista desde a adolescência (Divulgação)

Quinto trabalho da cantora americana foge do pop convencional para confundir os fãs que acompanham a artista desde a adolescência (Divulgação)

O universo da música pop e a indústria por trás dela são uma realidade repleta de histórias de artistas que não conseguiram aguentar o peso da fama. Para cada bem-resolvida Madonna, por exemplo, existe um Michael Jackson ou uma Britney Spears – e o ponto fora da curva chamado Miley Cyrus: surgida no início do milênio como produto pop digerível para a massa adolescente na série “Hannah Montana”, da Disney, ela poderia ter sucumbido ao peso da personagem e ter se tornado uma “Britney Spears 2.0”. A estrelinha pop aparecia em jornais, revistas e sites de fofocas em fotos comprometedoras com rapazes, moças e fumando algo que suspeitava-se ser a “erva natural que não pode te prejudicar” tão cantada anos atrás pelo Planet Hemp.

Mas a moça é esperta. Ao mesmo tempo em que gravava seus álbuns pop convencionais, ela mostrava que queria tomar de vez as rédeas da seu personalidade artística – o que pôde ser conferido na polêmica performance no VMA (Video Music Awards, da MTV) de 2013 e na turnê do álbum “Bangerz”, além da profusão de fotos em seu perfil no Instagram, em que fãs não sabem se apoiam ou rejeitam a nova vida de “Hannah Montana”. Para estes, a artista ainda tinha mais uma surpresa: o seu quinto álbum de estúdio, “Miley Cyrus & her dead petz”, lançado no dia 30 de agosto logo após ser a apresentadora da edição 2015 do VMA, com as letras mais confessionais de sua carreira e a escolha pelo experimentalismo musical, no que foi ajudada por Wayne Coyne e sua banda, o Flaming Lips.

Ao contrário de seus trabalhos anteriores, o novo álbum de Miley Cyrus foi disponibilizado para download gratuito e teve a autorização de sua atual gravadora, a RCA, para ser lançado pelo seu próprio selo, o Smiley Miley. É um trabalho incomum dentro da carreira da cantora, que entrega um álbum duplo e extenso (23 canções em 92 minutos) e com canções que não só flertam como mergulham fundo na psicodelia, no pop alternativo, space rock, experimentalismo e art pop.

O novo disco de Miley Cyrus é o melhor de sua carreira, a despeito do excesso de canções. Sem ter que se preocupar com as pressões da gravadora, a cantora pôde enfim desnudar-se perante seu público, cantando sobre todas as formas de amor que já experimentou, uso de drogas e a perda de seus bichos de estimação e entes queridos, mostrando suas inseguranças, dramas e outros sentimentos. Com participações especiais que incluem Big Sean, Ariel Pink e Sarah Barthel (do grupo Phantogram), “Miley Cyrus & her dead petz” lembra – e muito – os momentos mais viajantes do Flaming Lips, ouvidos em álbuns como “The soft bulletin”, “The terror” ou “Yoshimi battles Pink Robots”.

O encontro da cantora pop com os ensandecidos habitantes de Oklahoma City – com quem havia contribuindo cantando nas covers de “A day in the life” e “Lucy in the Sky with Diamonds”, dos Beatles – rende momentos como a faixa de abertura, “Dooo it!”, e a sequência “Karen don’t be sad”, “The Floyd song (Sunrise)” e “Something about space dude”. “Milky milky milk” e “Cyrus skies” seguem a mesma toada, com “Lighter” e “BB talk” sendo as mais “convencionais” do disco. “Bang me box” e “I sun” são quase dançantes, enquanto que “Pablow the blowfish” e “Twinkle song” são os momentos em que a cantora mais coloca a emoção para fora. Para quem sempre encontrou razões para torcer o nariz ao ouvir o nome da menina, o novo álbum de Miley Cyrus é a prova dos nove do que um artista pode fazer (de bom) quando se permite ser livre – a questão é saber se os fãs de longa data vão entender a proposta.