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Casas visíveis


Por MAURO MORAIS

20/08/2015 às 07h00

Desde a infância em casas de acolhimento: Projeto de Walmir de Mattos, 49, reúne alusões à Bíblia (Sergio Meirelles/Divulgação)

Desde a infância em casas de acolhimento: Projeto de Walmir de Mattos, 49, reúne alusões à Bíblia (Sergio Meirelles/Divulgação)

Casa produzida por Ana Lúcia Rodrigues, 23 anos, na rua desde 2011

Casa produzida por Ana Lúcia Rodrigues, 23 anos, na rua desde 2011

Protótipo feito por Carlos Machado, 37, há mais de cinco anos em situação de rua

Protótipo feito por Carlos Machado, 37, há mais de cinco anos em situação de rua

Não. Não era muito engraçada. Não tinha teto, também não tinha nada, e, ninguém queria entra nela, não. As casas, que não têm chão não ficam na Rua dos Bobos, mas por muitos cantos pelos quais passamos diariamente. Contudo, ainda mantêm-se invisíveis. Realizado pela Secretaria de Desenvolvimento Social da PJF, o livro “A casa é sua – Onde é a casa do morador de rua?” joga luzes sobre essas pessoas em situação de rua, revelando seus sonhos e a constante perspectiva de construir lares com paredes e afetos. O título tem lançamento nesta quinta, às 11h, no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas.

“Até pouco tempo, eu vivia numa casa normal, tinha conforto. Morava num apartamento com minha irmã, ela é muito legal pra mim. Saí porque me envolvi com drogas pesadas e isso trouxe tristezas pra ela. Eu trabalhava e até ganhava bem, mas gastava tudo com drogas e colegas. Decidi ficar nas ruas quando eu saí de um serviço e recebi uma fortuna. Fiquei curtindo a vida, mas o dinheiro acabou. Acho que devo satisfações à minha irmã, estou com a consciência pesada. O sonho dela, e que será o meu daqui pra frente, é que eu volte a ter uma vida normal, com casa, trabalho honesto e família”, conta José Duarte, 29 anos, em um dos depoimentos para a obra.

Ao lado de suas palavras, José expõe a pequena casa construída em papelão, com três andares e muitas cores. Um sonho, como o de Sebastião da Silva, que em sua fala revela a complexidade do movimento que é retornar à vida fora das ruas. “Gosto de ter casa, família, só que optei pelo álcool e pelas drogas. Sei que está errado, mas não consigo parar. Minha mãe já está idosa e sofre muito por me ver assim. Vou dedicar a construção desta casa para ela. Me arrependo do que fiz, sonho em voltar para a casa da minha família. Estou tentando mudar pra melhor, mas é muito difícil”, diz o homem de 42 anos.

Pessoas com direitos

De acordo com o secretário de Desenvolvimento Social Flávio Cheker, a atividade de construção das casas chama atenção, pelas vias da arte, para uma realidade com a qual é urgente saber conviver e lidar. “Todas as pessoas têm um desejo de saírem dessa situação. Essa perspectiva da casa é uma vivência diária. Se não humanizarmos nosso olhar e não enxergarmos nessas pessoas seres humanos, contribuímos para que isso continue a acontecer e, ainda, se amplie. O grande desafio é fazer com que a pessoa em situação de rua se perceba um cidadão. E não pode ser algo imposto, mas, indicando o acesso aos serviços públicos, é um direito.”

Resultado de um trabalho desenvolvido pela Casa da Cidadania (Alameda Ilva Mello Reis 6.001 – Santo Antônio) e pelo Centro Pop (Rua Professor Oswaldo Veloso 190 – Centro), a construção de pequenos protótipos de casa, que ganhou exposição em 2014, demonstra a força da poética em meio a vivências muitas vezes cruéis. “A situação de rua hoje pode se apresentar para qualquer pessoa. Antes havia a ideia de que só atingia pessoas de baixa renda, usuários de álcool e drogas. Agora, vemos empresários, jovens de famílias abastadas, profissionais formados, todos na rua. Essas pessoas chegam a tal situação por irem, pouco a pouco, liquidando seus laços afeitos, sociais e com o trabalho. Esse é um processo muito doloroso e que toma a pessoa de assalto”, explica Cheker.

“O processo de saída da rua não é linear e precisa ser feito com absoluto respeito à autodeterminação dessas pessoas. É um processo difícil, porém, possível. A rua é o lar delas diante da diluição de tantos laços, e isso precisa ser respeitado. O papel do Poder Público e da sociedade é ser parceiros na reconstrução dos laços, para que essas pessoas voltem às casas que um dia perderam”, pontua o secretário, citando a importância em conferir visibilidade aos discursos que se fazem nessas margens. “Essas pessoas são invisíveis, porque no dia a dia nos recusamos a vê-las, ou nos habituamos a vê-las como estorvo. É fundamental ter a humanização do olhar da sociedade”, conclui.

“A CASA É SUA – ONDE É A CASA DO MORADOR DE RUA?”

Lançamento de livro nesta quinta, às 11h

Centro Cultural Bernardo Mascarenhas

(Av. Getúlio Vargas 200 – Centro)