Virada de Lula nas eleições de 2026 expõe desafios da comunicação das esquerdas, avaliam especialistas
Da atuação de André Janones à mobilização nas ruas, especialistas analisam as mudanças na campanha de Lula e os desafios para os próximos anos

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Entre o primeiro e o segundo turno das eleições de 2026, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) passou de 53.879.538 votos (45,16% dos válidos) para 64.256.232 (51,79%). O crescimento de mais de 10 milhões de votos levou à reeleição o presidente, que havia terminado a primeira votação atrás de Flávio Bolsonaro (PL). Nas três semanas entre os turnos, também mudou a maneira como sua campanha se comunicava. Novos rostos ganharam espaço, os vídeos se tornaram mais diretos e a mobilização nas redes passou a incentivar a participação nas ruas.
A mudança não explica, sozinha, a virada eleitoral, mas levantou uma discussão sobre a comunicação das esquerdas, conforme ouvido pela Tribuna de Minas durante entrevistas com a jornalista e professora na Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), Najla Passos, e o estrategista de comunicação progressista, Gabriel Galvão. Eles observam que a campanha mostrou capacidade de reação, embora dificuldades antigas ainda limitem o diálogo com parte dos eleitores.
Das redes para as ruas
Uma das mudanças destacadas por Najla foi a aproximação de Lula com comunicadores mais jovens, como a deputada federal eleita Ana Elisa (PT-MG) e o deputado federal eleito Jones Manoel (PSOL-PE), e a adoção de uma linguagem menos formal. A professora vê como símbolo dessa nova fase os vídeos em que o presidente segura o próprio celular e fala diretamente para a câmera. Para ela, a campanha deixou de depender tanto de formatos tradicionais e passou a se adaptar à comunicação pessoal e rápida que predomina nas redes sociais.

A atuação do deputado federal reeleito André Janones (Rede-MG) também aparece nas análises dos dois entrevistados. O chamado “Exército do Lula”, comandado pelo parlamentar no WhatsApp e formado para ampliar a circulação de conteúdos e mobilizar apoiadores na internet, é apontado por Najla como exemplo da rapidez com que a militância passou a se organizar. Gabriel destaca outro aspecto: na avaliação dele, Janones conseguiu usar uma linguagem próxima do público e transformar a movimentação digital em incentivo para que as pessoas conversassem sobre a eleição fora das plataformas.
“Eu não acho que a campanha do Lula foi vitoriosa por conta das redes sociais. Eu acho que a rede social foi importante porque mobilizou as pessoas para a rua”, pondera Gabriel. Para o estrategista, os compartilhamentos ajudaram a espalhar mensagens, mas o contato nas casas, nas escolas e nos pontos de ônibus também teve peso. A internet, em sua visão, foi um caminho para fortalecer o boca a boca, e não um substituto para ele.
Najla concorda com a importância da mobilização presencial e acrescenta que o segundo turno aproximou diferentes gerações: enquanto os jovens contribuíram com o conhecimento das plataformas digitais, militantes mais experientes ajudaram a organizar ações nas ruas.
O limite da velha fórmula
Apesar da mudança no segundo turno, Najla considera que a comunicação das esquerdas enfrenta um problema ligado à forma como partidos, sindicatos e movimentos sociais se organizam. Segundo ela, essas organizações costumam tomar decisões de maneira coletiva, enquanto as redes favorecem mensagens rápidas, publicadas por uma pessoa identificável. Quando muitas pessoas precisam aprovar uma resposta, a oportunidade de participar de um debate pode passar. O resultado, avalia Najla, é uma comunicação que frequentemente reage aos ataques dos adversários em vez de apresentar suas próprias ideias.
Para mudar esse cenário, a professora defende mais autonomia para porta-vozes e equipes de comunicação. Isso não significa abandonar as decisões coletivas, mas reduzir a demora na divulgação de mensagens em um ambiente no qual os assuntos mudam rapidamente.
“Não dá pra ficar 30 pessoas fiscalizando como é que é o vídeo, aprovando. Tem que ser rápido, tem que entrar na mesma hora”, afirma. A campanha de 2026, segundo Najla, mostrou que abrir espaço para novos comunicadores pode ajudar nesse processo.
Gabriel identifica uma dificuldade diferente, mas relacionada ao mesmo problema. Para ele, as esquerdas nem sempre conseguem falar de forma simples com quem não acompanha a política de perto. O estrategista critica o uso de termos pouco conhecidos, o “tom professoral” e as disputas internas sobre quem representa melhor determinadas posições. Em sua avaliação, esse comportamento faz com que parte da comunicação se volte aos próprios apoiadores e deixe de alcançar pessoas com outras opiniões.
Além da própria bolha
Na visão de Gabriel, mobilizar quem já apoia um candidato e convencer alguém que ainda está indeciso são tarefas distintas. Uma liderança pode ser importante para levar a militância às ruas, mas não necessariamente para dialogar com pessoas de outros campos políticos. O especialista avalia que, no segundo turno, a campanha abriu mais espaço para discursos capazes de reunir eleitores com diferenças ideológicas, mas que compartilhavam a oposição ao bolsonarismo.
“Fazer política é, na sua essência, conversar com quem pensa diferente”, relembra Gabriel. Segundo ele, esse diálogo também exige atenção aos problemas cotidianos, como o preço dos alimentos e o poder de compra. Em vez de falar somente com a própria base, os partidos precisam explicar de que maneira suas propostas podem afetar a vida de quem ainda não decidiu o voto.
Najla acrescenta que essa aproximação não pode acontecer apenas nas semanas anteriores à eleição. A jornalista defende uma comunicação permanente, capaz de apresentar projetos, prestar contas e manter o contato com a população mesmo fora das campanhas. Ela também considera necessário buscar formas próprias de atuar nas plataformas, sem recorrer à divulgação de informações falsas ou ao discurso de ódio para conseguir atenção.
Gabriel, por sua vez, vê uma contradição no cenário que se abriu após a eleição: como profissional, acredita que as redes oferecem oportunidades para novas lideranças e para uma comunicação mais ativa. Mas, enquanto cidadão, teme que a política se transforme em uma disputa contínua por vídeos de confronto, enquanto os problemas da população ficam em segundo plano. Para ele, a atenção conquistada na internet precisa ser acompanhada da disposição para ouvir quem pensa diferente.
Para Najla, uma das principais lições de 2026 está justamente na combinação de diferentes formas de participação. A vitória não elimina as dificuldades de comunicação, mas mostrou o que pode acontecer quando experiência e renovação trabalham juntas.
“Os mais velhos aprenderam com os mais novos a ir pras redes e os mais novos aprenderam com os mais velhos a ir pras ruas”, resume a professora.
*Estagiário sob supervisão do editor Arthur Raposo Gomes.









