‘Minha maior vitória é ver um aluno superando dificuldades’, diz multiatleta juiz-forano, Linus Pauling
Em entrevista ao Dá Jogo, professor de judô, jiu-jitsu, boxe, rapel e xadrez falou sobre conquistas, projetos sociais, inclusão e a falta de apoio ao esporte em Juiz de Fora

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Adicionar Tribuna de MinasMulticampeão de judô e jiu-jitsu, professor de Educação Física, História e Geografia e praticante de modalidades que vão do boxe e xadrez ao rapel, o juiz-forano Linus Pauling foi o entrevistado desta quarta-feira (4) do programa Dá Jogo, transmitido ao vivo no YouTube da Tribuna. O educador, que também desenvolve projetos sociais e de inclusão por meio do esporte, acaba de realizar a segunda edição do Rainha e Rei do Ringue, evento que reuniu praticantes de artes marciais em Juiz de Fora e que pretende ampliar para outras modalidades nos próximos anos.
Durante a conversa, Linus falou sobre a trajetória que começou nas salas de aula e se estendeu às artes marciais após decidir parar de fumar, além de relembrar conquistas em competições nacionais e internacionais de judô e jiu-jitsu. O professor também compartilhou histórias de alunos que enfrentaram dificuldades pessoais e encontraram no esporte uma forma de superação, abordou o trabalho de inclusão de pessoas com deficiência e autismo e criticou a burocracia e a falta de patrocínio para projetos esportivos em Juiz de Fora. Ele ainda contou como concilia diferentes profissões, destacou a importância do esporte na formação emocional dos alunos e revelou planos de trazer o wrestling para a cidade.
Confira a entrevista, na íntegra:
Tribuna de Minas: Para o pessoal que ainda não te conhece muito, queria que você falasse um pouco sobre sua trajetória, suas formações, como o esporte entrou na sua vida, quais modalidades você ensina e de quais projetos participa atualmente.
Linus Pauling: É muito bacana essa história, porque comecei como professor de História, Geografia e Estudos Sociais, em 1999. Naquela época, trabalhava só dando aulas.
Tribuna: Você tinha quantos anos?
Linus: Estava com uns 27 anos. Era uma época em que havia uma valorização do cigarro, e foi quando parei de fumar. Já dava aulas em várias escolas de Juiz de Fora e de outras cidades. Na época, começaram a aparecer as transmissões do UFC na televisão, nos canais fechados. Quando conheci aquilo, pensei: “Preciso fazer alguma luta, porque parei de fumar e preciso desenvolver uma atividade física”. Foi quando entrei para o jiu-jitsu. Comecei pelo jiu-jitsu, porque até então era só da área de humanas. Depois quis me aperfeiçoar e fui para a Educação Física, para entender melhor a modalidade. Com isso, foram surgindo outras modalidades e comecei a desenvolvê-las também, enquanto continuava minha carreira na área de humanas, com as pós-graduações. Hoje também trabalho com rapel, trekking e atividades relacionadas ao meio ambiente. Isso veio por influência da minha esposa, que gosta muito dessas atividades e me estimulou. Para termos esses momentos juntos, fui me aperfeiçoando e me formei nessa área também. Agora, neste ano, estou me formando como treinador de wrestling. Vou ser o primeiro professor de Juiz de Fora com essa certificação oficial. Estou fazendo o curso em Niterói, pela federação do Rio de Janeiro, e volto em novembro para terminar a parte teórica e prática. Quero trazer para Juiz de Fora o wrestling oficial, com formação pela federação.
Tribuna: Acho interessante como uma área vai levando você a outra. Primeiro, o interesse científico, depois a descoberta de um esporte, o aprofundamento nele e o contato com outras modalidades. Você trabalha com atividades muito diferentes, como lutas, xadrez e rapel. O que chama sua atenção em cada uma delas? Como esses conhecimentos acabam se complementando, inclusive na sua atuação como professor?
Linus: Eu sempre carreguei alguns estereótipos. Na década de 1990, quando estava na área de humanas, olhava para o jiu-jitsu e pensava: “Isso é um absurdo, não é esporte de gente civilizada, essa coisa de ficar agarrando, de ir para a rua brigar. Que povo violento”. Depois comecei a entender e perceber que, dentro do esporte, existem pessoas de outras áreas que estão ali para extravasar, mudar a cabeça e ter experiências diferentes. As modalidades parecem muito diferentes, mas uma vai trazendo complementos para a outra, inclusive para a didática. Às vezes, aprendo algo em uma modalidade e levo para outra. Fiz um curso na Federação de Boxe do Rio de Janeiro e pensei: “Caraca, isso é bacana”. Trouxe aquilo para minhas aulas de jiu-jitsu. Também aproveitei conhecimentos de fisiologia adquiridos em um curso da Federação Mineira de Boxe para minhas aulas de judô. São modalidades que têm seus pontos divergentes, mas conseguimos aproveitar conhecimentos de uma na outra. É como acontece com vocês no jornalismo. O Davi tem destaque na escrita, está buscando conhecimentos em publicidade, tem um projeto de marketing e está no podcast. Vamos procurando novos desafios e isso nos estimula a continuar aprendendo.
Tribuna: Você organizou recentemente a segunda edição do Rainha e Rei do Ringue e trouxe até uma medalha do evento para mostrar. Onde ele foi realizado, quantos atletas participaram, quais modalidades estiveram presentes e qual é a importância dessa iniciativa tanto para quem está começando quanto para quem busca uma experiência competitiva?

Linus: Para explicar esse evento, é importante voltar ao do ano passado. O Davi estava lá e não me deixa mentir. Fizemos a primeira edição na cobertura da casa do meu sócio, Alex Sobreira. Era um espaço pequeno, apertado, tivemos algumas lutas e uma estrutura bastante limitada. Adaptamos uma lanchonete, o lugar ficou cheio e foi bacana. Para este ano, eu e o Alex conseguimos uma parceria com a ADPM, a Associação Desportiva da Polícia Militar, que cedeu um espaço muito maior, sem cobrar nada. Foi uma oportunidade muito boa. A partir daí, começamos a pensar em ampliar o evento para outras modalidades, fortalecer o trabalho de inclusão e, futuramente, transformar a iniciativa também em uma feira de empreendedorismo. Queremos que nossos alunos possam colocar estandes durante o evento para divulgar seus trabalhos e vender seus produtos. Neste ano também tivemos uma parceria com a Calamity, que levou vários jogos de tabuleiro criados, pensados e fabricados em Juiz de Fora. São jogos vendidos para o mundo inteiro, na Europa e nos Estados Unidos, e muitas pessoas da própria cidade nem sabem que existem. Levamos também jogos de xadrez. Não houve competição de xadrez neste ano, foi mais uma oportunidade para apresentar a modalidade ao público, mas queremos ampliar essa participação nas próximas edições. Temos ainda uma parceira do Viver o Autismo, que quero trazer para o evento do ano que vem, para trabalhar a questão da inclusão. Até o nome do evento mudou por causa dessa preocupação. Quando estávamos divulgando a edição deste ano, uma parceira minha do Rio de Janeiro, a faixa-preta Luciana Neder, que lidera a Comissão dos Direitos das Mulheres no Jiu-Jitsu, me mandou uma mensagem perguntando: “Podia ter rainha também, né?”. Em vez de tentar justificar e acabar sendo machista, pensei que ela estava certa. Pedi desculpas, mudamos o nome e mandamos para ela. Temos a mania de querer nos defender quando alguém aponta um erro e, às vezes, só pioramos a situação. É importante aceitar o erro e tentar melhorar, porque sempre vamos cometer alguns erros enquanto buscamos acertar e evoluir.
Tribuna: A expectativa inicial era reunir cerca de 70 atletas em 34 lutas. O evento alcançou esses números?
Linus: Passamos a quantidade de lutas, porque também fizemos um trabalho social. Tivemos várias lutas que inicialmente não estavam contabilizadas, com alunos que não tinham condições de pagar a inscrição e puderam participar. Esse não é um evento feito para lucrar. O objetivo é proporcionar aos nossos alunos uma experiência parecida com uma competição. Por isso trabalhamos com a competição pedagógica, administrando o tempo todo a intensidade e o nível dos participantes. Eu não queria que nenhum aluno saísse de lá machucado. Queria que entrasse, participasse, se sentisse feliz e depois procurasse as fotos do evento. E vou falar uma coisa: as fotos ficaram em um nível muito alto. Para o ano que vem, já estamos organizando uma luta entre o Davi e o Yan (fotógrafo). Vamos casar essa luta.
Tribuna: Você atua há muitos anos com diferentes esportes e acompanha a evolução de vários alunos. Existe alguma história de alguém que tenha mudado de vida por meio do esporte e que tenha marcado especialmente você?
Linus: Tenho uma história recente, da Flávia, que trabalha com vendas, mas tem uma fobia de pessoas. No ano passado, ela não participou do evento. Estava muito nervosa, me deu uma desculpa para não participar e, inicialmente, eu poderia pensar que ela estava com medo de apanhar. Mas o problema era outro. Neste ano, ela foi. Conversei com ela e falei: “O evento está sendo organizado por mim. Então, se você sentir alguma coisa, na hora a gente vai parar, vou deixar você respirar e depois você volta a lutar”. Como falei, o objetivo não era ganhar ou perder da outra pessoa. Ela estava entrando na competição para lutar contra ela mesma, para superar os próprios medos. É claro que existe o ego de querer vencer o adversário, mas vencer a si mesmo é o mais importante. Também tenho outros casos de alunos que enfrentaram dificuldades, pessoas que passaram por momentos de depressão muito intensa e até tiveram pensamentos de fazer algo contra si mesmas. Elas encontraram no esporte uma forma de enfrentar essa fase. São muitos casos que acompanhamos e que fazem uma diferença enorme. Ficamos muito felizes com isso.
Tribuna: Você mencionou a parceria com o Viver o Autismo, que é uma mãe atípica e pedagoga, que te agradece por incluir atletas atípicos nos espaços de luta. Em 2021, uma reportagem da Tribuna mostrou que você e sua aluna Marcelina do Nascimento conquistaram medalhas no Rio Challenge de parajiu-jitsu. Na ocasião, você também participou de uma luta de apresentação com Jonathan Pitbull, atleta com síndrome de Down. Como é seu trabalho de inclusão de pessoas com deficiência e neurodivergentes? Quais adaptações são necessárias e que avanços você percebe nessa área?
Linus: A primeira reportagem foi com o Bruno Kaehler. Inclusive, trouxe essa medalha para ele, porque tenho uma gratidão e um respeito enormes pelo Bruno. É um cara fora da curva. E olha que sou chato, vivo mandando mensagem, mas ele tem uma paciência enorme. Às vezes fala: “Linus, hoje não vai dar”, mas depois retorna. Tenho uma admiração muito grande por ele. Em 2016, quando ele ainda era repórter, também fez uma reportagem nossa na Tribuna. Eu estava em uma competição de natação, porque tinha sido convocado como técnico da Seleção de Minas Gerais para os Jogos Escolares, e um aluno daqui da cidade também havia sido convocado para participar dos jogos em São Paulo. Naquela época, eu não era o professor de natação dele, mas era professor na escola. A escola estimulava essa capacitação e o trabalho com as minorias. Acho que precisamos respeitar e valorizar isso. Não é meu lugar de fala, mas é meu lugar de ouvir e lutar pelos direitos das pessoas. Assim como na questão das mulheres, das pessoas negras, dos homossexuais, precisamos saber respeitar, ouvir e entender. Com o autismo é a mesma coisa. Falamos de integração e inclusão, mas são coisas diferentes. Incluir a pessoa autista não é simplesmente colocá-la no nosso mundo, é a gente entrar no mundo dela. As pessoas acham que precisam colocar a pessoa no nosso formato, mas não é assim. O mesmo vale para as pessoas surdas, por exemplo, e para o trabalho da Associação dos Surdos. Inclusive, (Linus faz sinais em Libras para a câmera).
Tribuna: Já vi conteúdos no seu Instagram ensinando sinais relacionados ao xadrez em Libras. Você também desenvolve atividades com a comunidade surda?
Linus: Já fizemos um bate-papo aqui com a Associação dos Surdos de Juiz de Fora. Também participei de uma conversa com eles quando fui treinador de futebol da associação.
Tribuna: E o que você acabou de dizer em Libras?
Linus: Mandei um abraço para a Associação dos Surdos de Juiz de Fora e dei os parabéns a eles.
Tribuna: Você já está envolvido com diferentes modalidades há muitos anos, mas continua buscando novas formações e projetos. Como imagina seu futuro? Pretende aprender outras modalidades, ampliar suas atividades em Juiz de Fora ou desenvolver novos projetos nos próximos dez anos?
Linus: Além de tudo isso, sou professor efetivo do Estado do Rio de Janeiro. Já teve época em que, numa sexta-feira, por exemplo, dava personal em Juiz de Fora pela manhã, à tarde estava em Paraíba do Sul, dando aula de História, e à noite estava em Santana do Deserto, com o projeto social. Trabalhava em três cidades no mesmo dia. Como sou efetivo e tenho vários outros trabalhos, preciso conciliar tudo. Infelizmente, no esporte acontece algo parecido com o que vocês já mostraram em reportagens sobre a música. Principalmente em Juiz de Fora, quem trabalha com esporte precisa exercer outra atividade para se manter. Ainda não temos condições de viver exclusivamente do esporte. Então precisamos buscar outros meios. Gosto muito das outras profissões, mas não tem como viver só do esporte hoje. A visibilidade que vocês proporcionam também é importante. Além da parte de denúncia e incentivo, quando alguém do esporte aparece aqui, surge uma oportunidade de conseguir patrocínio, algo muito difícil em Juiz de Fora. E meu objetivo dentro do esporte também é criar novos líderes. Em Santana do Deserto, por exemplo, meu braço direito é o Giannini. Às vezes não consigo ir, mas ele está lá. No jiu-jitsu, tenho o Thiago Melo comigo. Quando não posso estar presente, ele assume. No boxe, tenho o Alex Sobreira, que é o principal responsável. Sou o segundo, porque ele tem mais experiência e aprendo com ele. Também tenho a Cássia no rapel e no judô. Ver outras pessoas crescendo e tendo oportunidades me deixa feliz. Esse é meu maior objetivo com o esporte: fazer outras pessoas crescerem, terem oportunidades, não apenas os atletas, mas também profissionais de outras áreas que trabalham com esporte. O Yan, por exemplo, trabalha com esporte, mas não é atleta. É quem faz as fotos e deixa tudo bacana.
Tribuna: Em fevereiro de 2022, você já havia falado à Tribuna sobre as dificuldades para conseguir patrocínio em Juiz de Fora e os custos de disputar competições, especialmente no Rio de Janeiro. Quase cinco anos depois, essa realidade continua a mesma?
Linus: É muito difícil, porque você bate à porta de um, bate à porta de outro. Às vezes a pessoa fala que vai ajudar e, quando ajuda, considera aquilo um favor, e não uma relação profissional, como deveria ser. Mas não posso ser ingrato. Tem muita gente que faz a diferença. A Associação Desportiva da Polícia Militar está nos ajudando, temos a Proteg, que também nos apoia de vez em quando. Tivemos ainda a parceria com uma empresa de fotografia esportiva. Não conseguimos trazer apoio financeiro, mas eles fizeram um preço muito mais acessível para as fotos. Então encontramos muita gente no caminho que faz a diferença. É importante valorizar essas pessoas. Às vezes acabamos generalizando e falando que ninguém ajuda, mas existem pessoas que contribuem como podem.
Tribuna: E quanto ao poder público? Como você avalia o apoio oferecido aos projetos esportivos?
Linus: Existe uma burocracia muito grande. Merece destaque a Kátia Franco, que costumo chamar de madrinha das artes marciais. Foi por meio de um projeto de lei dela que surgiu a Semana de Artes Marciais. Fiquei até triste de ver algumas reportagens em que o nome dela não foi citado como responsável pela criação. Acho importante valorizar esse mérito. Ela também trabalha com questões relacionadas ao autismo e vem apoiando outras iniciativas. Mas ainda existe uma burocracia muito grande para conseguir esse apoio. Você precisa saber como chegar até lá, montar uma associação, reunir um grupo de pessoas, saber o que precisa estar escrito no projeto, ter um advogado. Vai batendo à porta de um e de outro, aí está alguma coisa errada e precisa voltar. Estou tentando montar uma associação há dois anos e ainda não conseguimos. Por isso, tudo o que fazemos é separado. Dá um trabalho enorme. Às vezes uma empresa grande aceita apoiar, mas exige que a associação já tenha um ou dois anos de atuação, por exemplo.
Tribuna: O poder público também poderia ajudar a simplificar ou orientar esses processos burocráticos?
Linus: Sim, mas também entendo que existe uma preocupação com a corrupção. Quem está no poder público quer se resguardar, saber para quem está destinando recursos e conseguir justificar esse apoio. Só que é muito trabalhoso. Acho que deveriam existir cursos oferecidos pelo próprio poder público para ensinar as pessoas a organizar projetos e associações. Organizar campeonatos é importante, mas existem muitas outras coisas que fazem diferença. Participei da primeira Semana de Artes Marciais, quando a iniciativa estava começando e as pessoas ainda não sabiam muito bem como trabalhar com as modalidades. Me ligaram, fui indicando nomes e participei. Mas poderíamos aproveitar essas iniciativas para criar uma carteira de treinadores da cidade, por exemplo, para ajudar na validação profissional. Existe uma discussão sobre a relação das lutas e da dança com a Educação Física e a atuação do Conselho Regional de Educação Física. Hoje, em determinadas situações, qualquer pessoa pode começar a dar aula de luta ou dança. Existe uma polêmica entre os profissionais de artes marciais e o conselho. Mas quem está dando aula para essas crianças? Às vezes é alguém que não tem conhecimento de anatomia, que apenas praticou a modalidade por muitos anos ou nem isso. Conheço professores de boxe que conquistaram a faixa-preta de kickboxing e começaram a dar aula de boxe. Acho que o poder público, por exemplo, a Prefeitura, deveria oferecer cursos de fisiologia, didática e psicologia para essas pessoas.
Tribuna: Você já falou sobre a formação em wrestling e sobre a intenção de ampliar o Rainha e Rei do Ringue. Quais são os próximos eventos e projetos que está planejando para 2027? Existe alguma novidade que pretende trazer para Juiz de Fora?
Linus: Além dessa carreira de produtor e promotor de eventos, queremos fazer o Rainha e Rei do Ringue crescer. A ideia é ampliar o projeto e trazer mais modalidades, inclusive aquelas que não dominamos. Queremos convidar pessoas que conhecem essas modalidades para participar e desenvolver as atividades. Também continuo com minha profissão de treinador. Tenho uma equipe junto com o Alex. Neste ano, tivemos vários campeões mineiros de boxe, participamos do campeonato e trouxemos várias medalhas. Ao mesmo tempo, estamos disputando o Campeonato Mineiro de Jiu-Jitsu e dominando o ranking em várias categorias. Queremos ampliar isso no ano que vem e voltar a competir no Rio de Janeiro. No judô, disputamos o Sul-Mineiro e queremos levar mais atletas. Também queremos estimular mais pessoas a praticar xadrez e começar a participar de campeonatos de wrestling, tanto na luta greco-romana quanto na luta livre esportiva.
Tribuna: Para as pessoas que estão acompanhando e querem começar a praticar alguma dessas modalidades, como judô, jiu-jitsu ou rapel, como podem entrar em contato com você? E quem não tem condições financeiras também pode participar dos projetos?
Linus: Sim. Inclusive, quem não tem condições pode nos procurar, porque damos um jeito de incluir essas pessoas. Temos esse trabalho social. Podem entrar em contato pelas redes sociais, pelo Instagram (@linus_pauling) ou pelo WhatsApp. Inclusive, vamos divulgar uma oportunidade para o próximo rapel que organizarmos. Com a produção do podcast de vocês, os cinco primeiros que conseguirem entrar em contato, seja por telefone ou procurando vocês aqui, vão ganhar uma descida de rapel. Vamos liberar cinco descidas para a galera que procurar vocês. É só para quem está assistindo ao programa. Depois, é só entrar em contato para garantir. E, para as lutas, quem entrar em contato com vocês também vai ganhar um mês de treinamento na Academia do Boxe, na Corpo e Companhia, em São Mateus. Um mês para a galera treinar. Já estamos entrando na Black Friday, então vamos colocar essa promoção junto com vocês.
Tribuna: E nessa levada de ofertar saúde, de buscar pessoas pra que elas comecem a praticar algum exercício físico, duas coisas que você citou agora, que eu achei muito interessantes foram de você buscar o esporte pra largar o tabagismo, que com certeza é uma coisa extremamente difícil. Também contou histórias de alunos que enfrentavam períodos de depressão, situação também por vezes até mesmo inacapacitante, e encontraram na atividade física uma forma de lidar com suas dificuldades. Como foi seu processo de abandonar o cigarro, mudar os hábitos e transformar o esporte em profissão? E como percebe essas mudanças na vida das pessoas que atende?
Linus: Vocês têm patrocinador de refrigerante? Porque também parei de tomar refrigerante. Vai que vocês têm patrocinador de refrigerante e precisam me expulsar do podcast. Mas também larguei o refrigerante, que era uma coisa que precisava abandonar. E aí entra a parte da luta, que faz toda a diferença. Quero deixar uma coisa muito registrada: não existe uma modalidade melhor do que a outra. Isso é muito importante. Nem nas lutas existe uma luta melhor do que a outra. Existe aquela em que você entra, experimenta e gosta. Essa vai ser a melhor e a mais importante para você. Então, entre para uma modalidade esportiva, para uma luta, porque vai aprender a lidar, durante o dia a dia, com seus medos, traumas e dificuldades. As lutas trabalham muito a autoconfiança. No nosso dia a dia, temos que lidar com pressão. Às vezes, um aluno participa de um treino ou de uma competição pedagógica, recebe golpes e precisa lidar com o próprio ego, entender que nem sempre o que ele fala é o mais importante, que precisa obedecer e acatar orientações. Temos isso no dia a dia. Quantas vezes você tem um chefe falando no seu ouvido e precisa saber escutar? Ou é dono de uma empresa e tem um cliente fazendo cobranças, e precisa saber lidar com isso. A luta estimula muito o desenvolvimento das inteligências múltiplas, nesse caso, a inteligência interpessoal e a intrapessoal. A interpessoal é a relação com o outro, saber lidar com as pessoas. Às vezes, a raiva do outro não é contra você. A pessoa está te xingando, mas tem um problema dela e você precisa saber lidar com isso. Já a intrapessoal é saber lidar com suas emoções e sentimentos, sem transferi-los para o outro.
Tribuna: Queria aproveitar para destacar sua trajetória nas competições. Você foi campeão mineiro de judô em 2021, vencendo um adversário 15 centímetros mais alto e quatro quilos mais pesado, apenas duas semanas depois de uma cirurgia de adenoide e desvio de septo. Também conquistou o Mundial de Jiu-Jitsu da Confederação Brasileira de Jiu-Jitsu Olímpico, em 2022, e medalhas de ouro e prata no Mundial de 2023 da Federação Sul-Americana de Jiu-Jitsu Desportivo. Em 2018, conquistou o bronze no Rio BJJ Pro, apenas seis meses depois de uma fratura no tornozelo, quando ainda estava com dez parafusos e uma placa. Como foi enfrentar competições dessa dimensão e superar tantas dificuldades físicas e técnicas? Entre todas essas conquistas, existe alguma que tenha sido mais emocionante ou tenha um significado especial para você?
Linus: Realmente, esse trabalho de superação é muito importante. No Campeonato Mineiro de Judô, ainda estávamos voltando da pandemia. Tive que fazer aqueles testes de Covid, fui sozinho para a competição. Na outra, em que fraturei o tornozelo durante uma luta, foi uma fratura bimaleolar. Voltei depois de seis meses e consegui ganhar o bronze. Também foi uma conquista importante. Mas a minha maior vitória é quando vejo um aluno superando as próprias dificuldades. Nada que acontece comigo é tão importante quanto ver meus alunos evoluindo ou meus amigos fazendo networking. Nesse último evento, por exemplo, apresentei o Yan para o pessoal de um podcast do Rio de Janeiro. Também apresentei pessoas do jornalismo independente, que fazem perfis na internet, para outras pessoas. Gosto de fazer esse networking e ver todo mundo crescendo. Quando apareço em uma reportagem da Tribuna, vou ser muito sincero, é lógico que fico feliz por ver meu nome sendo valorizado. Mas, quando vejo um aluno meu na foto, a felicidade dele por aparecer, por mostrar para a família e mandar nos grupos de WhatsApp, isso não tem preço. Ver essa galera feliz é o mais importante.
Tribuna: Para encerrar, que mensagem gostaria de deixar para as pessoas que acompanham seu trabalho e para quem está pensando em começar a praticar algum esporte?
Linus: A mensagem que deixo, e que serve para mim todos os dias, é que você precisa ir além do esporte. Tem que procurar uma modalidade de que goste, com a qual se sinta bem. E como vai descobrir isso? Experimentando. Fazendo aula experimental mais de uma vez e entrando nesse universo do esporte. Mas não pode ficar preso somente a isso. Acho que a pessoa precisa estudar, ler, procurar assuntos diferentes, não ser alguém especialista apenas em WhatsApp e redes sociais. Precisa ler reportagens, buscar informações de quem faz um jornalismo de verdade, com ética, e não ficar defendendo fake news. Estamos na Semana de Educação Midiática, então é importante procurar meios oficiais de informação e estudar. Lembre que o esporte não é só a vida de atleta. A carreira de atleta é a menor parte da sua vida dentro do esporte. Existe um leque de oportunidades que você também pode seguir. E seja feliz, porque o importante é isso. Tenha amigos ao seu lado para crescer junto com você.









