Após 42 dias como vereador, Yuri Fófano fala sobre mandato e bastidores da Câmara de Juiz de Fora
Suplente de Tiago Bonecão (Democrata), advogado comenta, durante entrevista à Tribuna de Minas, remuneração, retorno à Superintendência, produção legislativa e articulações políticas no Legislativo
Embora não tenha disputado as eleições de 2026, o advogado Yuri Fófano (PSD) acabou entrando no circuito político de Juiz de Fora durante o período eleitoral. Suplente do vereador Tiago Bonecão (PSD), então candidato a deputado estadual, ele assumiu uma cadeira na Câmara Municipal durante a licença do parlamentar e permaneceu no Legislativo por 42 dias. De volta ao cargo de superintendente da Casa Legislativa local, Yuri esteve na redação da Tribuna de Minas para uma entrevista, na última quinta-feira (15), sobre a experiência no mandato e os bastidores da política local.
Durante a conversa, Yuri falou sobre suas escolhas para o segundo turno das eleições presidenciais, avaliou a atual gestão da prefeita Margarida Salomão (PT), em quem diz ter votado em 2024, e comentou a relação entre Executivo e Legislativo. Também falou sobre seu retorno à Superintendência da Câmara e negou ter firmado acordos políticos com Tiago Bonecão para assumir temporariamente a cadeira.
A passagem pelo Legislativo, a produção durante os 42 dias de mandato e a remuneração recebida no período também estiveram entre os assuntos. Perguntado sobre uma estimativa de até R$ 29,3 mil em remuneração bruta, caso tenha direito ao 13º proporcional, Yuri afirmou ter recebido cerca de R$ 20 mil líquidos e avaliou o trabalho realizado. O ex-vereador ainda explicou por que concentrou sua produção legislativa em três propostas e fez críticas ao planejamento municipal para situações de desastre. Parte dessas declarações, entretanto, contrasta com informações do Plano de Contingência 2025-2026, encaminhado à reportagem pelo próprio entrevistado e analisado pela Tribuna.

Confira a entrevista, na íntegra:
Tribuna de Minas: No segundo turno das eleições presidenciais, você vai votar em quem?
Yuri Fófano: Eu sou um crítico dos dois lados. Uma das coisas em que senti muita dificuldade foi me posicionar para um lado, porque eu não discuto essa questão do perfil político. Eu discuto a política pública em si. Sempre fiz isso, quando fui estudar, quando me capacitei dentro do próprio Direito, nas discussões e nos livros que compro, tudo para entender a política pública em si, que é o que muda a vida das pessoas. Quando a gente discute o perfil político, não discute a política, mas o perfil político. Esse é um dos maiores desafios. Eu sou contrário ao governo da Margarida, embora sempre tenha sido um crítico independente dela. Também trabalhei no governo municipal, fui advogado da Secretaria de Desenvolvimento Econômico. Embora não concorde com o que vem acontecendo, respeito o posicionamento de quem é contrário. Mas hoje estou entre o Flávio ou o voto em branco. Um dos dois. Para mim, os dois, Flávio e Lula, não representam nada do que eu discuto de política. Tenho uma crítica séria ao PT, principalmente ao PT municipal, porque atropela as discussões, os debates e não tem aquela ideia de respeito à independência dos poderes. Estou falando enquanto advogado e enquanto político. Aquela questão que a gente tem no Direito Constitucional, dos freios e contrapesos, para equilibrar os três poderes. Quando discutimos isso no município, temos apenas dois, porque não existe Justiça municipal. Temos o Executivo e o Legislativo. Então, não concordo. Sou um crítico do PT hoje. Tem muita gente que me segue e fala que eu tenho que me posicionar, mas essas pessoas têm um posicionamento de esquerda. A gente que lida com os bastidores da política, eu não consigo votar no PT, embora já tenha votado. Votei na Margarida. Em 2020, votamos na Sheila, porque o PP estava na chapa majoritária com o partido dela. Em 2024, votei na Margarida, no primeiro turno, porque o PSD estava na majoritária. E porque acho que o primeiro governo da Margarida foi bom. Acho que foi um governo que deu uma expectativa de mudanças efetivas. Foram feitas muitas obras que estavam paradas havia anos. Ela teve coragem. Isso é uma característica da Margarida, ela é corajosa. Mas o que ”mata o governo da Margarida” é o secretariado.
Tribuna: Você disse que está entre Flávio Bolsonaro e o voto em branco e falou sobre o domínio do PT na cidade. Mas vimos que a Câmara dos Deputados e o Senado tiveram um domínio da direita. Haverá também a indicação de quatro ministros para o Supremo Tribunal Federal pelo próximo presidente eleito. O fato de Flávio ter declarado a intenção de alterar a Constituição, com esse possível poder político concentrado, não entra na sua avaliação?
Yuri: Quando estudamos Direito Constitucional, entendemos que existem as propostas de emenda à Constituição, que são os instrumentos para alterar a Constituição. Só que existem as cláusulas pétreas. Pode ter maioria, pode ter o presidente, o STF, o Congresso, que não altera. São cláusulas que não podem ser alteradas. Muitas vezes, a gente tende a inventar um fato político e instituir aquele fato como verdadeiro. Só que temos que entender que, se não me engano, desde a redemocratização, desde a Constituição de 1988, nos momentos em que o PT esteve no governo, foi o partido que mais alterou a Constituição. Se não me engano, foram de 60 a 68 alterações. Falar que ele vai alterar a Constituição é uma questão que passa pela prerrogativa do Congresso Nacional. O presidente pode propor uma emenda, mas quem efetivamente altera a Constituição é o Congresso. Não passa por veto nem por sanção presidencial. Alterar a Constituição é natural, desde que siga o rito constitucional, porque a Constituição, desde 1988, vem sofrendo adaptações. Lembro de uma alteração recente no artigo 5º, que trata dos direitos do cidadão. Um dos direitos acrescentados, por exemplo, foi o transporte. Mas, efetivamente, o que ele quer alterar, eu não sei, porque não parei para ver. Sou um crítico, como falei. Minha tendência é votar nele ou em branco, porque ele não representa o que penso sobre política. Sou um cara de centro-direita. Acredito nos programas sociais, defendo os programas sociais, mas defendo que tenham início e fim, não que sejam eternos. Um programa social é uma política pública, e você mede o sucesso de uma política pública pelo número de pessoas que deixam de receber aquele benefício, não pelo aumento do número de beneficiários. Quando esse número aumenta, é um fracasso daquela política pública. Você identifica os problemas, cria a política pública, estabelece metodologias, faz análises técnicas e começa a observar que as pessoas beneficiadas passaram a caminhar com as próprias pernas. Isso não é uma questão romântica, é uma questão técnica de política pública. Se aquela pessoa deixou de ser beneficiada, ela é um caso de sucesso daquele programa. A pessoa que permanece no programa não é um sucesso político. É um custo e, principalmente, uma questão voltada à manutenção de um nicho político que você consegue controlar. Infelizmente, sabemos que isso existe. Os programas sociais são utilizados para fazer política, não política pública, mas politicagem.
Tribuna: Você retornou ao cargo de superintendente da Câmara Municipal? Antes de deixar a função para assumir o mandato, recebeu alguma garantia política de que seria novamente nomeado?
Yuri: Retornei. E tinha essa garantia, porque, dentro das discussões políticas internas, a Câmara tem suas divisões, o que é natural. Se você apoia o presidente da Câmara, por exemplo, o partido pode negociar algum espaço dentro da estrutura administrativa. Estou nesse cargo há cerca de dois anos, se não me engano. Tive apenas essa interrupção para assumir temporariamente o mandato, mas retornei à função. É um cargo que também precisa ser ocupado por advogado. Dentro da Câmara, somos poucos advogados, e a pessoa que ficou incumbida dessa função de inovação dos processos e modernização da estrutura da Câmara, inclusive do site, fui eu.
Tribuna: Tiago Bonecão não precisava necessariamente se licenciar do mandato para disputar as eleições. Quais compromissos políticos você assumiu com ele ou com integrantes do PSD para ocupar essa cadeira?
Yuri: Não tive compromisso nenhum com o PSD. Primeiramente, o PSD não tem nem conversa com a gente. Acho que não tem nem interesse em conversar com Juiz de Fora. Não tive conversa com nenhum integrante do partido. Não tenho contato com ninguém da executiva estadual. A executiva municipal, se não me engano, é uma comissão provisória presidida pelo Átila (Henrique de Faria). Mas não tenho ligação com ninguém da direção estadual ou nacional do PSD. Com o Tiago Bonecão, também não havia nada tratado sobre essa questão. Quando fui candidato na chapa, em 2024, não tínhamos combinado nada nesse sentido. No decorrer do processo, com a confirmação da candidatura dele, sentiu necessidade de fazer esse ato. Até me pegou de surpresa, porque não havia nada combinado. Eu tinha a expectativa de assumir o mandato com a (eventual) vitória dele, em fevereiro de 2027. Isso, sim. Só que ele me surpreendeu quando tomou essa decisão, até mesmo pela proporção que a campanha dele ganhou. Ele optou por isso e, obviamente, me deu a oportunidade pela qual sempre trabalhei.
Tribuna: Você já trabalhava na Superintendência e tinha conhecimento do funcionamento da Câmara. Mas, ao assumir o mandato e passar a ocupar uma das posições de protagonismo do Legislativo, o que observou sobre acordos, conversas e trâmites internos que mais tenha surpreendido ou indignado você?
Yuri: Dentro da estrutura da Câmara, já fui assessor jurídico do vereador Marlon Siqueira, à época. Fui assessor técnico na diretoria administrativa, então também passei pela parte administrativa da Casa. Por fim, assumi a Superintendência, que é um cargo relacionado ao processo legislativo. É onde passam as leis, as resoluções, representações, moções e tudo mais. Tudo passa pelo meu setor, sob a supervisão da diretoria legislativa. Então, a rotina da Câmara eu conheço. Eu não tive nenhum assessor enquanto vereador. Os assessores nomeados eram os assessores do Tiago Bonecão. Tudo o que fiz durante o mandato foi feito por mim. A única pessoa que contratei por fora foi alguém para me gravar e editar meus vídeos, porque isso eu não conseguia fazer sozinho. Foi um custo arcado por mim. Oficialmente, tudo o que foi feito nesses 40 dias foi feito por mim. Fui um vereador sem assessoria.
Tribuna: Durante seu mandato, foram apresentados 111 requerimentos, que representam quase 79% da produção, além de 22 pedidos de informação. Quantas dessas demandas foram efetivamente resolvidas? E, agora que você deixou a cadeira, quem continuará acompanhando os pedidos e cobrando a realização das ações solicitadas?
Yuri: Na verdade, continuo acompanhando, porque uma das minhas funções como superintendente é justamente fazer esse acompanhamento. Meu setor acompanha essas proposições. Como são oficiais, obrigatoriamente precisam ser respondidas, sob pena de responsabilidade político-administrativa da prefeita. Os pedidos de informação são ainda mais graves, porque existe uma obrigação legal prevista na Lei Orgânica do Município. Ela tem que responder aquilo que foi solicitado e apresentar os documentos comprobatórios exigidos. Os requerimentos, por si só, recebem uma resposta padrão, que é uma vergonha. O governo pega uma resposta padrão para responder centenas de requerimentos. Você solicita, por exemplo, um estudo técnico sobre a ampliação de uma linha de ônibus, e a resposta é que o requerimento foi encaminhado para um setor da Prefeitura. Isso é vergonhoso, porque onde está a resposta material ao que foi solicitado? Ela tem 15 dias para responder. Você pode entrar no sistema e vai encontrar a mesma resposta padrão para tudo. Só que responder não significa efetivar a medida. Ela fala que vai encaminhar aquela demanda, mas, na prática, onde está a execução?
Tribuna: E quem vai acompanhar a execução dessas medidas, para além das respostas formais?
Yuri: Eu ainda acompanho como cidadão, enquanto advogado. Mas os vereadores que quiserem continuar acompanhando essas demandas podem fazer isso. Fica a cargo deles.
Tribuna: Você apresentou três projetos de lei ordinária e um complementar. Entre eles, está o das Ilhas de Desenvolvimento Econômico Urbano, que foi sancionado e propõe a valorização de áreas de interesse estratégico para o desenvolvimento econômico e a qualificação urbana. Essa lei cria algum investimento obrigatório ou depende inteiramente da vontade da Prefeitura? Ao longo do texto, aparecem expressões como “poderá ser feito”. Como isso vai funcionar na prática?
Yuri: Dentro da competência do Legislativo, temos limitações para criar obrigações ao Executivo. Isso é previsto na legislação, inclusive com entendimentos do Supremo Tribunal Federal. Quando construí essa legislação, vinha trabalhando nela desde 2021, com a expectativa de apresentá-la em 2025, se tivesse assumido a cadeira efetivamente. Só que, no decorrer desse tempo, tive esses 40 dias. Então, fiz o possível para que essa legislação fosse aprovada. O que prevê a criação das Ilhas de Desenvolvimento Econômico Urbano? Hoje discutimos Juiz de Fora numa questão macro, em cima do Plano Diretor, como se estivéssemos passando de avião e vendo a cidade por cima. O Plano Diretor, que precisa ser revisado a cada dez anos, discute a cidade de maneira ampla. Só que Juiz de Fora vem crescendo e se expandindo diariamente, de maneira regular e irregular. Precisamos começar a entender a vocação específica de cada localidade. É isso que o projeto prevê. A criação de uma Ilha de Desenvolvimento envolve a participação popular juntamente com o Poder Público. Você pega o mapa de Juiz de Fora e identifica determinada região. Então, moradores, comerciantes, empresários e Poder Público vão se reunir, criar um fórum e entender como aquele bairro, que tem uma vocação específica, pode se desenvolver para valorizar essa característica.
Tribuna: Mas a lei estabelece algum investimento obrigatório nessas regiões?
Yuri: Não crio essa obrigação, porque não posso criar incentivo fiscal ou benefício que envolva renúncia de receita. Por isso, a lei prevê que os benefícios poderão ser criados por legislação específica, porque também não podem ser instituídos simplesmente por decreto. O que quero é que determinada região, que tenha vocação para moradia, lazer ou gastronomia, por exemplo, possa ter um planejamento construído por moradores, comerciantes, empresários e poder público. É como se fosse um plano específico para os bairros. Essa é uma ideia que desenvolvi estudando Medellín, na Colômbia. Na época dos cartéis, a criminalidade ocupava muitos espaços públicos. Então, o governo começou a entender, juntamente com pesquisadores e a população, que era preciso requalificar esses espaços e fazer com que as pessoas voltassem a ocupá-los. Você pega determinadas áreas e promove melhorias, trazendo moradia, mobilidade, cultura, turismo e segurança pública. Com isso, pode incentivar tanto a atuação do Executivo, com obras e melhorias, quanto a participação da iniciativa privada. Pessoas que tenham interesse em investir na requalificação desses espaços poderiam receber algum incentivo tributário em contrapartida. Por exemplo, temos aqui perto essa rotatória, cuja requalificação contou com recursos privados, se não me engano. Não sei se foi 100% privada, mas houve utilização de capital privado. Existe até um decreto do Executivo, que cito na própria lei, regulamentando a participação da iniciativa privada nesse tipo de iniciativa. Então, o que quero é também tirar um pouco dessa responsabilidade exclusiva do Executivo, porque sabemos que a Prefeitura não tem recursos para fazer intervenções na cidade inteira. Como eu, enquanto morador, posso fazer com que minha região se desenvolva? Essa é a ideia do projeto. Criar uma metodologia e um plano de desenvolvimento específico para cada região. Para isso, o Executivo precisa regulamentar o mecanismo de apresentação das demandas. A lei é autoaplicável, mas precisamos definir como o morador, o comerciante ou o empresário vai apresentar sua proposta para que aquela discussão aconteça. Vai ser pelo Prefeitura Ágil? Por um ofício protocolado? É isso que precisa ser regulamentado por decreto.

Tribuna: Outros dois projetos foram voltados à proteção de moradores atingidos por desastres, um em conjunto com Letícia Delgado e outro com o Sargento Mello-Casal. O que essas propostas acrescentam às políticas e aos mecanismos de proteção que já existem no município, que vêm sendo feitos desde quando houve as chuvas de fevereiro?
Yuri: No governo Margarida, temos um problema sério, porque o governo entende que deve afastar outros atores institucionais das discussões. Quando você acompanha os manuais e os planos de atuação da Defesa Civil nos governos Bruno Siqueira, Antônio Almas e Margarida, vê um empobrecimento da participação desses atores. Tanto o governo Bruno quanto o governo Almas tinham envolvimento do Exército Brasileiro, por exemplo. Porque o Exército, em caso de calamidade, tem tendas, mão de obra, maquinário e toda uma estrutura. Você tem a ausência da Polícia Rodoviária Federal e de diversos outros atores institucionais. Quando vê quem assina o manual do primeiro governo Margarida, encontra servidores de carreira, secretários, estagiários de diversas áreas, mas não vê o envolvimento da Polícia Militar, do Samu, do Exército e dos bombeiros. O governo retira esses atores da discussão e centraliza tudo. Então, entendendo a dificuldade de diálogo com o próprio Executivo, conversei com a vereadora Letícia. Quando toca o alerta da Defesa Civil, aquela sirene informando risco de inundação e orientando as pessoas a procurarem abrigo seguro, onde está esse abrigo? Para onde o governo direciona as pessoas que precisam deixar determinadas áreas de risco? Onde existe um espaço público ou institucional em que a pessoa tenha acolhimento, abrigo para seus animais, assistente social, psicólogo e médico? Onde está isso hoje? Depois da provocação dessa lei, a Margarida sancionou um novo manual da Defesa Civil prevendo alguns desses pontos. Só que queremos ir além, queremos que isso exista em cada região. Uma pessoa da zona rural, por exemplo, precisa procurar abrigo onde? Vai sair de casa para procurar a casa do vizinho? Está errado. Isso é política pública e precisa ser planejado. O que aconteceu na cidade foi falta de planejamento nesses casos específicos. O orçamento da Defesa Civil vem aumentando, mas onde está a discussão séria nesse sentido? O projeto prevê justamente a obrigatoriedade de especificar essas informações. Se todos nós, neste prédio, recebermos agora um alerta de que a estrutura pode desabar, para onde vamos? Essa informação é o mínimo que deve ser oferecido à população. É uma questão de acolhimento necessário.
- Nota da redação: O Plano de Contingência Municipal para o período chuvoso 2025-2026, de outubro de 2025, enviado à Tribuna pelo próprio Yuri Fófano, apresenta representantes do Corpo de Bombeiros, da Polícia Militar, da Polícia Civil, do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e da Polícia Rodoviária Federal entre os órgãos participantes. O documento também identifica imóveis que podem ser utilizados como abrigos temporários, com localização e capacidade de acolhimento, além de estabelecer responsabilidades pelo atendimento à população. O Exército Brasileiro não consta da relação nominal de participantes consultada. A previsão dessas medidas no plano, contudo, não comprova sua efetiva execução em situações de emergência.
Tribuna: Entre os eixos das suas propostas de campanha de 2024, estavam a revitalização e requalificação de áreas públicas, o direito à cidade, a inovação e a tecnologia para uma cidade inteligente e sustentável, o projeto de esverdear Juiz de Fora, o incentivo ao turismo, a educação de qualidade e as melhorias na saúde. Com exceção do que a gente pode classificar como o direito à cidade – como por exemplo, na questão das moradias que a gente está acabando de falar, e impulsionar o turismo, com as ilhas de desenvolvimento econômico -, boa parte dessas propostas ficaram de fora. Porque, sabendo que teria tão pouco tempo para trabalhar, você enxergou nesses três projetos, nessas duas áreas, as prioridades que Juiz de Fora necessitava por leis nesse momento?
Yuri: Não entendo que essas propostas tenham ficado de fora. Quando trabalho esses eixos, consigo englobar todos eles nas Ilhas de Desenvolvimento. Trago inovação, destinação de áreas para inovar e também a questão ambiental, de esverdear Juiz de Fora, entendendo os espaços públicos para desenvolver ilhas que tratem do meio ambiente. A requalificação dos espaços públicos é justamente um dos principais eixos das Ilhas de Desenvolvimento, porque requalificar é dar uma nova função social ao espaço. Revitalizar pode ser dar uma nova pintura. Requalificar é entender aquele espaço como um problema social, aplicar recursos públicos para criar outras iniciativas, como mobilidade, turismo e segurança, e, com isso, dar uma nova função social a um espaço que antes era associado à criminalidade, ao vandalismo e a outros problemas. Então, as Ilhas de Desenvolvimento tratam desses eixos. Eu iria desenvolver alguns projetos voltados à questão ambiental, até mesmo pelo meu trabalho na Comissão de Meio Ambiente da OAB. Mas, primeiro, solicitei ao setor de análise ambiental da Câmara Municipal um levantamento de toda a legislação municipal relacionada ao tema. Em 40 dias, não consegui avaliar tudo. Isso foi um dificultador, até mesmo porque não tinha assessoria. Não consegui analisar todas as leis, leis complementares e resoluções, inclusive para verificar se a própria Câmara está cumprindo aquilo que determina. O levantamento solicitado à Mesa Diretora reuniu muitas leis, e não consegui avançar nessa discussão a tempo. Mas, como disse, as Ilhas de Desenvolvimento contemplam os eixos que optei por trabalhar. Se você olhar meu programa de campanha, verá que não apresentei propostas que não pudessem ser criadas ou encaminhadas por mim. Especifiquei como pretendia fazer cada uma delas, inclusive por meio de emendas parlamentares, justamente para evitar a criação de obrigações financeiras para o Executivo sem estudo de impacto orçamentário-financeiro, o que poderia levar ao veto das proposições. Então, dentro do que me propus, optei por englobar essas questões na construção das ilhas. Uma determinada região pode ter vocação não somente para inovação, mas também para gastronomia, meio ambiente e outras atividades.
Tribuna: Educação e melhorias na saúde, você acha que também foram englobadas?
Yuri: Também. Aqui perto, por exemplo, temos o Monte Sinai. Você pode criar incentivos para que outros empreendimentos se instalem naquela região, formando um polo de saúde. Pode incentivar empresas a ocuparem determinado espaço, gerando desenvolvimento a partir daquela atividade. Então, as ilhas englobam saúde, educação e outras áreas. Por isso, pensei em apresentar várias proposições, mas, considerando o pouco tempo que tinha, entendi que o projeto das ilhas poderia reunir tudo isso. Está previsto nas metodologias de definição desses espaços. Quando defino uma área voltada à saúde, posso criar condições para que outras empresas se instalem ali, fortalecendo aquela atividade. A ideia é concentrar determinadas vocações em regiões específicas para que se tornem referências. Com isso, você desenvolve localidades, que é o objetivo central do projeto. Não é desenvolver a cidade como um todo, porque já existe o Plano Diretor, que trata das diretrizes gerais de desenvolvimento. Quero desenvolver áreas específicas, reconhecer locais com vocações próprias, desenvolver bairros e corredores. Essa é a ideia do projeto.

Tribuna: Pela legislação municipal, considerando os 42 dias em que você ocupou o mandato, fizemos uma estimativa da sua remuneração bruta como vereador. O cálculo considera o subsídio proporcional de agosto e o mês integral de setembro, chegando a aproximadamente R$ 27,6 mil. Se houver pagamento de 13º proporcional, o montante pode alcançar R$ 29,3 mil. Você considera que o trabalho apresentado nesse período justificou esse valor pago pela população?
Yuri: Não, esse valor que você está trazendo aí foi dia 20 de agosto que tomei posse. Então, no dia 19, fui exonerado. Recebi o acerto do cargo em que estava, porque tinha férias proporcionais, 13º proporcional e o período trabalhado que precisava receber. Somou o que eu tinha de direito enquanto servidor com, se não me engano, R$ 5 mil da função nova que assumi no dia 20 de agosto. Então, receberia aquele proporcional até o dia do pagamento. A Câmara fecha a folha de pagamento, se não me engano, no dia 20.
Tribuna: Mas essa estimativa não considera o acerto do cargo anterior. Estamos falando exclusivamente do que corresponde aos 42 dias como vereador. De 20 a 31 de agosto, seriam aproximadamente R$ 7.903 brutos, e setembro foi um mês integral, com subsídio bruto de R$ 19.757. Sobre o 13º proporcional, você sabe se terá direito a receber?
Yuri: Não sei. Inclusive, tem uma discussão de férias também, porque seriam férias proporcionais. Embora eu tenha ficado um mês oficialmente. Mas não estou preocupado com isso. Gastei todo o meu dinheiro investindo na campanha, porque imaginava que daria certo. Você tem que fazer essa soma, porque esses R$ 29 mil que falou não dão isso. Eu tenho os contracheques aqui. Você está contando a soma do recurso que ganhei enquanto rescisão contratual.
Tribuna: Na verdade, a soma de aproximadamente R$ 27,6 mil considera apenas o subsídio bruto proporcional de agosto e o salário integral de setembro, sem incluir o acerto do cargo anterior. É esse o valor que estamos discutindo.
Yuri: Então daria R$ 19 mil mais R$ 7 mil. O bruto. O líquido mesmo foi R$ 5 mil, se não me engano, mais R$ 15 mil. Então, R$ 20 mil. Que são os R$ 5 mil referentes ao primeiro momento em que assumi, do dia 20 até o dia 31, e um salário integral.
Tribuna: Exatamente. Mas o custo para os cofres públicos é calculado pelo valor bruto, independentemente dos descontos de Imposto de Renda e outras retenções. Considerando esse montante e os 42 dias de atuação, você acha que foi um valor bem empregado pela população?
Yuri: É difícil falar, porque tudo o que pude fazer, tenho a avaliação de que tudo com que me comprometi eu fiz, até tirando dinheiro do meu bolso para dar voz às pessoas. Todos os lugares que me chamaram, eu fui. Rodei praticamente Juiz de Fora inteira, só não fui à zona rural porque não tive como ir. Mas praticamente todos os lugares, estive presente, e por conta própria. Se eu falar por mim, é uma coisa até polêmica, porque vão dizer que ele ganhou dinheiro e está falando que foi bem pago. Mas, dentro do que me comprometi a fazer, fiz até mais do que pensava. No meu discurso, falei que, se conseguisse mudar a vida de uma única pessoa, já teria honrado a função de servir. Então, honrei. Melhorei a vida de muitas pessoas. Dei voz às pessoas, consegui resolver coisas de compra assistida, levar a Defesa Civil a lugares onde não tinha ido, consegui mudar a vida de pessoas por meio de requerimentos, embora muitos não tenham sido efetivados na prática. Alguns começaram a ser feitos durante o período em que eu estava. Os pedidos de informação também deram clareza a problemas institucionais. Então, minha função enquanto vereador, a função política institucional, eu fiz. Não fiz o que muitas pessoas entendem como sendo função de uma associação ou de uma ONG. Fiz o papel institucional, e acho que fiz muito bem. Aprovar uma lei em menos de uma semana e meia, acho que nenhum ali fez. E não foi porque o Yuri trabalhava lá, mas pela importância da legislação. Tudo com que me comprometi, eu fiz. Se estivesse preocupado com salário, não teria sido presidente de bairro, presidente de movimento estudantil e presidente do Conselho Local de Saúde, porque tudo isso é trabalho voluntário, sem remuneração. Não tinha expectativa de assumir como vereador, mas, no momento em que assumi, honrei a função legislativa. Tenho certeza disso, e você pode ver pelos comentários das pessoas, pelas postagens e pelo debate político que fiz. Trouxe clareza aos problemas. Na única audiência pública que realizei, expus os problemas do Executivo. O próprio controlador do Executivo não soube responder sobre suas funções institucionais. Tive que pegar a lei que instituiu o cargo dele e a Controladoria, ler as funções e, mesmo assim, ele não respondeu sobre as obrigações legais. Isso mostra as mazelas do Executivo, a falta de respeito institucional e a desqualificação técnica de pessoas que ocupam cargos altos na Prefeitura. Acho que tudo com que me comprometi, fiz 100%. Embora essa discussão salarial realmente gere desgaste, porque você vê quanto a população recebe, muitas vezes um salário mínimo, enquanto um político recebe esse valor. É uma questão muito desproporcional. Mas reafirmo que o que recebi gastei investindo, porque tinha a expectativa de que a campanha do Tiago daria certo e eu assumiria o mandato. Fiz gastos oficiais para contratar uma pessoa para trabalhar comigo. Inclusive, estou esperando receber meus próximos salários, até mais ou menos fevereiro, para pagar as dívidas que fiz durante a campanha.
Tribuna: Tudo o que você recebeu como vereador, você reinvestiu?
Yuri: 100%. Eu mostro meu extrato se você quiser. Comprei, por exemplo, material de tinta, foram R$ 800 para pintar a quadra, o campo do Linhares. Isso tudo saiu do meu bolso. Não tenho verba de gabinete, porque não existe mais em Juiz de Fora. Não tive assessor. Tenho minhas outras fontes de renda, porque sou advogado. Mas, oficialmente, o que ganhei evaporou. Tenho minhas contas, pago crédito, cartão e outras despesas.
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