
Talvez em razão do Dia das Crianças, nesta semana, eu me peguei, em diversos momentos, lembrando do menino que fui. De alguma forma, tentei enxergar, no adulto que sou hoje, a criança curiosa e cheia de perguntas, que, de maneira inocente, acreditava na bondade do mundo, que me chegava primeiro pela família e pela televisão, depois pela escola e pelos livros. Acabei, sem querer, promovendo o encontro do menino que fui com o adulto que sou.
Naquela época, claro, o menino não conseguia enxergar as contradições da vida, o que o levava a antever um futuro otimista. Já o adulto de hoje, jornalista, professor, leitor e cidadão, que busca conhecer melhor o país, suas desigualdades, seus conflitos e suas contradições, tem uma percepção da realidade bem diferente daquela que tinha quando criança. Depois de crescer, aprendemos que as expectativas quase nunca correspondem à realidade. Assim, fiquei pensando em como seria a conversa entre o menino que fui e o adulto que me tornei.
Se o menino encontrasse com o homem que sou, com certeza, me perguntaria quando foi que os adultos ficaram tão zangados. A intolerância que permeia nosso cotidiano, o tempo corrompido por tantas obrigações, que desgasta a paciência, a agressividade que testemunhamos nas redes sociais, a dificuldade de ouvirmos opiniões diferentes e a maneira como transformamos adversários em inimigos seriam questões que o menino talvez não conseguisse compreender.
Eu tentaria explicar-lhe que, apesar de adquirirmos conhecimento e experiência à medida que crescemos, nem sempre nos tornamos capazes de aceitar as diferenças. E, se ele insistisse e questionasse: “O que aconteceu com nossa capacidade de reconhecer a humanidade do outro?”. Eu seria obrigado a responder que, infelizmente, estamos numa época de deterioração da convivência e que já passou da hora de recuperarmos nossa empatia.
Diante dessa resposta, acho que o menino ficaria com os olhos cheios de lágrimas, seguraria minhas mãos e diria: “Acho que você teve que abandonar tanta coisa boa para se tornar adulto”. Ele seguiria seu raciocínio dizendo que nós, adultos, nos esquecemos de como brincar, que deixamos de lado nossa curiosidade e imaginação, que perdemos nossa capacidade de nos surpreender e de enxergar beleza nos pequenos detalhes da vida.
Diante de sua precoce maturidade, meu eu adulto responderia: “Você tem razão, hein? Quando a gente cresce, fica cercado por notícias, obrigações, conflitos e preocupações”. Diria, na tentativa de fazê-lo entender que, para uma pessoa já crescida, é um grande desafio reconhecer a leveza das coisas diante de um mundo em que a dureza insiste em determinar tudo o que somos.
Para encerrar a nossa conversa, ele me perguntaria o que os adultos estariam fazendo para deixar às novas gerações uma sociedade melhor. Eu tentaria esclarecer que, apesar de ter consciência do meu papel de cidadão, é muito difícil saber qual será o destino das próximas gerações, porque o que deixaremos para elas não dependia apenas das nossas escolhas individuais, das minhas ou das dele. Mas eu afirmaria com segurança que, ao longo dos anos, fiz de tudo para realizar os sonhos que tinha quando menino e que tento, na medida do possível, fazer com que nossa atuação como jornalista, professor, leitor e cidadão contribua para que outras crianças também tenham condições de sonhar.





