Celebrar é avivar a memória
“Se é verdade que, para todos nós, é no momento da morte que se revela plenamente o sentido da vida, mais ainda o é para a morte de quem doa sua vida pela causa do Reino de Deus: o mártir.”
Dia 12 de outubro foi o dia da grande celebração da Mãe Aparecida. Essa festa, porém, eclipsou a celebração de outra memória desse mesmo dia: os 50 anos do martírio do Pe. João Bosco Penido Bournier, sj. Sem deixar de fazer um comentário sobre o significado sempre atual de Aparecida, a equipe de “Igreja em Marcha” vem fazer a memória desse juiz-forano que foi morto em defesa dos Direitos Humanos.
Se é verdade que, para todos nós, é no momento da morte que se revela plenamente o sentido da vida, mais ainda o é para a morte de quem doa sua vida pela causa do Reino de Deus: o mártir. É o caso do Pe. João Bosco: nascido numa família da elite local, estudou teologia em Roma e mais tarde retornou a Juiz de Fora por ocasião da fundação do Colégio dos Jesuítas.
Ordenado padre antes do Concílio Vaticano II, J. Bosco não assumiu logo as mudanças por ele introduzidas, mas tudo mudou ao ser transferido para Diamantino – MT, e atuar junto aos Povos Beiços-de-pau, Bakairi, Merure e Bororo. Assumiu então a causa dos Povos indígenas que resistiam ao assédio de grandes proprietários rurais. Estando na Prelazia de São Félix do Araguaia para um encontro de missionários, o Pe.Bounier ficou mais uns dias em Ribeirão Cascalheira para acompanhar o bispo Pedro Casaldáliga, acusado de atividades contrárias ao regime.
Enquanto preparavam o festejo de N. Sra. Aparecida,receberam o aviso de que três mulheres estavam sofrendo tortura na delegacia local. Ali chegando, Pe. Bournier pediu aos soldados que cessassem a tortura, ou ele os denunciaria à autoridade competente.Um dos policiais deu-lhe então uma bofetada e em seguida atirou. Mortalmente ferido, o religioso faleceu nos braços do bispo Casaldáliga na madrugada do dia seguinte e foi enterrado em Diamantino.
Ao saber da morte do sacerdote, o povo invadiu a delegacia, soltou os presos, destruiu o prédio e ergueu ali uma capela para deixar viva a memória daquele mártir.Também nós, membros da Igreja onde nasceu o Pe. João Bosco, devemos impedir que seu martírio seja esquecido. A memória de quem tombou em defesa de mulheres torturadas precisa ser celebrada, para que esse martírio dê forças à missão evangelizadora da nossa Igreja.
Podemos então concluir com um comentário à festa de Nossa Senhora Aparecida. Como tantas outras devoções populares, a peregrinação ao santuário é um gesto de piedade: se a Mãe Aparecida está cotidianamente presente em sua casa – a imagem venerada no âmbito doméstico – é um dever de justiça retribuir a graça da sua presença protetora fazendo-lhe uma visita no dia de sua festa. Quem não pode ir até o Santuário, vai à missa na igreja de sua comunidade local. Nessa missa, escutará novamente as palavras do Magnificat entoado por Maria ao visitar sua prima Isabel (Lucas, 1, 47-55), onde diz que “Deus derruba poderosos de seus tronos e eleva os humildes, enche de bens os famintos e despede os ricos de mãos vazias”. Ora, esta é a memória deixada pela Mãe Aparecida: a imagem negra e quebrada se reconstitui e opera prodígios como uma pesca abundante e quebrar as correntes do homem escravizado que seria reconduzido ao cativeiro. Como não interpretar essa mensagem de Maria como sinal de que ela está sempre ao lado de quem sofre, de quem tem a vida ameaçada, de quem é excluído dos banquetes? Essa devoção à Mãe Aparecida vai além da piedade pessoal: ela alerta para os sofrimentos do povo brasileiro, cuja vida encontra-se ameaçada pela emergência climática e pela ambição dos poderosos. Que Ela esteja conosco neste momento em que se define o rumo a ser dado ao nosso País!
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