Como falar de mudanças climáticas com as crianças? Especialistas dão dicas
Pesquisadoras explicam como adaptar a linguagem à infância, evitar discursos de medo e aproximar os pequenos da natureza

Calor intenso, chuvas fortes, alagamentos e outros eventos relacionados ao clima já fazem parte da realidade de muitas crianças. Na última quinta-feira (8), o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) divulgou que mais de 30 milhões de crianças estão expostas a dois ou mais riscos climáticos no Brasil. Diante desse cenário, falar sobre mudanças climáticas desde a infância pode contribuir não só para a construção de uma relação mais próxima e consciente com o meio ambiente, como também para se preparar para os impactos dessas alterações.
Mas como abordar um tema complexo sem provocar medo ou transferir para os pequenos a responsabilidade pela crise ambiental? Às vésperas do Dia das Crianças, celebrado na próxima segunda-feira (12), a Tribuna conversou com as pesquisadoras Aldemara Amaral, da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), e Angélica Cosenza, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), sobre como abordar o tema de forma adequada à infância.
Para Aldemara, pesquisadora nas áreas de educação ambiental e educação infantil e professora da Escola Parque, em Santarém (PA), não existe uma idade específica para começar a conversar sobre o assunto. O caminho é adequar a linguagem à faixa etária e partir das experiências que a criança já tem com o ambiente.
“A educação ambiental começa mesmo antes da criança dominar o conceito de mudanças climáticas”, explica. Segundo ela, embora crianças pequenas ainda não compreendam conceitos científicos como aquecimento global, elas são capazes de perceber fenômenos presentes no cotidiano. A criança pode, por exemplo, observar que determinado local é mais quente, que uma árvore oferece sombra, que plantas e animais dependem de água, além de perceber alterações na chuva, no vento e a variação do nível de um rio.
“Não precisamos esperar que a criança tenha idade para compreender o clima. Precisamos adequar a linguagem sobre o clima à infância e partir das experiências que a criança já possui, das vivências no seu espaço, na sua comunidade, no seu bairro, no seu território”, afirma.
Natureza como espaço de aprendizagem

Para Aldemara, falar sobre educação ambiental na infância também passa por garantir que as crianças tenham contato direto com a natureza. Brincar com terra, observar insetos, plantar, acompanhar a chuva e ouvir os sons do ambiente são algumas das experiências que podem aproximar os pequenos do tema.
A professora e pesquisadora Angélica Cosenza, diretora da Faculdade de Educação da UFJF e coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Ambiental (GEA), destaca que esse contato também envolve uma questão de direito e desigualdade social. Reforçando o dado da Unicef, ela diz que muitas crianças vivem em áreas de risco que também apresentam acesso limitado a áreas verdes, saneamento básico e espaços de convivência.
“Desemparedar a escola significa levar uma educação para além dos muros. O contato com a terra, o contato com a chuva, com os ciclos da vida, a natureza deixa de ser um conteúdo a ser estudado num livro e passa a ser o próprio espaço de convivência e de aprendizado”, afirma Angélica.
A pesquisadora defende que a escola amplie as experiências ao ar livre e reconheça a natureza como parte do processo educativo. A proposta, conhecida como “desemparedamento” — associado à educadora Léa Tiriba —, não se resume a realizar atividades fora da sala de aula, mas busca valorizar outras formas de aprender, respeitando o tempo do brincar e a convivência com o ambiente.
Aldemara também ressalta que essas vivências ajudam a criança a desenvolver uma relação de pertencimento com o lugar onde vive. “O contato com a natureza é de fundamental importância para que a criança possa se desenvolver no seu contexto integral e desenvolver uma relação mais saudável com as questões ambientais”, afirma.
Almenara acrescenta que a discussão também se relaciona ao chamado ECA Ambiental, associado à Lei nº 15.512, que trata do direito de crianças e adolescentes à natureza e a um meio ambiente equilibrado.
Nesse sentido, a natureza deixa de ser apenas um conteúdo a ser estudado e passa a fazer parte da experiência cotidiana da criança. Brincar, observar, explorar e estabelecer vínculos com esses espaços pode contribuir para que ela reconheça o ambiente como parte de sua própria vida e desenvolva uma relação de cuidado com ele.
Evitar discursos que despertam medo e culpa
Ao abordar as mudanças climáticas, as duas pesquisadoras destacam a importância de apresentar a realidade sem transmitir às crianças a sensação de que não há soluções possíveis.
Para Angélica, a escola não deve esconder os problemas socioambientais, mas precisa abordar suas causas, consequências e possíveis alternativas de enfrentamento. “É evitar uma visão catastrófica no sentido de que não há mais jeito. É preciso dar a esperança, mas não esconder a realidade”, afirma
Aldemara também chama atenção para que os pais e professores não usem discursos alarmistas. “É muito importante evitar o discurso do medo, da culpa e da impotência. Não podemos dizer frases como ‘o planeta está acabando’ ou ‘a água do planeta vai acabar’”, destaca.
A criança deve compreender que existem possibilidades de ação e transformação, sem receber a responsabilidade individual por problemas que são também sociais e políticos, como aponta a professora. “Não podemos colocar a criança no lugar de culpada pela crise ambiental, na verdade, é importante que ela possa ser colocada no lugar de sujeito de direitos e participante da construção de alternativas”, explica.
Segundo ela, situações cotidianas podem ser utilizadas para desenvolver essa percepção. Uma criança que arranca flores para presentear alguém, por exemplo, pode ser orientada sobre a importância da planta e incentivada a encontrar outras maneiras de demonstrar carinho. O objetivo, nesse processo, não seria apenas ensinar determinados comportamentos, mas trabalhar valores, relações, participação e construção coletiva.
“Esperança não significa esconder os problemas, mas significa mostrar a realidade e sempre bater na tecla de que a realidade pode ser transformada e que pequenas atitudes podem trazer mudanças significativas, mudanças enormes”, afirma.

A participação pode começar por ações próximas da realidade infantil. Na escola e em casa, as crianças podem aprender sobre o descarte correto de resíduos, cuidar de plantas e hortas, observar animais e participar de atividades de preservação. “Já na primeira infância, a criança pode ser uma promotora de possibilidades de mudança, a partir da realidade dela e a partir do que aprende na escola”, explica.
Para Angélica Cosenza, esse processo também passa pelo encantamento com a natureza. Citando o pensamento do escritor indígena Ailton Krenak, ela diz que a educação ambiental não se limita à compreensão dos problemas, mas também estimula vínculos com a natureza e a imaginação de outras formas de viver.
Os adultos também devem se envolver nesse caminho. Aldemara defende que os mais velhos escutem as crianças e considerem suas percepções sobre o ambiente em que vivem. “Se nós formos escutar as crianças, elas vão falar muitas coisas que nós podemos mudar”, afirma. Por fim, a especialista defende que as conversas sobre questões ambientais aconteçam de forma leve e acessível, respeitando a idade e as experiências de cada criança.
Livros para ler com as crianças
Livros infantis também podem ser uma forma de aproximar as crianças de temas relacionados ao meio ambiente. A pesquisadora indica obras que podem ser trabalhadas de acordo com diferentes faixas etárias:

- Tapajós, de Fernando Vilela — indicado para crianças de 0 a 2 anos.
- A Floresta, de Irena Freitas — indicado para crianças de 3 a 5 anos.
- Brasileirinhos do Pantanal, de Lalau e Laura Beatriz — indicado para crianças de 3 a 5 anos.
- A Professora da Floresta e a Grande Serpente, escrito por Irene Vasco — indicado para crianças de 6 a 8 anos.
- Um canto para o Rio, de Roberta Brangioni Fontes — indicado para crianças de 4 a 12 anos.
- Educação Climática com a Turma do Pererê, Eduardo Carvalho e Eduardo Quintanilha — indicado para crianças de 4 a 12 anos.
- Sagatrissuinorana, de João Luiz Guimarães — indicado para crianças a partir de 6 anos.
- Livros do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Ambiental (GEA/UFJF) — disponíveis gratuitamente em formato digital por meio deste link. Entre as publicações estão Agroecologia escolar: quando professores/as e agricultores/as se encontram, que aborda o diálogo entre conhecimentos escolares e saberes da agricultura, e Um dia no Campo, que apresenta a relação entre campo e cidade, agricultura familiar, agroecologia e hortas escolares.










