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Canetas emagrecedoras levam restaurantes a repensar porções

Clientes relatam menor apetite e estabelecimentos de Juiz de Fora começam a adaptar porções e opções do cardápio


Por Rafaela Lima

27/10/2026 às 05h55

Para Ana Paula Neves, 57 anos, sair para comer ganhou uma nova regra: nem sempre é preciso, ou possível, terminar o prato. Professora de dança, ela utiliza Wegovy e percebeu que o apetite diminuiu progressivamente conforme as doses do medicamento foram aumentadas. A mudança também chegou aos momentos de lazer fora de casa.

“Se vou a um jantar e o prato já vem pronto, eu como apenas o que consigo, como metade, dependendo do prato”, conta. Para evitar o desperdício, ela passou a dividir refeições sempre que possível e a solicitar porções menores. A mudança também influencia a escolha dos estabelecimentos que frequenta.

A experiência de Ana Paula acompanha uma transformação no comportamento de parte dos consumidores que utilizam medicamentos como semaglutida e tirzepatida. Com a redução do apetite e o aumento da saciedade, algumas pessoas passam a consumir quantidades menores de comida. Em Juiz de Fora, o movimento já começa a ser percebido por restaurantes, que buscam adaptar pratos e opções do cardápio para atender a esse público.

Quando o prato começou a voltar cheio

No Ateliê das Massas, a percepção da mudança veio primeiro pela observação dos pratos que retornavam à cozinha. O restaurante trabalha com pratos executivos e quantidades previamente definidas, mas passou a notar que parte da comida estava sendo deixada pelos clientes.

“Percebemos que estava sobrando muito nos pratos. E, com isso, nossos clientes começaram a questionar se não tinha porções menores”, relata o sócio-proprietário Felipe Tolentino. A partir da observação, o restaurante passou a oferecer opções com quantidades reduzidas. 

A adaptação ganhou forma em um cardápio específico de “refeições equilibradas”. As opções combinam proteína, vegetais, folhas e uma porção controlada de carboidratos e são apresentadas pelo estabelecimento como alternativas que podem se encaixar na rotina de pessoas que utilizam medicamentos ou peptídeos voltados ao controle de peso, como o Mounjaro, sempre com orientação de um profissional de saúde.

Entre as opções estão tilápia grelhada com arroz integral e salada de lentilha e picadinho de carne acompanhado de penne integral, salada, vegetais e parmesão. As refeições indicam, aproximadamente, 110 gramas de arroz ou massa integral, 150 gramas de vegetais e saladas e 150 gramas de proteína, além de folhas frescas.

O próprio cardápio ressalta que as quantidades são aproximadas e podem variar conforme a preparação e que a proposta não substitui uma orientação nutricional individualizada.

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Picadinho de carne acompanhado de penne integral, salada, vegetais e parmesão (Foto: Divulgação)

O restaurante também percebeu mudanças no consumo de bebidas. Segundo Felipe, alguns clientes passaram a deixar de pedir refrigerantes e optam por bebidas como água com gás e limão.

Outra possibilidade criada pelo estabelecimento é solicitar a proteína separadamente, permitindo que o cliente aumente a quantidade caso sinta necessidade. A ideia é evitar que uma única porção determine quanto cada pessoa precisa consumir.

A adaptação também teve impacto no desperdício. Antes da mudança, o restaurante percebia que parte da comida não era consumida. Com a criação das novas opções, a expectativa é reduzir as sobras.

Comer menos não significa comer de qualquer jeito

A redução do apetite é uma das características dos medicamentos utilizados no tratamento da obesidade. Segundo a nutricionista Yuki Oashi, medicamentos como Ozempic e Wegovy, à base de semaglutida, atuam como agonistas dos receptores de GLP-1. Já o Mounjaro, à base de tirzepatida, atua nos receptores de GLP-1 e GIP, hormônios relacionados à regulação do apetite e da saciedade.

Com isso, a pessoa pode sentir menos fome, ficar satisfeita com uma quantidade menor de comida e passar mais tempo sem vontade de comer. O tratamento também pode vir acompanhado de sintomas gastrointestinais. “Náusea, sensação de estômago cheio, refluxo. Tem gente que tem constipação, tem gente que tem diarreia. Isso tudo pode fazer com que a pessoa evite determinados alimentos, preparações, prefira outras”, explica Yuki.

Por isso, algumas pessoas podem passar a tolerar melhor refeições menores e preparações mais simples. Alimentos muito gordurosos, refeições volumosas e grandes quantidades de comida podem ser menos bem tolerados por alguns pacientes, embora isso varie de acordo com cada pessoa.

Para a nutricionista, porém, a diminuição da quantidade consumida exige atenção à qualidade da alimentação. Quando a ingestão total de alimentos cai, é necessário garantir que aquilo que permanece na dieta tenha boa densidade nutricional.

“Não é só uma questão de comer menos, mas de fazer com que aquilo que está sendo consumido tenha uma boa densidade nutricional, uma boa qualidade nutricional”, afirma.

Entre os pontos que devem ser observados está a ingestão adequada de proteínas, fibras, vitaminas, minerais e água. Yuki também alerta para que a redução do apetite não leve a pessoa a passar longos períodos sem se alimentar ou a substituir refeições por alimentos de baixo valor nutricional.

Dependendo da quantidade de alimentos que o paciente consegue consumir e da forma como seu organismo tolera a alimentação, também podem ser necessários ajustes individualizados e, em alguns casos, avaliação sobre a necessidade de suplementação.

‘Divido o prato sempre que posso’

Para Ana Paula, a adaptação aconteceu tanto em casa quanto nos restaurantes. Com acompanhamento nutricional, ela passou a priorizar proteínas e reduzir alimentos que considera menos importantes para sua alimentação.

A divisão das refeições também se tornou parte da rotina. “Desde que estou com a canetinha, divido o prato sempre que posso e também solicito uma porção menor, pois fico bem incomodada com a sobra do alimento no prato”, conta.

Para ela, a existência de porções menores pode fazer diferença na escolha de um restaurante. A possibilidade de pedir uma quantidade adequada ao próprio apetite permite manter o hábito de sair para comer sem precisar consumir uma quantidade maior do que consegue.

A mudança, portanto, não significa necessariamente abandonar restaurantes ou refeições fora de casa. Em muitos casos, trata-se de adaptar a quantidade consumida à nova relação com a fome e a saciedade.

Setor acompanha mudança no comportamento

A transformação é percebida pela Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) como parte de uma mudança mais ampla nos hábitos alimentares. Segundo Francele Galil, presidente da Abrasel Zona da Mata, o setor de alimentação fora do lar já acompanha diferentes movimentos relacionados a novas preocupações dos consumidores com alimentação e bem-estar.

Para ela, o uso das chamadas canetas emagrecedoras também tem contribuído para essa transformação e exige que os estabelecimentos estejam atentos às novas demandas. “A mudança de hábito no ato de se alimentar, no estilo de vida das pessoas, tem impactado, sim, o setor de alimentação fora do lar”, afirma.

Francele cita que a adaptação já ocorre em diferentes segmentos da indústria de alimentos e bebidas e avalia que os restaurantes precisam acompanhar as transformações no comportamento dos consumidores para manter seus negócios competitivos. “A função principal de um negócio é gerar lucro. Ele tem que trazer uma forma de sustentabilidade para esse empresário. E, se ele não se adequar a essas mudanças, a tendência é que o negócio venha a ter uma queda”, avalia.

No Ateliê das Massas, a percepção é de que a procura por alternativas menores pode continuar crescendo. Para Felipe, os restaurantes precisarão acompanhar a transformação do perfil dos consumidores e encontrar formas de oferecer opções que façam sentido para quem passou a comer menos.

Enquanto os estabelecimentos testam novos formatos, clientes como Ana Paula tentam encontrar um equilíbrio entre a nova rotina alimentar e o prazer de continuar ocupando os mesmos espaços de antes. Afinal, diminuir a quantidade no prato não significa necessariamente deixar de querer sentar à mesa.

*Estagiária sob a orientação da editora Cecília Itaborahy