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Ir a cinemas, museus e teatros pode estar ligado a envelhecimento mais saudável

Estudo relacionou maior frequência a cinemas, museus e teatros a uma idade fisiológica menor; diferença estimada chegou a 1,2 ano entre os extremos de participação cultural


Por Fernanda Bassette, Agência Einstein

18/09/2026 às 11h25

Pessoas que frequentam com maior regularidade cinemas, museus, galerias, teatros e concertos tendem a apresentar uma idade fisiológica menor. É o que mostra um estudo realizado com 1.899 adultos na Inglaterra, que encontrou uma associação entre maior participação em atividades culturais e um organismo fisiologicamente mais jovem. Entre os participantes com menor e maior pontuação de engajamento cultural, a diferença estimada foi de cerca de 1,2 ano. Os resultados foram publicados no Journal of Epidemiology and Community Health.

A idade fisiológica não é a mesma que a idade cronológica. Enquanto esta corresponde ao tempo de vida, a primeira procura estimar como o organismo está envelhecendo, considerando características que podem variar entre pessoas da mesma idade.

“Ela pode ser influenciada pela característica genética, pelos hábitos, pela história de vida e pelos determinantes sociais da saúde. Tem uma série de fatores que acabam influenciando”, explica Sley Tanigawa Guimarães, coordenadora da pós-graduação em medicina do estilo de vida da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein.

Para chegar aos resultados, o trabalho utilizou dados do English Longitudinal Study of Ageing (ELSA), que acompanha adultos com 50 anos ou mais. Para medir o envolvimento cultural, os pesquisadores avaliaram com que frequência os participantes iam ao cinema, a museus ou galerias e a teatros, concertos ou óperas. As respostas foram transformadas em uma escala de zero a 15 pontos: quanto maior for a pontuação, maior o engajamento cultural.

Já a idade fisiológica foi calculada a partir de dez indicadores relacionados a diferentes sistemas do organismo, entre eles, pressão arterial, capacidade pulmonar, hemoglobina glicada, colesterol LDL, índice de massa corporal (IMC), força de preensão das mãos e velocidade da caminhada. Em conjunto, esses parâmetros sinalizam aspectos da saúde cardiovascular e metabólica, além da capacidade física da pessoa.

A cada ponto adicional na escala de engajamento cultural, a idade fisiológica foi, em média, 0,085 ano menor (cerca de 31 dias). No modelo utilizado pelos pesquisadores, quem tinha pontuação zero apresentava idade fisiológica estimada de 69 anos, contra 67,8 anos entre aqueles que atingiam os 15 pontos. A associação também apareceu em uma análise que relacionou o engajamento cultural à idade fisiológica quatro anos depois.

Segundo Guimarães, há diferentes caminhos que poderiam ajudar a explicar o resultado. “Sair para uma atividade cultural envolve muito mais do que assistir a um filme ou observar uma obra de arte. É preciso programar o passeio, lembrar do compromisso, organizar o deslocamento e, muitas vezes, encontrar e conversar com outras pessoas. Além disso, música, artes e espetáculos mobilizam atenção, memória, interpretação e emoções. Tudo isso é um baita estímulo cognitivo”, afirma a médica.

Outro possível benefício de ter uma vida cultural ativa está na redução do estresse e no convívio social. Os próprios autores lembram que estudos anteriores já associaram o envolvimento cultural a menor solidão, hábitos de vida mais saudáveis e melhor saúde mental, fatores que, por sua vez, estão relacionados a um envelhecimento mais saudável.

É importante ressaltar, porém, que o estudo mostra apenas uma associação e não permite afirmar que frequentar teatro, museu ou outras atividades culturais faça alguém envelhecer mais devagar. Os autores reforçam que a pesquisa indica uma associação e não permite estabelecer causa e efeito. Isso porque pessoas que estão em melhores condições físicas e mentais podem ter mais disposição e autonomia para sair de casa e participar dessas atividades.

A boa notícia é que manter uma vida cultural ativa não significa frequentar programas caros. Ler, ouvir música com atenção, dançar, assistir a filmes, participar de grupos ou aproveitar atividades culturais gratuitas também são maneiras de manter a mente ativa e favorecer o bem-estar. “Não precisa ir a uma ópera. Uma pessoa que ouve e aprecia com atenção uma música na própria casa pode ter até mais valor do que alguém que está só de corpo presente em um espetáculo”, diz Guimarães.