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De Juiz de Fora a Petrópolis: fotógrafo percorre a pé Estrada União e Indústria e revive história da região

Thiago Wierman percorreu a pé, em 12 dias, a estrada que liga Juiz de Fora a Petrópolis e transformou a experiência em livro, exposição e futuro documentário


Por Beatriz Bath

25/08/2026 às 06h25

De Juiz de Fora a Petrópolis: fotógrafo percorre a pé Estrada União e Indústria e revive história da região
Foto de Klumb na Pedra do Elefante, em Petrópolis (RJ) (Foto: Thiago Wierman)

O livro de “No caminho de Klumb: a Estrada União e Indústria em doze dias de caminhada”, de Thiago Wierman, nasceu da vontade do fotógrafo de conhecer de perto a história da estrada que, desde o século 19, liga Juiz de Fora a Petrópolis. Durante 12 dias, o fotógrafo viu de perto como a região mudou desde a inauguração da Estrada União e Indústria, encontrando de perto a história do Brasil.

Thiago sempre se interessou por patrimônio histórico e foi daí que a curiosidade pela região surgiu. Em 2019, ele pesquisava a origem dos municípios de Juiz de Fora e Santos Dumont, sua cidade natal. Foi nesse momento em que ele encontrou o trabalho de Revert Henrique Klumb, autor do livro de fotografias “Doze horas em diligência: Guia do viajante de Petrópolis a Juiz de Fora”, considerado o primeiro guia turístico do Brasil, lançado em 1872.

Se no século 19 a viagem levava 12 horas para ser completada em uma diligência – espécie de carruagem fechada de quatro rodas usada para longas viagens -, Thiago levou 12 dias para realizar o trajeto a pé. A duração foi proposital, justamente para dialogar com a obra de Klumb.

Experiências que vão se somando

O fotógrafo realizou a viagem em 2022, impulsionado pela pandemia e a vontade de sair de casa. Ele fez o trajeto com duas mochilas, uma para equipamentos e outra para itens pessoais, o guia de Klumb, anotações de um jornalista do Jornal do Comércio da época e os diários de Dom Pedro II.

Na época, ele ainda não tinha obtido patrocínio, então preparou um documento se apresentando, e o entregava nos locais onde ele pretendia se hospedar. Thiago trocou estadia pela oportunidade de citar os locais no livro, o que funcionou – na maioria das vezes.

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Pesquisa sobre o vale da Posse, localizado em Petrópólis (Foto: Thiago Wierman)

O fotógrafo explica que, apesar de sua empreitada ser arriscada, ele já viajava de carona, em estradas, desde 2017. Por isso, já sabia mais ou menos como se cuidar, embora confesse que deveria ter se preparado melhor para o trajeto, levando em conta sua extensão. Ele também realizava caminhadas apenas durante o dia, encerrando as atividades quando o sol começava a baixar.

“Acho que eu era um personagem engraçado na estrada”, relata ele, “com as duas mochilas, uma câmera e máscara, porque a pandemia ainda estava presente”. Apesar das dificuldades, ele explica que sempre buscou ter uma mentalidade que atraísse energias positivas.

Com um passo lento para conseguir fotografar ao máximo o ambiente ao seu redor e munido de experiências passadas, como o tempo em que serviu no Exército, ele encontrou moradores locais, historiadores, engenheiros e especialistas que o ajudaram a compreender a União e Indústria.

Um curioso obstinado

Thiago fez o caminho no sentido oposto de Klumb, que partiu de Petrópolis para Juiz de Fora. Durante o trajeto, ele encontrou de tudo, desde moradores locais cujas famílias residiam na região há gerações até ruínas de estações.

A ideia do livro surgiu justamente disso, de encontrar uma história que não cabia nas lentes da câmera, já que a ideia original era apenas uma exposição de fotos. Ao longo de uma dúzia de dias, Wierman percebeu que poderia contar uma história com um propósito: o de unir os seis municípios pelos quais a estrada passa.

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‘No caminho de Klumb: a Estrada União e Indústria em doze dias de caminhada” foi lançado no Espaço Cultural Dnar Rocha (Foto: Divulgação)

O fotógrafo precisou da ajuda de engenheiros e historiadores para explicar alguns aspectos do livro, já que no original de Klumb existem descrições detalhadas de pontes, construções e espaços naturais – muitos dos quais não estão mais de pé e são vítimas da poluição urbana.

Thiago explica que sua curiosidade foi o principal motor para encontrar esses locais e pessoas que o auxiliaram em sua jornada. Foi assim também que ele conseguiu acesso a acervos de pesquisa em Petrópolis, por exemplo.

Durante a viagem, ele também testemunhou momentos que o comoveram, como a visita à única estação da estrada União e Indústria que segue de pé, ainda que em ruínas. Ao lado de uma restauradora, ele visitou o antigo Museu Rodoviário da estação de Mont Serrat, em Levy Gasparian, que estava com as atividades interrompidas.

O prédio também está com a última mazepa, carruagem utilizada pela família imperial durante sua viagem na inauguração da estrada. Atualmente, o Museu Imperial de Petrópolis deseja trazer a carruagem, fato que não ocorreu devido à logística do transporte.

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Carruagem que transportou a família real (Foto: Thiago Wierman)

Wierman ressalta que, em sua opinião, falta um diálogo entre os municípios em que a estrada passa, uma vez que existe um potencial turístico e histórico enorme na região, atualmente esquecido.

História de todos

Após realizar a viagem e, mais tarde, obter financiamento para o projeto no edital Murilão, Thiago passou para a etapa de diagramação e edição do livro, processo que ele afirma ser mais difícil que a viagem. “Eu brinco que é mais fácil fazer a viagem entre Juiz de Fora a Petrópolis à pé do que colocar as palavras no papel”, afirma.

“No caminho de Klumb: a Estrada União e Indústria em doze dias de caminhada” conta com diagramação dupla, sendo uma parte do livro com páginas na vertical e outra na horizontal, para acomodar melhor o texto, trechos de diários, fotografias e outros.

Outro ponto de destaque, que ele explica estar no centro de qualquer projeto que elabore, é a acessibilidade. O livro contém textos alternativos e fotos-descrições, convidando leitores com deficiência visual a conhecerem a obra.

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Mostra contou com experiência tátil e fotografias (Foto: Thiago Wierman)

O guia, disponível por meio de uma versão digital em PDF, acessada por um QR Code incluso no livro, traz toda a narrativa textual e as 52 fotografias audiodescritas por Patrícia Almeida com consultoria da historiadora Cida Leite, que possui deficiência visual e é especialista também em audiodescrição.

“Eu não vejo como fazer o que faço apenas para um público”, explica o fotógrafo, que também buscou levar a acessibilidade para sua mostra no Shopping Jardim Norte, em que expôs algumas das fotografias presentes em seu livro.

Além do projeto da exposição e do livro, Thiago também possui material para a produção de um documentário, que contará com entrevistas dos participantes do livro, em outra linguagem.

*Estagiária sob a supervisão da editora Cecilia Itaborahy