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Som Aberto: relembre as histórias de quando os sábados de Juiz de Fora começavam na UFJF

Iniciativa gratuita promovia shows e exposições artísticas na década de 1970


Por Beatriz Bath

23/07/2026 às 06h00

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Artistas juiz-foranos e atrações de fora marcavam ponto nos sábados de manhã (Foto: Divulgação/Procult)

Sábado, 10h. Era esse o horário que começava o roteiro semanal de grande parte da comunidade juiz-forana, que subia para o campus da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) para assistir a shows, participar de concursos de poesia, exposições de arte e até mesmo assistir a um filme. Essa era a ideia do Som Aberto, iniciativa que nasceu no Diretório Central dos Estudantes (DCE) na década de 1970.

No roteiro dessa semana, a Tribuna reuniu alguns dos principais shows que aconteceram no Som Aberto, que durou cerca de quatro anos na década de 1970 e retornou em 2016 e 2017. O festival, criado no contexto da ditadura militar, servia como um espaço seguro para manifestações culturais da época e chegou a trazer grandes nomes da música brasileira.

Xico Teixeira, um dos idealizadores do projeto junto com o então presidente do DCE, Ivan Barbosa, define o momento como um “espaço de muita resistência política e experimentação artística estudantil”. Muitos artistas que começaram a se apresentar no Som Aberto, inclusive, seguiram carreira musical.

Uma Pá de gente e uma ideia

O projeto Som Aberto nasceu, como muitos movimentos da época, em um contexto de repressão devido à ditadura militar. No início da década de 1970, a censura já era forte e os jovens buscavam alternativas de falar de arte e democracia.

Foi aí que, por meio da união de diversos jovens de cursos como Medicina, Engenharia e Comunicação, nasceu A Pá, uma das principais bandas associadas ao Som Aberto. “A banda recebeu esse nome porque era um monte de gente, com diversos instrumentos”, explica Márcio Itaboray, hoje médico e na época estudante.

Ele também ajudou a idealizar o Som Aberto ao lado de Xico Teixeira e Ivan Barbosa. Outros estudantes como Niltinho e Guto Gomes também participaram e se apresentaram no festival. Marcio explica que, diferente de outros festivais que aconteciam na época, o Som Aberto só poderia acontecer dentro do campus da UFJF, onde estavam protegidos da repressão. Além disso, tinham a sorte de ter tantos músicos no mesmo lugar e ao mesmo tempo, unidos a favor da liberdade.

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Estudantes próximos ao antigo ICBG, no Campus da UFJF (Foto: Reprodução/Arquivo Marcio Itaboray)

As apresentações aconteciam no anfiteatro do ICBG (hoje o Instituto de Ciências Biológicas), com o apoio do coordenador Paulo Torres. Religiosamente, o Som Aberto recebia atrações locais e de fora, exposições de fotos e poesias aos sábados, às 10h, exceto nas férias da Universidade.

Apesar de fundado em um contexto social específico, o Som Aberto retornou em 2016 e em 2017, com cerca de oito mil pessoas na Praça Cívica, reunindo gastronomia, música e até aulas de yoga.

Relembre algumas apresentações

João Bosco

Um dos primeiros artistas a embarcar na empreitada do Som Aberto foi João Bosco, em 1970. E o evento também foi um dos seus primeiros shows. Como os outros artistas convidados, ele veio se apresentar e seu cachê foi comida – com direito a uma parada pelo Restaurante Universitário – e passagem.

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Niltinho, Guto Gomes e Xico Teixeira no anfiteatro do ICBG (Foto: Reprodução/Arquivo Xico Teixeira)

Da rodoviária até o campus, João Bosco foi na garupa da moto Xipa amarela de Xico Teixeira, com o violão nas costas, chegando para o show das 10h de sábado.

Sueli Costa

Natural do Rio de Janeiro e criada em Juiz de Fora, Sueli Costa também participou do Som Aberto, na época em que cursava Direito na UFJF.

A compositora se destaca por sua importância histórica para a música brasileira, chamando a atenção para suas letras em uma época em que poucas mulheres conseguiram se destacar.

João do Vale

Com direito a uma visita ao restaurante favorito dos estudantes da época, o Faisão Dourado, que ficava na galeria do Central, João do Vale trouxe para a Zona da Mata a música nordestina, agitando o campus. Xico Teixeira contou que o show foi maravilhoso e uma experiência incrível, com a casa cheia.

Raul Queixas e Mágoas

Um dos mais conhecidos tributos a Raul Seixas, o grupo Raul Queixas e Mágoas, com mais de três décadas de atuação, integrou as atrações de uma das edições do Som Aberto de 2016.

A banda teve diversas passagens em eventos culturais de Juiz de Fora e região, homenageando Raul Seixas.

Lô Borges

O artista consagrado foi uma das principais atrações da edição de 2017 do Som Aberto, ocupando a concha acústica da Praça Cívica com seu show “Paisagem da janela”. O evento foi gratuito e buscou preservar as características do Som Aberto original.

Lô Borges também participou de eventos culturais e musicais na década de 1970, sendo um nome que faria e seguiu fazendo sentido com o Som Aberto.

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Lô Borges se apresentou no Som Aberto em seu novo formato organizado pela Procult (Foto: Reprodução/Procult)

E o Som Aberto não volta mais?

Para Estevão Teixeira, que se apresentou no Som Aberto ao lado d’A Pá, o retorno do Som Aberto é difícil: “Hoje, é difícil retirar as pessoas de casa. O Som Aberto acontecia em um sábado de manhã, quem sairia nesse horário para assistir apresentações na UFJF hoje em dia?”

E Márcio Itaborahy complementa, explicando que o Som Aberto existia por um objetivo específico, indo contra a repressão da ditadura. Atualmente, não existe um ideal comum que possa guiar o festival.

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Integrantes da Pá se apresentando no Som Aberto (Foto: Reprodução/Arquivo Marcio Itaboray)

De acordo com o Pró-reitor de Cultura da UFJF, Marcus Medeiros, a Procult não tem intenção de dar prosseguimento ao Som Aberto nos moldes de 2016 e 2017, que retornou para a agenda cultural da universidade por intermédio da professora Valéria Faria, que era Pró-reitora de Cultura na época. A justificativa cai ainda em questões técnicas e de segurança.

Já em relação ao Som Aberto como era na década de 1970, como o evento era organizado inteiramente por estudantes, seria difícil replicá-lo nos dias atuais.

*Estagiária sob a supervisão da editora Cecilia Itaborahy