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Em competição durante CineOP, filmes exploram possibilidades do uso de imagens de arquivo para criar narrativas

Na mostra ‘Arquivos em questão’, filmes como ‘Proust Palimpsesto: Pastiches e Misturas’, ‘Apopcalipse segundo Baby’, ‘Irritante prodígio’, ‘Universo Circular — Jocy de Oliveira’ e ‘Notas sobre um desterro’ traçam caminhos e exploram limites dos registros


Por Elisabetta Mazocoli

01/07/2026 às 14h25

Um dos destaques da programação da Mostra de Cinema de Ouro Preto (CineOP) deste ano é “Arquivos em Questão”, que reúne cinco longa-metragens que fazem o uso criativo de imagens de arquivo para construir narrativas audiovisuais. A proposta da reunião de filmes como “Proust Palimpsesto: Pastiches e Misturas”, “Apopcalipse segundo Baby”, “Irritante prodígio”, “Universo Circular — Jocy de Oliveira” e “Notas sobre um desterro” é usar esse material não apenas como registro, mas como ferramenta fundamental para desenvolvimento da linguagem artística. Seguindo por diferentes caminhos, as obras fazem aproximações entre passado e presente, exploram os limites dos registros e procuram outras formas de se olhar para a história. 

A “Arquivos em Questão” é a única mostra competitiva da Cineop. Neste ano, o “Irritante prodígio” foi o longa vencedor do Troféu Vila Rica. A escolha foi feita pelo júri oficial composto pela documentarista e professora Anita Leandro, pela professora e pesquisadora Gabriela Lima Gomes e pelo professor e pesquisador João Luiz Vieira.

A obra parte de memórias bastante particulares de Luiza Lindner, que na sua estreia no cinema fez uma obra completamente sozinha, ao trazer à tona suas memórias da infância no hospital marcada por um período de adoecimento psíquico e desnutrição. “Eu sempre soube que eu ia contar essa história, desde as piores partes dela, quando eu tinha 10 ou 11 anos. Acho que isso está muito alinhado com o fato de que tenho pais artistas e uma irmã artista também, e minha família sempre me incentivou muito a transformar a dor em algo”, conta. Ela também expressou o desejo de fazer, agora, com que o público consiga ver o filme e discutir de maneira ampla os temas que trouxe na obra.

Em competição durante CineOP, filmes exploram possibilidades do uso de imagens de arquivo para criar narrativas
Luiza Lindner fez ‘Irritante prodígio’ totalmente sozinha, com memórias de sua infância (Foto: Divulgação/ Universo Produção)

Outras produções

Na produção “Proust Palimpsesto: Pastiches e Misturas”, o diretor Carlos Adriano partiu do único registro em filme do escritor Marcel Proust para fazer um ensaio sobre as dificuldades de adaptar a obra “Em busca do tempo perdido”, enquanto também incorpora criticamente o Massacre de Tantura e cria pontes de reflexão que o conectam com a Palestina. “[Proust] tem sido identificado como um grande memorialista, mas eu acho que essa é uma visão incompleta da obra dele, porque na verdade ele é um grande ficcionista, e o que ele prova nesse livro é que a memória é mais do que um gatilho para a criação, é o espelho do próprio processo de criação”, diz.  

O cineasta, inclusive, destaca que os seus últimos cinco filmes se aproximaram da causa palestina, que ele acredita ser a grande questão do século 21. Assim como acredita que os filmes do Godard sempre falavam da Guerra no Vietnam, entende o tema como incontornável “É muito natural colocar esses temas nos meus filmes, mesmo que de uma forma não central. É mais do que um testemunho”, diz.

Quando Rafael Saar começou a produzir “Apopcalipse segundo Baby”, ainda eram poucas as cinebiografias sobre artistas brasileiras — o que, só por essa seleção de longas, que também trazem a história de Jocy de Oliveira, já mostra um movimento bem diferente. Ligado a esse espírito do tempo, o diretor percebeu que era interessante tentar captar as experiências femininas dentro desse universo. “O que me interessava eram as histórias dessa personagem, que sempre foi relacionada à polêmica, algo que não é só de agora. Ela sempre foi ‘a louca do rap’, ‘a louca que não raspava o sovaco’, etc. Isso ficava muito mais à frente do que a arte dela”, diz. Para ele, o filme então buscou caminhos para reconstruir a memória sobre a artista, inventando e reinventando a partir do que já estava à disposição do público.

Palestina em foco

Tanto o filme “Notas sobre um desterro”, de Gustavo Castro, quanto a obra de Carlos Adriano, se dedicaram a trazer um olhar brasileiro para a questão palestina. No caso do primeiro filme, o diretor explica que fez isso justamente porque acredita que esse tema seja um divisor de águas na história da humanidade, e acredita que “reumanizar o povo palestino é reumanizar a humanidade inteira. “Parece que no Brasil, como em vários lugares do mundo, o que acontece lá parece distante da nossa realidade e algo que não se relaciona com a nossa vida cotidiana. Mas aquilo acontece na Palestina há 80 anos pela invenção de um pensamento no ocidente que nasce no ocidente. É o mesmo pensamento que permitiu o genocídio ameríndio ao longo deste continente inteiro, é o mesmo tipo de pensamento que permitiu o holocausto”, reflete. Para fazer essa aproximação, ele conta que optou por trazer a perspectiva de uma família brasileira de palestinos, e usou os arquivos para trazerem profundidade e dimensão histórica para o assunto. 

No caso do genocídio palestino, como ele afirma, é preciso fazer uma escavação de imagens para encontrar um fio narrativo — considerando arquivos pessoais, imagens históricas, registros dos primeiros fotógrafos que trataram o oriente e até o olhar que nasce com as imagens chocantes que chegam até o país através das redes sociais. A construção de Carlos Adriano, por sua vez, vai por outro caminho. Para ele, se trata de diferentes formas de se defender essa causa: “Todas elas são legítimas: desde embarcar uma flotilha e tentar furar o bloqueio para fazer entregas humanitárias, escrever artigos em jornais de grande penetração e também com obras que não pretendem ter o aspecto de denúncia explícita formal, mas colocam esse tema em uma moldura maior”, diz, sobre seu filme.

Memória em perspectiva

As escolhas que guiaram Dácio Pinheiro até a obra “Universo Circular – Jocy de Oliveira” foram relacionadas ao fascínio que sentiu pela personagem, uma pioneira da música eletrônica. “Quando tive a oportunidade de entrevistá-la, fiquei apaixonado por ela, pelo jeito e pelas reflexões dela, por tudo que ela viveu”, relembra. Desse primeiro contato, surgiu a pesquisa, e juntos foram compartilhando a criação do filme. O diretor afirma que a cantora tentou interferir na produção, e eles tiveram até mesmo discussões sobre isso, em que ele precisou reafirmar o seu olhar. Mas se lembrou o que ela disse em uma dessas conversas, que também foi importante para ele: “A gente tem que brigar até o limite para saber onde a gente vai conseguir chegar”. Para ele, resgatar figuras como ela se trata de “manter histórias que podem ser esquecidas amanhã”. 

No caso de Luiza Lindner, os arquivos usados e a própria construção do filme serviram, como ela diz, para reconstruir a própria memória do que aconteceu em sua vida. “É realmente a memória da minha vida, então para mim é muito importante ser identificada. Eu acho que é um filme que eu sempre vou ter comigo.”