Trabalhar sob ameaça: o cotidiano de quem atua na linha de frente da saúde pública de JF
Casos de agressões, ameaças e intimidações se acumulam em UBSs e hospitais do município, enquanto entidades que representam os profissionais da saúde cobram medidas efetivas de proteção
A técnica de enfermagem ainda encontra a paciente na mesma Unidade Básica de Saúde (UBS). Desta vez, não há canetas espalhadas por todos os lados e mãos segurando seu pescoço, mas a profissional da saúde compartilha um cenário de revitimização que, mesmo depois de dois anos, ainda não teve fim. Ela optou por não se identificar, teme represálias.
Após o episódio de ameaças e agressão física por parte da paciente, um dos policiais que atendeu a ocorrência tentou convencê-la a não formalizar a denúncia. A Secretaria Municipal de Saúde, à qual ela esteve vinculada por mais de uma década, não entrou em contato após o caso O afastamento médico de 15 dias, decorrente da violência, resultou em descontos salariais. “Eu não podia continuar afastada e, ao mesmo tempo, ter descontos no salário por causa de um atestado médico”, relata. Sem alternativa, ela retornou ao trabalho.
O caso foi levado ao Judiciário e, em audiência de conciliação, a técnica optou por não prosseguir com a responsabilização penal da paciente. “Naquele momento eu pensei que não adiantaria ela pagar multa para o Estado. Primeiro porque ela não tinha condições financeiras para isso. E, além disso, isso poderia aumentar ainda mais a revolta dela contra mim”, afirma.
A paciente agressora permanece cadastrada na mesma unidade e continua sendo atendida no local. A técnica segue trabalhando no mesmo espaço – perto de casa – e lidando com os efeitos prolongados da violência que sofreu. “Toda vez que acontece de algum paciente se exaltar na recepção eu já começo a ter taquicardia”, diz. Ela relata ir ao trabalho diariamente com o receio de que novas situações de conflito possam atingir a si ou a colegas de equipe.
Dimensão e frequência dos casos de violência contra profissionais da saúde chama atenção em Juiz de Fora

Reportagens publicadas pela Tribuna nos últimos meses mostram essa sequência de casos de violência contra profissionais da saúde em Juiz de Fora. Em 25 de junho de 2025, uma médica de 55 anos foi atingida por uma pedrada no rosto dentro da UBS do Bairro Furtado de Menezes, sofrendo traumatismo cranioencefálico, fraturas e hematomas. Em agosto do mesmo ano, uma técnica de enfermagem relatou ameaças na UBS do Vila Ideal. Em novembro, uma paciente entrou armada com uma faca em uma unidade de saúde do Bairro de Lourdes.
Já em dezembro, três enfermeiras foram agredidas por pacientes em diferentes unidades da cidade, nas UBSs dos bairros Teixeiras e Ipiranga e na Regional Leste – em ocorrências que envolveram tapas, ameaças e tumultos entre usuários. Em um dos episódios, a profissional voltou a receber ameaças de morte dias após a agressão. O diretor de saúde do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Juiz de Fora (Sinserpu), Anderson Luís Gonçalves, também destacou outros casos que chegaram até ele. Em um desses momentos, uma equipe de saúde ficou trancada em um cômodo da UBS Monte Verde após sofrer ameaças.
Neste ano, os casos continuaram e, em cerca de dez dias, houve quatro ocorrências em instituições públicas de saúde da cidade. No dia 20 de maio, um médico foi derrubado no chão e agredido com socos por um paciente na UBS do São Benedito e, no dia seguinte, uma técnica de enfermagem foi atacada pelo acompanhante de um paciente enquanto aplicava medicação no terceiro andar do Hospital de Pronto-Socorro (HPS). No dia 28, uma médica foi ameaçada de agressão pela acompanhante de uma paciente na UBS São Judas Tadeu, na Zona Norte de Juiz de Fora. No último dia do mesmo mês, uma mulher depredou uma porta do HPS, além de gritar no interior da instituição. Em junho essa realidade não cessou, uma enfermeira de 46 anos foi agredida por um paciente também no HPS no dia 23. O caso é investigado pela 1ª Delegacia de Polícia Civil, responsável pela área onde a instituição está localizada.
Violência contra profissionais da saúde também se repete em Minas
A violência contra profissionais da enfermagem seja em Juiz de Fora ou por todo o estado é resultado de um conjunto de fatores que vão além de episódios isolados, conforme explicou o Conselho Regional de Enfermagem (Coren), que, entre janeiro e maio deste ano, contabilizou 112 relatos de auxiliares, técnicos e enfermeiros que afirmaram ter sofrido algum tipo de violência durante o exercício profissional em Minas Gerais. Segundo a entidade, pesquisa aplicada com esses trabalhadores apontou que apenas 11 entrevistados disseram nunca ter vivenciado situações semelhantes. Em todo o ano de 2025, o cenário também se mostrou alarmante: dos 396 profissionais que responderam ao questionário do conselho, 367 afirmaram já ter sido vítimas de violência no ambiente de trabalho.
Os ambientes com maior concentração de ocorrências, segundo respostas obtidas pelo Coren através da pesquisa “Violência Enfrentada por Profissionais de Enfermagem no Ambiente de Trabalho”, são os setores de urgência, emergência, UPAs, pronto-atendimentos e unidades hospitalares com alta demanda assistencial. Embora existam registros em unidades particulares e filantrópicas, os casos de violência se concentram nos equipamentos públicos.
Entre as principais causas, segundo a entidade, estão a superlotação das unidades, a demora nos atendimentos, o déficit de profissionais e a sobrecarga de trabalho. Em setores de urgência e emergência, pronto-atendimentos e UPAs, o elevado fluxo de pacientes e o longo tempo de espera costumam aumentar a tensão entre usuários, acompanhantes e equipes de saúde. A categoria também aponta que condições inadequadas de trabalho, falhas na estrutura das unidades, insuficiência de medidas de segurança e a falta de preparo para lidar com situações de conflito contribuem para o agravamento do problema. Soma-se a isso a naturalização da violência nos ambientes de assistência, apontada pelos profissionais como um dos obstáculos para o enfrentamento da questão.
O impacto é direto na saúde mental dos servidores, com sintomas como ansiedade, medo, desgaste emocional, insegurança, adoecimento psíquico e desmotivação profissional. Mas, segundo a conselho, os dados revelam também o que acontece após esses episódios. “Muitos profissionais afirmaram não receber apoio adequado após as agressões ou sequer formalizaram denúncia, o que reforça a percepção de subnotificação e naturalização da violência no cotidiano da Enfermagem”, destacou o Coren sobre a fragilidade de suporte institucional.
Entre a sobrecarga e o medo: violência expõe crise estrutural na saúde pública
A situação é ‘endêmica’ entre profissionais da saúde, conforme aponta o titular da Delegacia Regional do Conselho Regional de Medicina em Juiz de Fora, José Nalon. “É bastante comum, as vezes recorrem a nós falando que não querem voltar mais na unidade. Há uma série de percepções distorcidas que colocam sobre o médico a responsabilidade por problemas que, na verdade, são resultado de falhas estruturais”, diz o conselheiro, que foi procurado nas últimas semanas por uma profissional de Cataguases que não quer retornar ao serviço após sofrer violência psicológica de um paciente.
Durante a própria experiência profissional, Nalon relata ter acompanhado o mapeamento da distribuição das UBSs na cidade e observado situações em que uma única unidade era responsável por atender uma população extensa no entorno – acima da capacidade de atendimento e com quadro de servidores reduzido. Embora haja 65 unidades básicas distribuídas por diferentes regiões da cidade, o delegado observa que a presença física desses equipamentos não significa, necessariamente, que a demanda da saúde é suprida.
Segundo ele, é necessário que seja visto pelo Poder Público as condições em que as instituições de saúde, como as UBS, tem funcionado: da sobrecarga dos profissionais da saúde ao descontentamento dos pacientes diante da espera. Isso porque, quando se fala do acesso à saúde pública e de qualidade, devem ser mensurados a capacidade estrutural do equipamento, a quantidade de profissionais disponíveis e o tamanho da população residente na área de abrangência da unidade – que devem estar em consonância para absorver as necessidades do território atendido.
O delegado também ressalta o outro lado, que é dos pacientes. O contexto social, marcado por diferentes formas de opressão vividas pela população atendida e pela ‘cultura do imediatismo’, contribui para os índices de violência. “Muitas vezes faltam condições básicas, como trabalho e moradia para essas pessoas”, explica, sobre pacientes que, já atravessados por situações de vulnerabilidade, chegam às unidades de saúde na expectativa de encontrar uma solução imediata para seus problemas e, diante da frustração ou da demora no atendimento, acabam entrando em desespero.
Entidades da saúde apontam caminho para enfrentamento às violências sofridas pela categoria e cobram respostas
Sistema de vigilância nas salas de espera, reforço policial ou da Guarda Municipal nos arredores das Unidades Básicas de Saúde, protocolos de prevenção e suporte concreto aos servidores vítimas de agressão e ameaças estão entre as medidas em discussão para frear a violência contra profissionais da rede pública de saúde em Juiz de Fora. Apesar das propostas e promessas apresentadas após sucessivos episódios de agressão, ainda não existe, de fato, uma política consolidada de enfrentamento para proteger trabalhadores e usuários do sistema público de saúde na cidade, conforme apontaram as entidades que representam esses profissionais.
Entre as principais melhorias necessárias elencadas pelo Coren estão reforço da segurança nas unidades de saúde; implantação de protocolos específicos para prevenção e enfrentamento da violência; apoio psicológico aos profissionais vítimas de agressão; campanhas educativas voltadas à população; responsabilização dos agressores; melhoria das condições de trabalho e ampliação do número de profissionais para reduzir a sobrecarga e o desgaste das equipes.
Já o CRM relembra promessas, que, caso cumpridas, poderiam ajudar na proteção da integridade dos profissionais. “Obtivemos a promessa de melhorias na segurança, com a realização de rondas itinerantes da polícia no entorno da unidade. Também foi discutida a implantação de um sistema de alarme para que médicos possam acionar apoio em situações de coação” afirma o delegado, ao apontar que, até o momento, as medidas ainda não foram aplicadas.
O Sinserpu-JF também informou que vem cobrando medidas eficazes para garantir a integridade dos servidores da saúde. Segundo o sindicato, é urgente a adoção de ações efetivas de proteção, como o reforço da segurança nas unidades de saúde, a instalação de câmeras de monitoramento e respostas mais rápidas das forças de segurança. “É preciso reconhecer a exposição cotidiana ao risco e garantir condições dignas e seguras de trabalho”, frisou Anderson Luís Gonçalves, conhecido como “Andinho”, diretor de saúde da entidade. Para ele, a demora no atendimento policial e as medidas paliativas que vem sendo adotadas pela gestão municipal se mostram insuficientes frente a gravidade da situação.
“Não bastam justificativas ou soluções paliativas: é preciso agir com responsabilidade, firmeza e compromisso com a vida de quem cuida da população” destacou Andinho. No final do ano passado, o secretário da Secretaria de Segurança Urbana e Cidadania, Fernando Tadeu David informou que havia apresentado uma proposta de videomonitoramento nas UBSs. A ideia, segundo ele explicou à época, era incluir a ferramenta na entrada e na sala de espera. Questionada sobre a pretensão da Administração municipal em criar novos protocolos ou políticas específicas para proteção dos profissionais da saúde; e sobre o andamento da medida nas UBSs, a PJF não respondeu.









