O pulsar de uma cidade ferida: entre cicatrizes e recomeços

“Durante décadas, o Morro do Cristo permaneceu ali como uma espécie de guardião silencioso da cidade”


Por Gracielle Nocelli

03/06/2026 às 08h00

Juiz de Fora completou 176 anos. Mas há aniversários que não são feitos somente de comemorações. É necessário olhar e perceber as próprias cicatrizes. Nos últimos meses, Juiz de Fora viu a chuva transformar ruas em rios, casas em ruínas e memórias em escombros. O que parecia sólido revelou sua fragilidade. O que parecia permanente mostrou-se provisório. E, talvez por isso, a imagem mais emblemática deste aniversário não seja a de seus prédios históricos, de suas avenidas ou de seus cartões-postais. Talvez seja a fissura aberta no Morro do Cristo. Há algo profundamente simbólico naquela ferida exposta.

Durante décadas, o Morro do Cristo permaneceu ali como uma espécie de guardião silencioso da cidade. Do alto, observava gerações nascerem, partirem, amarem, trabalharem e sonharem. Era a paisagem que parecia resistir ao tempo. Mas a chuva rasgou a encosta e revelou algo que talvez estivesse oculto há muito mais tempo do que imaginávamos.

A fissura não está apenas no morro. Ela atravessa a cidade. Ela expõe desigualdades históricas, vulnerabilidades urbanas, ausências de planejamento e a dura realidade de milhares de pessoas que convivem diariamente com o medo de que a próxima chuva lhes roube tudo. O Morro do Cristo rompeu-se diante dos nossos olhos, mas talvez estivesse apenas tornando visível aquilo que, há anos, insistíamos em não enxergar.

Entretanto, existe algo que as tragédias também revelam. Em meio à lama, surgem mãos. Em meio ao medo, surgem abraços. Em meio ao caos, surgem pessoas. Juiz de Fora assistiu a vizinhos acolhendo vizinhos, voluntários distribuindo alimentos, profissionais exaustos permanecendo firmes em seus postos e famílias dividindo o pouco que tinham. Quando a terra cedeu, a humanidade resistiu.

Talvez seja isso que sustenta uma cidade. Não o concreto. Não as construções. Não os monumentos. Mas a capacidade de permanecer humana quando tudo parece desmoronar.

A fissura do Morro do Cristo continuará visível por muito tempo. Talvez anos. Talvez décadas. E talvez ela deva permanecer, ao menos simbolicamente, em nossa memória coletiva. Não como um monumento à tragédia, mas como um lembrete.

Lembrete de que cidades também adoecem. Lembrete de que o progresso sem cuidado produz rachaduras invisíveis. Lembrete de que a natureza sempre nos recorda que não somos seus donos, apenas seus habitantes.

Aos 176 anos, Juiz de Fora não celebra apenas sua história. Ela contempla suas feridas. E há um aprendizado nisso. Porque amadurecer não significa esconder cicatrizes. Significa aprender a olhar para elas sem desviar os olhos.

Hoje, ao observar aquela montanha marcada, talvez possamos compreender algo sobre nós mesmos: uma cidade não é feita apenas por suas paisagens preservadas, mas também pelas marcas que carrega e pela coragem que encontra para continuar existindo apesar delas.

Parabéns, Juiz de Fora! Não por ser perfeita, mas por continuar de pé, mesmo quando a terra sob seus pés insiste em lembrar sua fragilidade.

*Jungley de Oliveira Torres Neto é professor e pesquisador na área de Filosofia da Educação

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