A pele do tempo

“Toda idade, tanta de uma cidade, quanto em nós, deixa sinais na gente.”


Por Jose Anisio Pitico

31/05/2026 às 06h15

Neste domingo, dia 31 de maio, Juiz de Fora, completa 176 anos de vida. Eu que vim para cá com a minha família – meu pai, minha mãe e o meu irmão – em 1968, me considero um juiz-forano nato, como se aqui tivesse nascido. Saí “pitico” de Porciúncula (RJ) e continuo crescendo.

Tenho muito amor a Juiz de Fora. Amo essa cidade. Há pouco mais de dez anos, recebi da Câmara Municipal, através da vereadora, à época, Ana Rossignoli, o título de Cidadão Honorário de JF. Conforme lei de sua autoria, número 13.353/2016. Minha eterna gratidão à ex-vereadora e amiga, Ana do Padre Frederico.

Toda idade, tanta de uma cidade, quanto em nós, deixa sinais na gente. Em nossa pele, o tempo desenha vincos, curvas, marcas e rugas que nos definem para o resto da vida. E as cidades também envelhecem. Também adquirem pele: das ruas, calçadas, praças
e esquinas. Mas existe uma outra camada de pele mais funda – invisível –costurada de lembranças, ausências, afetos e travessias. É nessa parte que o tempo se deita e deixa seus rastros, porque uma cidade sem marcas seria apenas um cenário morto, sem passado, sem alma.

O tempo presente é o que transforma o concreto em pertencimento. Precisamos encher de humanidade esse tempo na cidade. Voltar a fazer das praças públicas, lugares de encontros; das ruas, mapas afetivos. Descer e subir o “Calçadão”, que se transformou em um corredor de pessoas apressadas, ausentes de si.

Esses comportamentos contemporâneos que não oferecem lugares para os encontros afastam as pessoas idosas do convívio social. Porque a sociedade digital, virtual, enxerga obsolescência onde deveria reconhecer experiência. Quer apagar as marcas do tempo quando deveria aprender a preservá-las. Ao celebrar os seus 176 anos, JF não precisa negar sua idade e parecer jovem. Ela precisa parecer inteira.

Sustentar a sua vivência com essa idade e fortalecer sua dignidade de quem sabe que envelhecer não é perder valor e ser menos. É acumular presença. A maturidade de sua idade está menos no que ela inaugurou do que na forma como ela cuida do que herdou. Porque o futuro de uma cidade não nasce do esquecimento das pessoas que a ajudaram a levantar.

Nesse aniversário de nossa querida JF, saibamos tocar a sua pele com reverência, respeito, cultura cívica e cidadã. Que nossas mãos não sejam as que apagam as suas memórias, nem joguem no chão as histórias familiares. Mas que sejam mãos que as preservem. Que nossos olhos aprendam a ver beleza nas marcas existentes (as que ainda resistem) na cidade, que a pressa diária insiste em desprezar. Uma cidade, como a nossa, amadurece como a gente amadurece: quando, verdadeiramente, deixamos de temer os sinais do tempo e passamos a reconhecê-los como prova maior de vida. E não há beleza maior do que uma história bem
vivida impressa na pele.

Parabéns, JF. Eu te amo!